Anunciando as boas novas

R.C. Sproul Jr.

R.C. Sproul Jr.

É errado dizer que o que não sabemos não pode nos machucar – os que os olhos não vêem, o coração não sente – especialmente quando estamos falando da Bíblia. Se há alguma coisa que nós precisamos saber, é a própria Palavra de Deus. Dito isso, o mais provável é que, pior que não saber algo sobre a Bíblia, é entender errado alguma coisa dela. Vamos pensar na Grande Comissão.

Isso é, obviamente, algo com o que devemos estar infinitamente familiarizados. Não são apenas palavras de Jesus, como se isso fosse pouco, mas são as “últimas palavras” de Jesus, sua última ordem antes de ascender ao seu trono celestial. Não apenas isso mas, como podemos imaginar, o que ele ordena tem consequências para a eternidade. Jesus não diz aos seus discípulos para lavarem bem atrás da orelha ou não deixar de enviar cartões de Natal. Não, Jesus diz aos seus discípulos para trazer os perdidos, para irem até os quatro cantos da terra para que todos os eleitos possam ser redimidos, perdoados e adotados.

E é aqui que nós paramos. Não é apenas verdade, mas uma verdade vital, que a Grande Comissão inclui o chamado para pregar as boas novas, para falar aos outros sobre a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, para chamar todos os homens ao arrependimento. Mas também é vitalmente verdade que isso não é chamado completo da Grande Comissão.

Talvez por sermos egoístas, ou talvez porque vivemos em uma era de declínio cultural, muitas igrejas têm adotado uma visão muito simplista do evangelho. Jesus, me dizem, veio para salvar minha alma. Uma vez que isso acontece, meu único chamado é ser usado por Ele para buscar a salvação de outros. Se Deus abençoar, esses novos crentes, por sua vez, terão como único chamado o ganhar de novas almas também. As boas novas, sob essa perspectiva, são de que Jesus veio para salvar pecadores.

Sim, é claro, Jesus veio para salvar pecadores. Entretanto, ele não veio somente para salvar almas. Ele veio para salvar corpos. Ele veio para salvar famílias. Ele veio para salvar igrejas. Ele veio para salvar comunidades. Ele veio para salvar nações. Ele veio para salvar, redimir, refazer toda a criação que geme por isso. Ele nos chama, a igreja, Sua noiva, para ser a Eva de Seu Adão, uma auxiliadora em sua grande obra de domínio sobre a criação.

Não precisamos ir além da Grande Comissão para enxergar isso. Esse mandamento, juntamente com a plenitude do evangelho, está lá mesmo. Somos chamados para fazer discípulos de todas as nações. Alguns podem argumentar que isso também foca apenas em ganhar almas. “Nações”, nessa ótica, não é a instituição política ou cultural em determinado lugar. Pelo contrário, se refere à necessidade de levar a mensagem até os cantos mais remotos do planeta. Não devemos nos acomodar, contentes pela salvação de nossa alma e de nossos queridos, mas cruzar terra e mar, buscando, pelo Espírito, tornar os filhos do inferno em filhos de Deus.

Muito bem. Mesmo que essa parte da Grande Comissão enfoque ganhar almas, o que fazemos com a próxima parte – “ensinando-os a observar tudo que vos tenho ordenado”? Jesus certamente ordenou, em seu ministério aqui na Terra, que nos arrependêssemos, que crêssemos em Seu nome. Mas foi só isso que ele ordenou? Ele também não disse que devíamos ser humildes, pacificadores, que devíamos chorar? Ele ordenou que tivéssemos fome e sede de justiça. Além disso, também nos disse onde encontrar essa justiça, nos lembrando que nem uma letra ou traço da lei passaria. Ele nos ensinou a orar pela vinda de Seu reino na terra como no céu. Como saberíamos que isso aconteceria? Porque sua vontade seria feita aqui como é lá.

Nossas obras, então, ao instruir os convertidos, aos chamá-los à piedade e à busca pela obediência, não são distrações da Grande Comissão, mas a execução da mesma. É claro, nós precisamos buscar Sua justiça, aquela justiça que só pode ser nossa pela fé que ele mesmo nos dá. Mas também somos chamados para buscar Seu reino. Esse reino, como a oração dominical demonstra, não é apenas um reino invisível no coração dos crentes. Pelo contrário, ele está em todo lugar, especialmente onde os seus alegremente o confessam.

Fazer discípulos de todas as nações, ensinando-os a guardarem tudo o que Ele ordenou, assim, não é polir o piso de um navio que está afundando. É cultivar a semente da mostarda. Falhar no discipulado de todas as nações, mesmo que as evangelizemos, por outro lado, não é fazer o trabalho mais importante. É ajudar o navio a afundar.

O evangelho social era só social, nada de evangelho. O mero pietismo, por outro lado, é impiedoso. Nós devemos proclamar o senhorio de Cristo sobre nossas almas, sobre nossos corpos, sobre nossas famílias, sobre nossas igrejas, sobre nossas comunidades, sobre nossas nações, sobre toda a criação gemendo. Assim, arrependamo-nos e preguemos as boas novas de que o reino de Deus chegou, de que Jesus é Senhor, de que a glória pertence ao Pai e de que o crescimento do seu governo não terá fim.

Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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