Apologética Pressuposicional – uma avaliação

Mike Riccardi

Mike Riccardi

No último post eu passei um tempo descrevendo a escola pressuposicionalista de apologética. Hoje, eu gostaria de avaliá-la. Como deve ter sido possível notar no post passado, mostrei minhas cartas e provavelmente deixei transparecer que eu sou um fã. De fato, eu acredito que a apologética pressuposicional é o melhor modelo entre os vários sistemas de apologética, particularmente porque é a escola que mais se submete fielmente as implicações do ensino bíblico. Eu acredito nisso por diversas razões.

Consistente com a natureza do homem e da salvação

Primeiro, o pressuposicionalismo é a única escola de apologética que é consistente com o que a Bíblia ensina sobre a natureza pecaminosa do homem e a dádiva da salvação. Todas as escolas de apologética irão admitir que o seu objetivo final não é meramente vencer nos argumentos ou se mostrar um oponente filosófico. Todos os apologistas cristãos defendem a fé como meio de honrar a Deus e ver pessoas salvas. Ainda assim me parece que outras escolas de apologética – particularmente o evidencialismo e a apologética clássica – falham em alinhar sua prática  com o que a Bíblia ensina sobre a depravação do homem e a salvação de Deus.

O evidencialismo trata o homem como se seu problema fosse meramente intelectual. Ele oferece argumentos e evidências para as probabilidades das reivindicações cristãs e pede ao incrédulo para levar a julgamento. Apologistas clássicos fazem a mesma coisa, mas eles inserem um passo extra ao argumentar o teísmo em geral antes de argumentar o teísmo cristão em particular. Entretanto, ambos esses métodos ignoram o fato do problema do incrédulo ser moral, não intelectual. Toda evidência será interpretada à luz da visão de mundo da pessoa. E a Bíblia nos diz que o incrédulo é cego à glória de Cristo (2 Co 4.4) e ativamente comprometido em suprimir qualquer conhecimento de Deus que eles têm (Rm 1.18) porque eles amam seu pecado (João 3.20).

Não me levem a mal: outras escolas de apologética certamente confessam que no fim das contas é o Espírito Santo quem muda os corações. Mas elas parecem negligenciar a realidade de que os meios pelo qual Ele o faz é através do Evangelho (Rm 1.16; 10.17; Tg 1.18; 1 Pe 1.23-25), não por meio da apresentação de evidências ou da solidez de argumentos extrabíblicos. O pressuposicionalismo, então, é a única escola de apologética que age consistentemente com a antropologia bíblia e a visão monergista de regeneração.

Argumenta de acordo com a realidade

Segundo, o apologista pressuposicionalista tem a vantagem de nunca ter que fingir que a realidade não é do jeito que é. Não obstante a desavença com o incrédulo, de um puro e objetivo ponto de vista, Deus realmente existe. Ele realmente é quem Ele diz que é. Ele realmente criou o mundo em 6 dias. E a Bíblia é realmente a Sua Palavra infalível e inerrante. É uma coisa boa, portanto, raciocinar como se todas essas coisas fossem realmente verdade e não meramente possíveis ou prováveis.

O evidencialismo e a apologética clássica requerem do apologista a rendição (temporariamente, e pelo bem do argumento) de  pressuposições sobre o mundo – que de fato são verdade – a fim de terem suas discussões. Isso é certamente uma fraqueza epistemológica.  Mas também é uma fraqueza prática. Renunciar essas pressuposições – especialmente que a Bíblia, como revelação de Deus, é o ponto de partida para o conhecimento – nega na prática o que o apologista está tentando provar; a saber, que Deus existe e que Sua palavra é autoridade.  O apologista não deve negar na sua metodologia o que ele deseja persuadir seus ouvintes a acreditar.

De fato, isso é consistente com o jeito que a própria Bíblia fala sobre a existência de Deus e da integridade de Sua Palavra. Nas Escrituras está claro que Deus não deixou esses assuntos abertos para debate.  Deus nunca Se apresenta nas Escrituras como uma proposição a ser friamente avaliada e a ser decidida. Ninguém simplesmente diz a Deus, “Espere um segundo, deixe-me ver se Você realmente existe.” Ele simplesmente afirma, “Eu sou o Que Sou”. Tentar avaliar as evidências de Deus ou da veracidade das Escrituras deixando de lado as Escrituras é um esforço para medir uma fita métrica. Nós não medimos o instrumento que mede; é ele quem mede.

Mais isso não é petição de princípio? ¹

O maior desafio do pressuposicionalismo é que ele emprega um raciocínio circular. O pressuposicionalismo é acusado de argumentar da seguinte maneira: “A Bíblia é verdade porque ela diz que é.” O instinto natural de muitos cristãos é tentar ir para fora das Escrituras quando tentam provar sua genuinidade (o que é precisamente o que apologistas clássicos e evidencialistas fazem). Afinal, o naturalista ou racionalista não concorda que a Bíblia seja verdade, então apelar para a autoridade da Bíblia é meramente circular e inútil, certo?

Mas aqueles que fazem esse tipo de objeçã0 falham em perceber que eles fazem exatamente a mesma coisa. Todos raciocinam de acordo com suas próprias pressuposições últimas.  Toda filosofia raciocina a partir de seus próprios padrões epistemológicos, senão ela seria inconsistente com ela mesma.

Por exemplo, se eu pergunto a um racionalista por evidências para a sua credibilidade no racionalismo como uma teoria adequada do conhecimento, ele irá me dar uma razão. Ou se eu pergunto a um naturalista por evidências para a sua credibilidade no naturalismo como uma teoria adequada do conhecimento, ele irá me dar um resumo de fatos observados na natureza. Eles estão se voltando para a sua “Bíblia”, se você me permite assim dizer.  Mas quando eles demandam evidências das Escrituras e nós lhe damos um versículo, eles gritam: “Raciocínio circular!” Mas isso não é mais circular do que o que eles fazem. Está simplesmente sendo consistente com sua própria epistemologia.

Veja, racionalistas apelam para a razão como fonte de conhecimento. É isso que os torna racionalistas. Naturalistas apelam para a natureza como sua fonte de conhecimento. É isso que os torna naturalistas. Mas os cristãos devem apelar para as Escrituras como fonte do conhecimento. É isso que nos torna cristãos.  Nós não devemos, então, renunciar o que nos torna distintamente cristãos em nossa epistemologia. Além do mais, se eu estou tentando ajudar um incrédulo entender que a Palavra de Deus é a autoridade suprema para a vida de todas as pessoas, para que autoridade maior eu poderia apelar para demonstrar isso? Não existe tal autoridade!

Autoautenticadoramente glorioso

Jonathan Edwards nos provê a reflexão crucial quando ele diz: “O evangelho do Deus bendito não sai por aí implorando por evidências, assim como alguns pensam: ele tem nele mesmo sua própria e maior evidência” (Religious Affections). Isso quer dizer que a Palavra de Deus por si só é tão autoautenticadoramente gloriosa que a própria glória é sua própria evidência. Nosso trabalho é, então, colocar essa glória à vista, reconhecendo que nada mais irá convencer o pecador de seu pecado e do amor de Cristo. No meu julgamento, o pressuposicionalismo continua consistente com essas realidades bíblicas enquanto outras escolas de apologética não.

¹ A petição de princípio é uma falácia não formal em que se tenta provar uma conclusão com base em premissas que já a pressupõem como verdadeira. (definição do prof. André Coelho)

Traduzido por Ju Néris | Reforma21.org | Original aqui

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