A verdadeira disciplina na igreja

por Craig Blomberg

Craig Blomberg
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“Se seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano.(Mateus 18.15-17)

Tendo crescido em uma igreja Protestante tradicional, eu não tinha idéia de que havia alguma coisa como a disciplina na igreja do mundo moderno. Mateus 18.15-17 nunca foi discutido, muito menos implementado, mesmo quando os líderes da igreja se divorciam gratuitamente de suas esposas após começarem relacionamentos com outras pessoas.

Nas igrejas evangélicas que participei durante minha fase adulta, sempre houve uma política sobre disciplina na igreja, tentando ser fiel aos ensinamentos de Jesus neste texto. Mas uma série de observações exegéticas são frequentemente ignoradas:

Primeiro, nada neste texto limita o pecado a certos tipos de ofensas que sejam consideradas particularmente graves. Mateus 5.23-24 poderia sugerir que a prioridade de todo indivíduo é lidar com as formas que os outros da congregação acreditam que você tenha pecado contra eles. Mas para muitas ofensas pequenas, as pessoas devem ser capazes de lidar com elas privadamente, o que é justamente a primeira etapa do processo. A disposição de se desculpar gratuitamente, mesmo quando se sinta apenas parcialmente responsável por uma ofensa, pode ser um grande passo em direção à pacificação, uma tarefa que Jesus chama de bem-aventurada (5.9).

Segundo, uma grande quantidade de ofensas menores podem facilmente ser ignoradas, visando manter essa mesma paz. Somente quando há um padrão de repetição, um comportamento pecaminoso, é que normalmente se julga necessária uma intervenção. Uma parte do processo que Jesus mostra, começando pela privacidade completa, é limitar o numero de pessoas que saberão. A pior coisa a se fazer, mas a mais comum que fazemos, é queixar-se a todas as pessoas, menos à própria pessoa. Às vezes, elas nem sequer sabem que fomos feridos! Isto deve ser evitado a todo custo.

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Terceiro, os diferentes significados da palavra “testemunha” causam uma confusão desnecessária. As pessoas frequentemente me perguntam: “Como posso trazer duas ou mais testemunhas se ninguém presenciou o fato?” Esta pergunta confunde o conceito de “testemunha ocular” (autoptēs, no grego), com “aquele que testemunha” (martus, que é a palavra usada nesse texto). O ponto não é que as pessoas devem ter um conhecimento prévio do pecado, muito menos ter presenciado, mas que eles vão testemunhar a reunião entre o ofendido e o ofensor, o que foi dito, como as pessoas reagiram, e assim por diante, de modo que não chegue ao ponto de ficar um “disse-me-disse”.

Quarto, realmente não há uma maneira de fazer o “conte à igreja” significar um contar apenas para o pastor, aos anciãos ou a algum subgrupo da igreja. Talvez seja uma idéia sábia envolver, a não ser que seja a menor das igrejas, um corpo de líderes da igreja como um passo intermediário entre a reunião com as testemunhas e o contar de púlpito. Se existe qualquer chance que a reconciliação possa ocorrer – arrependimento, seguido de perdão e restauração do relacionamento – então, quanto menos pessoas souberem, melhor. Há sabedoria em não envolver mais pessoas do que aquelas que já sabem sobre um determinado problema. Mas a “igreja” é toda a assembléia reunida. Dizer algo à igreja é o ultimo passo antes da exclusão, e se há possibilidade de se tomar um passo tão drástico, o corpo inteiro dos crentes deve ser informado, pelo menos, da essência da questão em jogo. Na sociedade hiper-litigiosa de hoje com leis de confidencialidade insanas, igrejas com a real intenção de implementar a disciplina precisam ter linguagens em seus estatutos e assinaturas de seus membros, aprovados pela assessoria jurídica, renunciando o direito de processar a igreja em tais casos.

Finalmente, tratar alguns como “pagão ou publicano” significa tratá-los como um não-cristão. Jesus foi incrivelmente solícito para com os imorais de sua época, mas ele chamava-os ao arrependimento. O propósito da disciplina na igreja em qualquer lugar do Novo Testamento é sempre corretivo, mesmo quando em casos extremos em a reabilitação só vem depois da morte! Entretanto, neste contexto Jesus não está contemplando tudo ao extremo, nem mesmo a excomunhão de pleno direito ou a dissociação, mas apenas a exclusão de pessoas de ministérios ou encontros que se limitam aos crentes. Se e quando eles se arrependerem e demonstrarem um arrependimento genuíno (que por definição é uma mudança de atitudes, e requer certo tempo para evidenciar que o comportamento foi verdadeiramente mudado), então eles poderão ser reintegrados, tanto à membresia da igreja quanto à liderança. Em nossa frágil sociedade moderna, na qual a excomunhão completa geralmente leva a pessoa apenas a ir para outra igreja que não faz perguntas ou então se torna amargurado contra a igreja, e possivelmente contra Deus, uma abordagem muito mais eficaz é de a congregação, desde o início, declarar amor ao ofensor, oferecer um processo de restauração e prestação de contas que, mesmo antes da reintegração, não os obriga a parar de presenciar as reuniões (assumindo que sejam abertas a não-cristãos), mas que certamente os abstenha da mesa do Senhor e qualquer reunião aberta apenas para crentes.

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Traduzido por André Carvalho | Reforma21.org | Original aqui

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