As cinco respostas ao Problema do Mal

por C. Michael Patton

C. Michael Patton
C. Michael Patton

Este é um trecho não editado do meu próximo livro pela Crossway: The Discipleship Book: Now That I Am a Christian.  Título do capítulo: “Dor e sofrimento” (Nome do livro e título provisórios).

A grande maioria dos cristãos que sofrem com dúvidas significativas em sua fé, sofrem devido à dor e ao sofrimento que experimentam em suas vidas. O falecido filósofo cristão Ronald Nash disse uma vez que é completamente irracional rejeitar a fé cristã por qualquer outra razão que não seja o problema do mal. Isso expressa o respeito que ele dava a essa questão. C.S. Lewis, o grande escritor cristão, escreveu um livro muito acadêmico sobre dor, sofrimento e mal, chamado O Problema da Dor. Foi um trabalho maravilhoso e monumental, e eu o recomendo sem hesitar. Mas, depois que escreveu esse trabalho, ele experimentou dor e sofrimento em nível diferente. Uma coisa é avaliar algo visto por fora; outra coisa bem diferente é experimentá-la. C.S. Lewis perdeu sua mulher depois de uma batalha contra o câncer, cheia de altos e baixos. Isso o arrasou e o colocou de joelhos; e ele descansou um pouco diante de Deus, fazendo perguntas dolorosas que resultaram da sua desilusão. Felizmente, toda a sua experiência está registrada em outro livro sobre dor. Este foi um livro muito pessoal, chamado A Anatomia de uma Dor. Nele, Lewis se debruçou desnudado diante de Deus, expressando a sua confusão. Eu também recomendo fortemente esse livro. Estes são dois trabalhos muito diferentes, um intelectual e um emocional, pela mesma pessoa, sobre o mesmo tema.

Eu não quero que você seja surpreendido pelo sofrimento. Eu quero que você seja capaz de lidar com o mal e a dor tanto acadêmica quanto emocionalmente. Falarei primeiro sobre o lado acadêmico do mal, da dor e do sofrimento. Ele é geralmente chamado de “o problema intelectual do mal”. Me acompanhe, pois as coisas podem ficar um pouco técnicas.

O Problema Intelectual do Mal

O Problema Intelectual do Mal tenta resolver um problema lógico em um mundo que tem dor, sofrimento e maldade, e ao mesmo tempo possui um Deus bom e todo poderoso que o governa. Deixe-me definir esse problema usando um silogismo:

  •  Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)
  • Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)
  • Premissa 3: Sofrimento e mal existem
  • Conclusão: Um Deus todo-bom e todo-poderoso não poderia existir já que há tanto sofrimento e mal no mundo. Se ele existisse, ele poderia erradicar esse mal.

O debate sobre esse problema tem apenas se intensificado em um mundo onde a tecnologia nos permite compartilhar os sofrimentos de milhões de pessoas em todo o mundo. A internet nos deixa a um clique dos rostos daqueles que tiveram seus filhos raptados, daqueles que morrem de fome, dos doentes e deformados de formas inimagináveis, e daqueles cujos pais sem amor os deixam trancados em um armário enquanto saem para jantar. Nós não conseguimos passar um dia sem ouvir maldades como essas e , embora nem todas sejam partes da nossa comunidade imediata, são uma experiência comum para toda a raça humana. Portanto nós começamos com a questão do papel de Deus nisso tudo. E nós somos trazidos a esse dilema. Se Deus existe, se Deus é bom e não tem prazer no mal, e se Deus é poderoso o suficiente para mudar as coisas, por que o mal ainda existe? Deixe-me mostrar algumas formas erradas com as quais as pessoas lidam com essa questão.

1. A resposta Sadoteística

  • Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)
  • Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)
  • Premissa 3: Sofrimento e mal existem

Conclusão: Deus tem prazer em provocar sofrimento e dor por razão nenhuma.

Deus está no time adversário.

O Sadoteísta acredita que Deus é um sádico mau que tem prazer em provocar sofrimento sem nenhuma boa intenção de qualquer natureza. Isto poderia ser verdade. Poderia ser o caso de Deus ser um sádico. O que eu quero dizer é que não há dificuldade lógica aqui que não pode ser superada. O problema com a posição sadoteísta é que esta não é a forma como Deus se revelou na história ou na Bíblia. A cruz de Cristo é a maior ilustração do amor de Deus que nós temos. O próprio Deus sujou os seus pés e sangrou suas mãos para salvar a humanidade. Acima de tudo, o Sadoteísta tem que tomar emprestada a moralidade de Deus para julgar a Deus! Em outras palavras, como o Sadoteísta sabe o que é mal e bem fora do amor e existência de Deus? Esta visão, embora logicamente possível, é biblicamente errada.

 2. A resposta do Teísmo Aberto

  • Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)
  • Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)
  • Premissa 3: Sofrimento e mal existem

Conclusão: Deus autolimitou suas habilidades de forma que ele possa se relacionar genuinamente com a humanidade. Dessa forma, Deus não pode parar todo sofrimento e mal.

Deus está no nosso time, mas ele é apenas um “cheerleader” à beira do campo que está torcendo por nós enquanto observa o desenrolar das coisas.

Nessa resposta, o teísmo aberto lida com o problema da dor e do sofrimento dizendo que Deus, devido ao seu comprometimento com a liberdade do homem, não pode fazer nada. Isso é uma autolimitação do poder de Deus e de Seu conhecimento. O mal pode ocorrer, mas apenas porque Deus está comprometido com a liberdade da vontade do homem. Esta visão é, também, logicamente possível. Em outras palavras, a abordagem de Deus com o mundo poderia ser mais ou menos frouxa. Mas isso milita contra as Escrituras, que diz que Deus está no controle e conhece o futuro. Por exemplo, veja o que o livro de Daniel diz a esse respeito:

 Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Daniel 4.35, RA)

Parece que Deus está no controle das coisas. O que quer que aconteça é, em algum sentido, vontade de Deus, mesmo o mal. Acredito que é importante para nós nesse ponto (enquanto posso ver suas sobrancelhas se levantarem e ouvir seu batimento cardíaco aumentar!) distinguir o que os teólogos chamam de “as duas vontades de Deus”. Deus tem duas vontades. Nós as chamamos de “vontade decretiva” e “vontade preceptiva”. Deus quer que você sofra? Sim. Deus quer que você sofra? Não. Veja, existe um sentido no qual o desejo ou vontade de Deus é que ninguém jamais peque ou sofra mal. Mas em um mundo caído, Deus usa o pecado para cumprir seus propósitos. Se Deus não usasse o pecado e o mal, então ele não se envolveria com o nosso mundo, porque não há nada mais com o que trabalhar! Ele tem que “sujar” suas mãos e usar o pecado se for cumprir seu bom propósito. Em última análise, isto irá levar a um mundo sem pecado e sofrimento (céu). Mas, por enquanto, ele trabalha com isso e, em um sentido contextualizado, é a sua vontade. A resposta ao problema do mal dada pelo Teísmo Aberto falha em enxergar como Deus poderia estar envolvido em coisas tão terríveis. E também falha ao considerar que Deus está trabalhando para que todas as coisas cooperem para o bem, mesmo sofrimento e dor.

  “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm. 8.28 ,RA)

 3. A resposta Panteísta

  • Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)
  • Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)
  • Premissa 3: Sofrimento e mal existem

Conclusão: Sofrimento e mal são ilusões que nós criamos com nossa própria mente. Para erradicá-los, nós devemos negar suas existências.

Deus não está em nenhum time, já que na verdade não há nenhuma oposição.

A visão panteísta é simplesmente fechar os olhos e ouvidos e agir como se o mal, o sofrimento e a dor não existissem. Neste ponto de vista, todo sofrimento é uma ilusão da qual temos que nos treinar para não enxergar. Mas isso não funciona, seja racionalmente ou biblicamente. Negar a existência de algo não determina a sua existência. A Bíblia fala claramente sobre a existência do mal. Mesmo na Oração do Pai Nosso nós vemos que Cristo nos diz para pedir por livramento do “mal”. Por acaso Ele nos ordenaria a orar contra algo que não exista? Eu acho que não. Sendo assim, a resposta panteísta é tampouco uma opção cristã.

4. A resposta Ateísta

Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)

Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)

Premissa 3: Sofrimento e mal existem

Conclusão: Um Deus todo-bom, todo-poderoso não poderia existir já que há tanto sofrimento e mal no mundo. Se ele existisse, ele erradicaria esse mal.

Deus não está em nenhum time porque ele não existe

A resposta ateísta parece razoável na superfície, mas quando nós olhamos mais de perto, é logicamente absurda. Primeiro (e mais importante), como os Sadoteístas, no intuito de definir o conceito de “mal”, o ateísta tem que tomar emprestado da cosmovisão teísta (a que acredita em Deus). Em outras palavras, se não há Deus, não há realmente nada como o mal. Segundo, se há um problema do mal, também há o problema do bem. Se não há Deus, como explicamos o bem que acontece no mundo? Na cosmovisão ateísta, na verdade não há coisas boas ou ruins. Isto, por si, não torna o ateísmo errado (há muitos outros argumentos que o tornam), mas ele mostra o absurdo do seu argumento. Finalmente, (e leia isto cuidadosamente) aquele que acredita em Deus tem que explicar a existência do mal. O ateísta tem que explicar a existência de todas as outras coisas. Qual é mais fácil?

 5. A resposta Cristã:

  • Premissa 1: Deus é todo-bom (onibenevolente)
  • Premissa 2: Deus é todo-poderoso (onipotente)
  • Premissa 3: Sofrimento e mal existem

Conclusão: Deus tem boas razões por permitir a existência do mal e do sofrimento. Ele usa o sofrimento e o mal para cumprir um bem maior, mesmo que nunca saibamos exatamente qual a sua razão.

Deus está no nosso time e ele é tanto o “quarterback” quanto o técnico.

Veja, o “problema lógico do mal” não é realmente um problema, se por problema você quer dizer algo que não pode ser resolvido, racional ou biblicamente. Racionalmente, não há razão para assumir que Deus não pode ter propósitos no mal que resultamem bem. Nósvemos isso todos os dias. Quando alguém passa por uma cirurgia cerebral, tem que enfrentar o intenso sofrimento de ter sua pele cortada e seu crânio desmontado. Mas um bem maior, do câncer ser removido, é evidente a todos. Não há razão para dizer que Deus não pode usar o sofrimento mais atroz para produzir um bem maior.

Biblicamente, isto é muito claro. Não apenas Romanos 8:28 diz que Deus trabalha para que todas as coisas cooperem para o bem (e isto muito certamente inclui o mal), mas há muitas outras histórias na Bíblia que evidenciam isto. Por exemplo, no livro de Gênesis, José, que amou e seguiu a Deus, foi vendido à escravidão pelos seus próprios irmãos. Depois de ter sido encarcerado erroneamente por muitos anos, ele foi finalmente solto e elevado a uma posição abaixo apenas de Faraó. Nesta posição, ele tornou possível ao mundo, incluindo seu pai e irmãos, sobreviver ao período de fome que durou sete anos. Seu sofrimento foi planejado por Deus a fim de produzir o bem. Note o que ele diz aos seus irmãos aflitos:

 “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém, Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida.” (Gn 50.20, RA)

“Deus o tornou em bem”. Portanto, o problema intelectual do mal pode ser tratado sem sacrificar a integridade intelectual. Na verdade, na medida em que olhamos as opções, a opção cristã é a que mais faz sentido.

Mas isso não se configura uma vitória fácil. Intelecto é uma coisa. Emoções são outra.

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Traduzido e gentilmente cedido por Filipe Guerra | iPródigo | original aqui

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