A sutil ofensiva neoliberal (2)

por Phil Johnson

Por Phil Johnson
Por Phil Johnson

Parte 01

Quatro tendências liberais que os evangélicos devem combater

Para ajudá-lo a enfrentar a corrente, aqui estão quatro tendências principais na cultura de hoje que os líderes neoliberais estão promovendo e aproveitando:

1. Eles inconsequentemente seguem o zeitgeist¹.

Liberais teológicos sempre foram estudantes diligentes do espírito da época. Há um século, eles eram conhecidos como “modernistas” porque os valores pós-Iluminismo foram o pretexto que eles usaram para promover a agenda liberal. Eles insistiam que se a igreja se recusasse a mudar com os tempos, o próprio Cristianismo se tornaria irrelevante.

Naturalmente, “mudar com os tempos” significa reduzir a mensagem do Evangelho. As sofisticadas mentes modernas não aceitariam os milagres e outros elementos sobrenaturais da Escritura. Sem problema, os modernistas insistiam, pois, de qualquer forma, o verdadeiro coração da mensagem bíblica é o conteúdo moral e ético. Além disso, eles diziam, a virtude prática é o que a igreja deveria focar. Eles consideravam uma completa loucura que pregadores enfatizassem itens doutrinários difíceis, que soariam primitivos e ofensivos aos ouvidos modernos, como a ira de Deus, a expiação pelo sangue, e especialmente a doutrina do castigo eterno. As gerações futuras seriam perdidas pelas igrejas que sustentassem essas doutrinas e se recusassem a acomodar o pensamento moderno, eles solenemente avisaram. A situação era urgente.

(É claro que eles estavam totalmente errados. Igrejas e denominações que abraçaram as ideias modernistas declinaram severamente, e algumas morreram. Igrejas que permaneceram fiéis às suas convicções evangélicas cresceram.)

Hoje em dia, os neoliberais argumentam que a igreja precisa de uma revisão profunda, baseada no desafio do pós-modernismo. O mundo mudou de ponto de vista novamente, e os liberais ainda reclamam que a igreja ficou pra trás, está fora de sincronia, e crescentemente irrelevante. Note, entretanto: embora o pretexto neoliberal  se afaste do modernismo promovido por suas contrapartes do século XIX, tanto a linha de argumentação quanto sua agenda teológica permanecem exatamente as mesmas. As doutrinas que os liberais pós-modernos desafiam incansavelmente são as mesmas que os modernistas rejeitaram, especialmente o ódio de Deus pelo pecado, a expiação substitutiva penal, e a doutrina do inferno.

Não é segredo que o mundo sempre desprezou certos aspectos da verdade bíblica. Se fosse um objetivo legítimo para a igreja manter-se atualizada com o mundo, talvez fizesse sentido revisar e corrigir a mensagem de tempo em tempo. Mas a igreja está proibida de cortejar o espírito de sua época, e uma das maiores razões é que o Evangelho é como uma pedra de tropeço que não pode ser adaptada para encaixar preferências culturais ou cosmovisões alternativas. Pelo contrário, ele confronta todas elas.

Cuidado com líderes de igreja que estão mais preocupados em serem contemporâneos que em serem doutrinariamente saudáveis, mais preocupados com sua metodologia que com sua mensagem, mais cativados pelo politicamente correto que pela verdade. A igreja não é chamada a imitar o mundo ou fazer o Cristianismo parecer legal e atraente, mas a proclamar o Evangelho fielmente – incluindo as partes que o mundo normalmente despreza: pecado, justiça e juízo (cf. Jo 16.8). Jesus expressamente ensinou que se fôssemos fiéis nessa tarefa, o Espírito Santo convenceria corações e levaria crentes a Cristo.

O desejo de estar em alta e na moda leva a outra tendência que atualmente apoia a agenda neoliberal:

2. Eles querem a admiração do mundo a qualquer custo.

Não há, claro, nada errado em ser agradável. Como recipientes da graça divina e do fruto do Espírito, deveríamos, por definição, ter um carisma pessoal (cf. Gl 5.19-23). Também devemos manter um bom testemunho perante o mundo. De fato, para se qualificar como presbítero, um homem “deve ter boa reputação perante os de fora” (1 Tm 3.7).

Isso, claro, fala do caráter de uma pessoa: benignidade, compaixão, e uma reputação de integridade. Não é uma prescrição para satisfação de gostos mundanos ou apoio a toda moda terrena. Se precisarmos aparar as pontas da verdade ou comprometer a justiça a fim de ganhar a amizade do mundo, carregar a vergonha de Cristo é uma opção infinitamente melhor. Nenhum amigo verdadeiro de Deus procura deliberadamente a camaradagem do mundo (Tg 4.4).

Mas uma das características comuns do liberalismo é uma obsessão em ganhar a aprovação e admiração do mundo não importa o custo.

Testemunhamos a germinação dessa atitude no movimento evangélico há pelo menos quatro décadas, especialmente entre os líderes contemporâneos de igrejas que deixavam pesquisas de opinião e votações na vizinhança determinarem o estilo e os propósitos da igreja.

Quando as igrejas cedem a esse desejo pela aprovação do mundo, elas inevitavelmente subjugam o Evangelho a uma mensagem mais popular. A princípio, elas não negam (ou mesmo desafiam) as verdades centrais do Evangelho, como os fatos históricos descritos em 1 Coríntios 15.3-4. Mas elas irão abreviar, modificar ou complementar a mensagem. Esses adornos normalmente espelham o que tornou-se o politicamente correto no momento – mudança climática, fome mundial, a crise da AIDS, ou o que for.Essas coisas serão enfatizadas e citadas repetidamente, enquanto os fatos históricos da morte e ressurreição de Cristo, os grandes temas da doutrina do Evangelho, e o texto da própria Escritura serão grandemente ignorados ou tratados como algo garantido.

Alimente qualquer igreja com uma dieta regular desse tipo por alguns anos, e eles não terão como se defender quando alguém atacar a fé de forma mais direta. Isto é precisamente o que está acontecendo hoje com os vários ataques à expiação substitutiva, à exclusividade de Cristo, à autoridade e inerrância da Escritura, e outras verdades cristãs essenciais. Todas essas coisas foram primeiramente minimizadas a fim de fazer a mensagem de a igreja soar mais “positiva”. Agora elas estão sendo submetidas a um ataque com força total.

Esses problemas são agravados e a busca liberal pela estima do mundo alcança uma intensidade incandescente no meio acadêmico. Isso nos leva a outra característica da agenda neoliberal para vigiarmos:

3. Sua “fé” vem com um ar de superioridade intelectual.

Liberais tratam a própria fé como uma questão acadêmica. Seu sistema inteiro é essencialmente uma gigante rejeição da fé simples e pura. Sua visão de mundo fomenta um ar de arrogância acadêmica, colocando a razão humana no lugar de maior autoridade, tratando a Bíblia com orgulhosa condescendência, e mostrando completo desdém pelo tipo de fé que Cristo abençoou.

Consequentemente, os liberais estão e sempre estiveram obcecados com a respeitabilidade acadêmica. Eles querem a apreciação do mundo como acadêmicos e intelectuais – não importa o que eles tenham de comprometer para consegui-la. Algumas vezes eles defendem isso argumentando que a aceitação da academia secular é essencial para o testemunho cristão.

É claro que essa é uma aventura quixotesca. É também uma negação do ensino claro da Bíblia. Crentes não podem ser fiéis a Escritura e ganhar elogios universais dos sábios, escribas e questionadores dessa era. O mundo odiava Jesus, ele deixou claro que seus discípulos fiéis não deviam esperar – ou procurar – a honra do mundo (Jo 15.18; Lc 6.22; cf. Tg 4.4). Paulo, ele mesmo um verdadeiro acadêmico em todos os sentidos, descreveu a sabedoria desse mundo como pura tolice: “Não se enganem. Se algum de vocês pensa que é sábio segundo os padrões desta era, deve tornar-se louco para que se torne sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus. Pois está escrito: ‘Ele apanha os sábios na astúcia deles’” (1 Coríntios 3.18-19).

A verdadeira erudição cristã é sobre integridade, não honra. O liberalismo deseja o último, e isso explica porque os liberais sempre são arrastados pelas ideias que estão na moda e são politicamente corretas, ainda que eles sejam virtualmente resistentes a todas as duras verdades do Cristianismo, começando pela autoridade que a Escritura clama para si.

Esteja de guarda contra essa tendência. Aqui vai mais uma:

4. Eles desprezam precisão bíblica e doutrinária.

Isso pode soar como uma contradição, mas, ao mesmo tempo em que tratam a fé como um assunto acadêmico, os liberais preferem uma abordagem anti-intelectual, quase agnóstica, ao lidar com as afirmações de verdade específicas da Escritura. Eles gostam de sua doutrina nebulosa e indefinida.

Uma manobra que os neoliberais aperfeiçoaram nesses tempos pós-modernos é realizar uma astuta evasiva quando eles não gostam de uma doutrina particular, mas não podem fazer uma negação clara e aberta. Ao contrário, eles dirão: “A Escritura simplesmente não é muito clara nesse ponto. Não podemos ter realmente certeza. A questão é debatida pelos maiores acadêmicos, e quem somos nós para falar com muita certeza?”.

Portanto, sem negar (ou afirmar) algo em particular, e mesmo sem tecnicamente ignorar o assunto em discussão como uma questão sem importância, esse artifício efetivamente deixa a verdade de lado. O objetivo do cético é, portanto, alcançado sem incorrer em alguma condenação por ceticismo.

Doses pesadas deste tempero da evasiva pós-moderna e neoliberal têm condicionado multidões de membros de igreja a considerar cuidado e precisão ao tratar de doutrinas como algo sem importância e potencialmente divisivo. Estes dias, a pessoa que mostra evidência de escrúpulos doutrinários tem muito mais chances de causar suspeitas e desdém entre os evangélicos que os neoliberais que deliberadamente fizeram o estudo da doutrina em bíblica parecer tão nebuloso, confuso e litigioso.

Na realidade – e essa é uma lição que a igreja deveria aprender tanto da Escritura quanto da história da igreja – no final das contas, unidade e harmonia não podem existir na igreja se não há um compromisso comum com a sã doutrina.

Conclusão

Enquanto essas quatro tendências e outras parecidas continuarem a crescer dentro do movimento evangélico, a ameaça representada pelo neoliberalismo é grande. Evangélicos conservadores não deveriam continuar apáticos ou muito confortáveis com o aparente desmantelamento da Emergent Village e a ala liberal do cristianismo pós-moderno. Mesmo se o gueto emergente final e completamente passe dessa para melhor, muitos dos personagens principais e das ideias populares deste movimento simplesmente se misturarão ao evangelicalismo convencional, que está crescendo cada vez menos convencional e menos evangélico com o tempo.

Devemos prestar atenção nas lições da história e permanecer firmes na verdade da Escritura – e precisamos desesperadamente ser mais agressivos que fomos até agora ao nos opor a essas influências neoliberais.

¹ O espírito da época (N.T.)

Traduzido por Josaías Jr | iPródigo | Texto original aqui

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