Cantam anjos harmonias?

por Fred Sanders

Fred Sanders
Fred Sanders

Canções de Natal frequentemente são  professoras de teologia bem confiáveis. Das canções sagradas que ouvimos bastante na época de Natal, temos a boa doutrina de cantar Adoração (Hino 230 do hinário presbiteriano), Jesus nasceu (Hino 237 do hinário presbiteriano) e Louvor Angelical (Hino 240 do hináriopresbiteriano) ou Cantam anjos harmonias (Hino 96 do hinário para o culto cristão). Eleve a sua voz com Watts e Wesley nesta época, e você terá expressado mais  verdades grandiosas sobre a encarnação do Filho de Deus do que provavelmente falará durante o resto do ano.

Mas uma sugestão que as músicas natalinas têm colocado firmemente em minha mente é que os próprios anjos são grandes cantores. Porém, não consigo achar nenhuma evidência direta na Bíblia de que os anjos de fato cantem.

Eu me sinto como o Scrooge por mencionar isso.

Mas Will Rogers costumava dizer, “ Tudo o que sei é o que leio nos papéis” e, quando se trata de anjos, sem qualquer encontro direto com eles, tudo o que sei é o que eu leio na Bíblia. Então, é muito importante que o que pense e diga sobre anjos fique dentro dos limites de o que as Escrituras ensinam.

E então, anjos cantam?

Volte-se para as suas passagens favoritas para ver se consegue achá-los cantando, e você ficará surpreso pela falta total de terminologia musical. Só para começar com a própria passagem do Natal, você consulta Lucas 2.13-14 e descobre que

De repente havia com um anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo,
Glória a Deus nas maiores alturas,
e paz na terra entre os homens,
a quem ele quer bem.

Ah sim, aí está o  familiar hino natalino. Mas, espere… não necessariamente um hino. O verbo para o que eles fizeram não é “cantando”, mas “dizendo”. Essa história prova que anjos falam poeticamente em uníssono, mas não que eles cantam.

Por outro lado, talvez quando o Novo Testamento usa a expressão “diz”, poderia haver espaço para um modo musical de dizer algo. Paulo parece nos ensinar a “dizer músicas” em Efésios 5.19 quando nos diz: “enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais”. Então “falando” ou “dizendo” pode ser o verbo certo para trazer algo musical.

Canções natalinas após canções natalinas, temos uma interpretação dos anjos como cantores, ou da sua mensagem como uma música, ou dos muitos anjos como um coral. Nenhuma destas palavras estão no texto. Até mesmo um leitor cuidadoso como C. H. Spurgeon força o texto em seu sermão no Music Hall (!), no Royal Surrey Gardens, intitulado “O primeiro cântico de Natal” (1857):

 Eles cantaram a história, porque não poderiam contá-la em uma prosa pesada. Eles cantaram, “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens”. Parece-me que cantaram com alegria em seus olhos; com os corações queimando com amor, e com os peitos cheios de júbilo como se as boas novas para o homem fossem boas novas para eles.

Mas Handel, de todas as pessoas, entende corretamente na seção de Natal de O Messias, quando o recitativo soprano apresenta os anjos “dizendo” Glória a Deus, e o refrão toma essas palavras e as recita, musicalmente.

De todas as canções de Natal sobre anjos, a mais influente a este respeito é provavelmente a de Charles Wesley, “Cantam anjos harmonias”. Mas, embora, não me sinta obrigado a defender a inerrância de Wesley, gostaria de enfatizar que a primeira linha, de acordo com o que Wesley originalmente escreveu, era “Ouçam como todo o céu ressoa”, referindo-se à mensagem angelical ecoando num pequeno anfiteatro celeste. Foi uma mão tardia, talvez de George Whitefield, que alterou o texto ao incluir “cantam anjos.”

Então os anjos cantam? O fato é que não consigo achar nenhum suporte bíblico direto para a ideia. É sempre possível que a questão que estamos perguntando seja a pergunta errada, mais ou menos como perguntar “Podemos provar que Paulo alguma vez tomou café da manhã?” ou “Algum dos apóstolos era canhoto?”. Por outro lado, não é exatamente um instinto saudável que nos levaria a dizer “Claro que os anjos cantam, todos sabem disso, e a Bíblia não tem que se dar o trabalho de dizer, porque é tão óbvio. De que outra forma os anjos se comunicariam? A música é a mais elevada forma de comunicação, então os anjos devem usá-la”, etc. Eu poderia argumentar similarmente defendendo a tese de que os anjos comunicam-se usando matemática pura.

Sinceramente, espero que essa pequena meditação não perturbe nenhuma das suas músicas de Natal. Afinal, nós (que normalmente falamos) gastamos toda essa época cantando sobre a vinda de Cristo e, nessas canções, parece apropriado cantar sobre cantar. A evidência, vamos admitir, não nos autoriza a ensinar dogmaticamente que os anjos cantaram para os pastores de Belém ou cantaram nos céus. Mas nos permite dizer que eles falaram em linhas compostas poeticamente, e eles provavelmente, no mínimo, falaram a eles com tamanha beleza e engenhosidade que suas palavras podem ser chamadas de cantar.

E quem sabe? Eles podem muito bem ter cantado, e eles podem muito bem estar cantando agora. É bom nos incomodarmos com sugestões da grande beleza do céu, e também bom nos lembrarmos de que não sabemos tudo o que gostaríamos de saber sobre o céu. Nada do que sabemos sobre os anjos foi revelado para satisfazer a nossa curiosidade. Tudo foi revelado para nos apontar para a glória de Deus nas alturas: essa é a mensagem angelical, falada ou cantada.

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Traduzido por Pedro Vilela | Reforma21.org | Original aqui

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