A ira justa de um Deus Santo

por Tim Challies

Tim Challies
Tim Challies

Recentemente, comecei uma breve série sobre a santidade de Deus e a existência do inferno. Numa época em que o inferno está sob ataque, quero mostrar que qualquer questão sobre a existência do inferno não é um questionamento sobre a existência – ou não – de um lugar. No último post, eu disse que há duas maneiras pelas quais Deus pode reagir ao pecado do ser humano: com uma ira justa ou com paciente misericórdia.

Hoje quero mostrar que quando o Deus Santo tem contato com o pecado humano, Ele pode reagir com ira justa. Quero olhar para a história de Uzá (2 Samuel 6.1-7) para nos ajudar a entender a justiça de Deus. Deixe-me dar uma breve explicação do contexto: Há muitos anos atrás a arca da aliança tinha sido capturada e levada para outro lugar. O povo de Deus havia quebrado a aliança com Deus e Ele havia  entregado-os a seus inimigos. Quando Ele fez isso, os Filisteus os atacaram, saquearam e capturaram a arca. Quando eles capturaram a arca, eles não somente estavam levando um ícone religioso. Em vez disso, eles estavam levando a presença de Deus do meio dos Israelitas e os Israelitas entenderam que isso significava que Deus havia os abandonado e não mais estava no meio de Seu povo. Os seus pecados eram tão grandes, tão ofensivos a Deus, que Deus deu as costas para eles por um tempo.

Mas esse tempo durou apenas alguns meses. Após poucos meses, a arca retornou à nação de Israel, mas não ao tabernáculo. Em vez disso, ela permaneceu por muitos anos na casa de um homem chamado Abinadabe. E agora, finalmente, quando chegamos em 2 Samuel, o rei Davi havia determinado que era necessário que a arca voltasse à sua casa em Jerusalém. Isso significa mais que mover uma caixa de um lugar para outro. Isso significa retornar Deus ao seu lugar central nos corações e mentes das pessoas. É um ato significativo que demonstra a volta dos corações do povo a Deus.

Então eles carregaram a arca em uma carroça novinha e conforme ela ia pela estrada, havia dança, canto e regozijo. As pessoas celebram a volta do Senhor. Deus irá novamente habitar no meio de seu povo. Esse é um grande dia! E então, de repente, exatamente no meio de toda celebração, tudo fica quieto. Um homem havia caído ao lado da carroça. Ele cai no chão e é declarado morto.

O que havia acontecido? Conforme a carroça andava, os bois repentinamente tropeçaram e por um momento parece que a arca poderia cair. Um homem chamado Uzá vê isso acontecer. Ele estende sua mão para segurar a arca, para evitar que ela caia na lama. E, no momento que ele toca a arca, Deus o mata.

Muitos anos atrás, Deus havia ordenado que ninguém tocasse a arca, nunca. Ele havia dado regras muito claras sobre como a arca deveria ser transportada e cuidada. Houve uma família inteira em Israel, os filhos de Coate, que eram dedicados a essa tarefa de transportar a arca e os outros utensílios sagrados. Uzá era dessa família e a primeira coisa que ele teria aprendido sobre essa tarefa é: Não toque. Você nunca deverá tocar a arca e não deverá colocá-la em uma carroça. Uzá, Abinadabe e Davi sabiam disso. Eles não tinham desculpa.

A arca era um objeto sagrado. Era o lugar de Sua presença, uma representação terrena de Sua santidade, que ninguém deveria tocar. Por estender sua mão e tocar a arca, Uzá estava agindo como se Deus não fosse santo de fato, como se ele e Deus fossem iguais. Ele estava tratando Deus com menosprezo.

R. C. Sproul expressa isso muito bem. O erro fatal de Uzá era pensar que suas mãos eram menos sujas do que a lama no chão. O que é a lama senão pó e água fazendo a vontade de Deus? A lama nunca havia pecado; ela nunca havia desobedecido a Deus, odiado Deus ou tentado a erguer-se no lugar de Deus. A lama nunca havia cometido adultério, odiado alguém ou tomado o nome de Deus em vão. Mas Uzá era um pecador em rebelião contra seu Criador. Suas mãos eram sujas porque seu coração estava sujo com pecado. E quando suas mãos pecadoras trocaram a santa arca, Deus respondeu com ira justa.

É isto o que vemos em Uzá: Pecado exige justiça, justiça exige punição e a punição se torna visível com a ira. Um Deus santo é um Deus justo, um Deus que julga o certo do errado. Quando Ele julga algo como errado, Ele deve punir e a punição é expressa na ira.

JUSTIÇA

Uzá violou a santidade de Deus e Deus o matou na hora. Isso pode ser chocante para nós. Nós pensamos: “Tudo o que ele fez foi colocar a mão na arca! Ele só estava tentando ajudar! Deus está sendo injusto!”, mas pensamos assim somente porque menosprezamos Deus; menosprezamos Sua santidade e menosprezamos os nossos pecados. Não reconhecemos a vastidão dos nossos pecados, sua intenção, seu horror. Isaías, o qual vislumbrou Deus na Sua sala do trono, nunca teria dito: “Deus exagerou aqui.”. Nunca passaria por sua mente que Deus poderia agir de uma forma que fosse injusta.

Ser um humano que peca contra Deus não é meramente equivocar-se ou fazer asneiras. Pecar contra Deus é declarar intencional e conscientemente independência do seu Criador, declarar que você quer que Deus seja destronado, declarar que você quer ser deus em Seu lugar, cometer traição contra o Rei do Universo, declarar guerra contra o próprio Deus. Pecar é olhar diretamente para a face de Deus e dizer “eu te odeio”. É dar as costas para todo o amor de Deus, paciência, bondade, misericórdia e graça. É corromper com o pecado um ser criado à imagem de Deus. É ser deliberadamente impuro diante de toda a santidade de Deus.

Você vê o horror do pecado de Uzá e do seu pecado? E ainda assim tantas pessoas esperam que Deus seja menos que justo contra aqueles que têm cometido o crime de pecar contra Ele. Porém, onde há pecado, deve haver justiça. Você vê isso? Deus não pode ignorar o pecado, Ele não pode fingir que isso não aconteceu, Ele não pode apenas deixar o pecador livre das consequências, assim como nosso sistema legal pode olhar para um assassino em série e dizer “Não se preocupe com isso.”.  Fazer isso seria ser injusto e ser injusto significa ser impuro. Deixar o pecado passar em branco iria contra a natureza santa de Deus. Não há provisão no caráter de Deus para ignorar até mesmo um único pecado.

Quando Deus viu Uzá tocar a arca, ele passou o julgamento imediato, de que Uzá era culpado de um crime contra Deus. E, como todos nós sabemos, todo crime necessita uma punição.

PUNIÇÃO

Algumas semanas atrás, James Holmes se muniu com armas, entrou numa sala de cinema que estava cheia de pessoas e abriu fogo. Quando ele terminou, ele tinha matado 12 pessoas e ferido 58. Num futuro próximo ele irá para o tribunal e ficará diante de um juiz. Nós esperamos que o juiz traga uma sentença como esta: “Você é culpado. Você será condenado à prisão perpétua ou será condenado à morte.”, ou seja lá qual for a pena máxima no Colorado. A justiça traz um veredito de culpado, o qual traz a sentença. O juiz foi justo. Para a justiça ser justa, o culpado deve ser declarado culpado e a punição deve ser justa de acordo com o crime.

Esse juiz também poderia ser injusto. Ele poderia ser injusto por considerar o homem como culpado, mas não impor uma sentença. “Não há dúvidas de que você matou todas essas pessoas, mas, se você prometer não fazer isso novamente, eu deixarei você ir.”. Isso seria uma enorme violação da justiça. O juiz também poderia ser injusto por impor uma pena muito leve. “Você é culpado de 12 homicídios e 58 tentativas de homicídios. Eu te sentencio a pagar uma multa de R$400,00 e participar de aulas de controle de raiva.”. Novamente, seria revoltante. Se houve um crime, exigimos justiça. E quando alguém foi declarado culpado, especialmente de uma ofensa terrível, exigimos punição porque é certo punir o pecado.

Deus deve punir o pecado. Ele não pode julgar o pecado como errado e não fazer nada com relação a isso. Isso seria injusto e impuro. Portanto, quando Uzá tocou a arca, Deus o julgou culpado e então teve que puni-lo. Essa punição foi expressa pela ira.

 IRA

Um pecador se apresenta no tribunal de Deus e Deus diz: “Você é culpado. Você cometeu um crime contra um Deus infinitamente santo.” Qual é a punição apropriada? A punição justa é encarar a santa ira de Deus.

O que é ira? Ira é o intenso ódio de Deus pelo pecado. Charles Leiter diz que a ira de Deus é Seu “santo e intenso ódio pelo pecado, a reação e repulsa de Sua santa natureza contra tudo o que é mau.”. Não é somente um sentimento, como se o pecado apenas fizesse com que Deus sentisse ódio, mas é o maior nível de repulsa. Deus despreza absolutamente o pecado e responde a ele com ira.

Há alguns que dizem que simplesmente não conseguem acreditar em um Deus de ira, mas eles precisam tomar cuidado com aquilo que eles desejam. Vamos pensar sobre isso: de que outra forma Deus poderia reagir ao pecado se não com ira? Ele poderia reagir ao pecado com alegria. Ele poderia ser um Deus que se deleita com o pecado, um Deus que ri quando machucamos uns aos outros, que se alegra quando roubamos, que nos ama mais quando estupramos, assassinamos e destruímos. É esse o Deus que você deseja? Ele também poderia ser um Deus ambivalente quanto ao nosso pecado, que simplesmente não se importa realmente. É esse o Deus que você quer adorar? Um Deus que vê alguém assassinar uma criança e diz “o que você quer que eu faça sobre isso?”? Não queremos um Deus assim. Por quê? Porque o pecado merece o ódio! O pecado merece justa punição. Nossa própria natureza clama por justiça.

Se Deus não respondesse ao pecado com ira, Ele seria um Deus indigno da nossa adoração. Ele seria um Deus injusto, impuro e indigno. Ele não seria Deus, na verdade. Portanto, Deus não reagiu exageradamente quando viu o pecado de Uzá; Ele não foi nem um pouquinho injusto. Ele meramente deu a Uzá a sentença justa pelo seu pecado – a sentença justa para qualquer pecado – justiça imediata expressa pela ira. A única coisa incomum sobre a punição foi sua rapidez e imediatez.

A ira de Deus é expressa contra o pecado, o que significa dizer contra os pecadores. Aquele intenso ódio contra o pecado será expresso contra aqueles que desafiaram Deus. Porque o pecador pecou conscientemente, ele deve encarar a punição conscientemente. Qual é a extensão correta para um crime dessa magnitude? Um mês encarando a ira de Deus? Um ano? Vinte anos? Por causa da distância eterna entre Deus e o homem pecador, ele cometeu uma ofensa infinita e eternal e deve encarar essa punição eternamente. A eternidade da punição é simplesmente uma realista avaliação da eterna vastidão de diferença entre nós e Deus.

Portanto, a sentença justa por pecar contra esse santo, santo, santo Deus é ser declarado culpado e encarar a ira de Deus contra o pecado eternamente e conscientemente.

Mas quando a santidade de Deus entra em contato com o pecado, Ele nem sempre age com justa ira imediata. Algumas vezes Deus escolhe estender paciente misericórdia. Observaremos isso no próximo post.

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Traduzido por Natália Moreira | Reforma21.org | Original aqui

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