Carta aberta a um calouro

por Timothy Dalrymple

Timothy Dalrymple
Timothy Dalrymple

Querido Calouro,

Finalmente sua hora chegou. Deixando para trás o velho mundo e as trilhas profundas que você esculpiu ao redor do mundinho que te pertencia, você sai para explorar países desconhecidos, para participar de uma sociedade nova e que está sempre se reabastecendo de pessoas fascinantes, eruditas, artistas apaixonados e conquistadores, para um lugar onde o mundo é novo e você também. Seus anos na faculdade podem, ou não, serem “os melhores anos da sua vida”, mas pelo menos eles serão, certamente, os mais transformadores.

A questão é se essa transformação será para melhor. Sem as pessoas e os lugares que te definiam, você sentirá uma fluidez em sua identidade que será emocionante e assustadora ao mesmo tempo. Você pode sentir-se como pudesse ser qualquer pessoa e se tornar qualquer coisa. Oro para que encontre quem você é, a pessoa mais verdadeira e profunda, a única que Deus sonhou quando te fez, e não a pessoa que você, ou seus parentes, ou seus amigos, acham que você deve ser. À serviço desse fim, penso que posso oferecer sete pequenos conselhos. Embora pareça indelicado dizer isso, ofereço estes conselhos com base em algumas experiências pessoais – acho que tenho alguma, com quatro anos de graduação em Stanford, três no Seminário de Princeton e sete em Harvard para o meu Ph.D. Eu dei uma boa quantidade de aulas, conheci bem muitos professores e passei também um tempo em universidades no exterior. Então, com base nessas experiências, aqui estão meus pensamentos:

1. Busque sabedoria, não apenas inteligência. Meu pai compartilhou esse conselho comigo antes de eu ir para Stanford, e ele estava precisamente certo. No campus da universidade a inteligência é normal. Sabedoria é rara. Inteligência é barata porque é herdada livremente; sabedoria é um valor inestimável porque é obtida através de sofrimento, sacrifício e anos de estudo e experiências difíceis. Todas as noites em Stanford eu assistia as pessoas mais inteligentes fazendo as coisas mais tolas, correndo atrás das metas mais inúteis e crendo nas coisas mais infundadas. Sua inteligência não fez nada para torná-los mais amorosos, alegres ou verdadeiros. De fato, muitos se desviaram do caminho, pois vieram a adorar seu próprio poder intelectual juntamente com a admiração, elogio e consolações materiais que poderiam ganhar. Eles se tornaram imunes às criticas, auto-indulgentes e perseguidores das modas intelectuais. Quando você a ama a reputação de inteligência, então você fará e acreditará nas coisas que sustentarão essa reputação. Inteligência não faz de você mais propenso a fazer o que é certo ou acreditar no que é verdadeiro. É por isso que é importante:

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2. Buscar mentores, não apenas professores. Pessoas inteligentes são deslumbrantes e cativantes, e também são bem comuns. O fascínio desaparece com o tempo. Faculdades e universidades estão repletas de tolos inteligentes, porque o meio acadêmico venera o inteligente. Você já deveria saber. Busque pessoas de sabedoria. Os sábios são mais difíceis de encontrar, porque são poucos e não anunciam sua sabedoria (eles podem não reconhecer isso como sabedoria). Inteligência, como força física, é uma capacidade moralmente neutra, que pode ser inclinada em qualquer direção e, na maioria das vezes, é inclinada na direção do avanço pessoal. O movimento natural da Sabedoria é em direção à verdade, ao bem e ao belo. Então, escureça a porta dos vários professores e volte com mais freqüência para aqueles professores – mesmos não sendo os mais famosos ou poderosos – que tem a verdadeira sabedoria para oferecer. Mas tenha em mente que aqueles que mais lhe ensinam, seus mentores de verdade, podem não ser professores, de fato. Eles podem ser funcionários, técnicos, capelães do campus e, especialmente, seus amigos. Invista nestes relacionamentos. Estas são as pessoas que irão te guiar através de muitas, e haverão muitas, dificuldades e conseqüências de decisões que você irá encarar nesses anos. Por razões sociais, espirituais e pragmáticas, invista profundamente em um punhado de relacionamentos que você irá seguir intencionalmente pelo resto de sua vida. É melhor sair da faculdade com cinco amigos verdadeiros e mentores do que com cinqüenta colegas que você não irá reconhecer na reunião de dez anos. Neste caminho, você irá:

3. Buscar a verdade, não apenas a opinião predominante. Muitas vezes as universidades e, especialmente, as instituições de pesquisa de elite recompensarão mais a inteligência e o argumento da moda do que a sabedoria e um argumento sólido. As razões são simples, e é importante entender. Publicações são a rota do prestígio acadêmico. Decisões de contratação e posse em universidades de pesquisa são esmagadoramente influenciadas por publicações. No entanto, editores não estão procurando a verdade, mas sim o que vende. Se você quer publicar nos mais respeitados jornais e revistas, ou se você quer se tornar uma brilhante celebridade acadêmica, então a questão não é se a sua afirmação é verdadeira – a verdade é velha, chata e opressiva – mas sim se sua argumentação é nova, provocativa e lisonjeira às vaidades e afirmações políticas do estabelecimento acadêmico. O problema é que as coisas mais verdadeiras já foram explicadas e bem defendidas, mas a fim de tornar seu nome com um erudito, você tem que publicar e forçar a barra, e isso significa explicar e defender teses novas. Portanto, há uma tendência intrínseca do sistema acadêmico para o novo e o sensacional, o que desafia a tradição. Embora os jovens estudiosos tenham de organizar as evidências e argumentações, a verdade é que os argumentos que derrubam os antiquados e “opressivos” – os argumentos que levam a conclusões politicamente corretas – são mantidos a um padrão muito menor. Os mais velhos, estudiosos mais estabelecidos, mal têm que progredir um argumento em tudo; eles descansam na reputação que estabeleceram em sua juventude e raramente são desafiados a lutar ao lado de suas causas preferenciais.

Aprecie seus professores e aprenda o que você puder deles, mas não os venere e não faça uma imagem deles como um bastião da verdade. Infelizmente, quanto mais eu conhecia meus professores, menos suas opiniões me influenciavam. Por alguns, eu ainda tinha o máximo de respeito. No entanto, ficou claro que alguns estavam construindo defesas complexas para as coisas que há muito tempo estavam determinados a acreditar e fazer. Muitos deixaram a fé em sua juventude, e dedicaram sua carreira para justificar essa decisão. Muitos foram mundialmente conhecidos por sua inteligência e aprendizado, muitos foram maravilhosos seres humanos, alguns eram sábios. No entanto, os acadêmicos, não diferente dos outros seres humanos, são seduzidos por seus desejos, medos, preconceitos e, especialmente, pelas ultimas tendências que correm as salas da universidade. Os melhores professores não são mais espertos do que os melhores médicos, melhores advogados, melhores executivos e assim por diante. Muitos levam uma vida reclusa, com formas limitadas de interação social e podem ser, às vezes, surpreendentemente inseguros e menos desenvolvidos socialmente. Então, como qualquer acadêmico verdadeiro deve lhe dizer para escutar as opiniões de seus professores, leve-os a sério, mas nunca tome suas palavras como evangelho. Eles, como todos nós, são limitados, preconceituosos, imaturos algumas vezes, orgulhosos muitas vezes e criaturas falhas.

4. Busque respostas, não apenas perguntas. Você deve ouvir o oposto durante o processo de orientação do calouro. Eles podem dizer: “Não são as respostas que importam, mas sim as perguntas” ou “não as verdades, mas as investigações, não o fim, mas a jornada.” Sim e não. O corpo docente certamente quer que você questione os pontos de vista com os quais você foi criado, especialmente quando eles não concordam com essas opiniões. Quando eu estava ensinando, habitualmente diziam entre meus colegas que o propósito de nossa instituição era tornar o estranho, familiar e o familiar, estranho. Nosso objetivo, em outras palavras, é fazer com que os jovens vejam quão duvidosos e arbitrários são as crenças morais, políticas e religiosas com as quais eles foram criados, e como podem ser sensatas e convincentes as crenças dos outros. Isso, é claro, não é aplicado igualmente. Se você fosse um pluralista liberal, então você não teria crenças opressivas, exclusivas e intolerantes. E se você fosse um Mulçumano conservador, então a faculdade de estudos religiosos iria atropelar tudo para defender sua idéia. Se você é um cristão (branco) conservador, então seus pais são uma parte do problema e, para seu bem e do mundo ao seu redor, você tem que se libertar das amarras do preconceito e da ignorância. Assim, tivemos professores que, no início do curso de duração de um ano, prometiam aos estudantes que qualquer cristão na sala perderia sua fé até o final do ano, ou que zombavam dizendo que “Deus está morto sob meus pés”, ou que verbalmente instigavam seus companheiros de faculdade quando provocavam evangélicos com crise de fé. Isto é importante para se lembrar: Se você é um cristão conservador de uma denominação ou de outra, muitos professores verão sua perda de fé como uma coisa boa para você, e uma realização para eles.

E há valor, é claro, em examinar criticamente as crenças nas quais você foi criado. Sua fé talvez nunca seja verdadeiramente sua, caso contrário. Entretanto, você deve resistir ao conselho de simplesmente “se acostumar com as questões” e “se confortar com a ambiguidade”. Se confortar com a complexidade, sim, e com uma humildade adequada em relação àquelas coisas que podemos saber e as que não podemos. Mas respostas razoáveis e atraentes estão por aí. Quando comecei o que veio a se tornar um estudo de uma década sobre o ateísmo, minha fé foi posta sob dúvidas. Eu cria que tinha sido iniciado em mistérios que outros cristãos não tinham sido, que eu havia me deparado com críticas à fé cristã que poucos cristãos, ou nenhum, já haviam enfrentado e sequer respondido. Afinal de contas, ninguém da igreja da minha cidade natal havia lido Hume ou Voltaire, Nietzsche ou Russell. Ainda assim, isso é, claro, bobagem. Quanto mais eu investigava o assunto, mais eu descobria que, é claro, inumeráveis milhares de cristãos inteligentes já leram Feuerbach e Freud, Russell e Rorty – e não apenas os leram, mas também desenvolveram respostas muito satisfatórias às suas críticas ao cristianismo. O problema surge quando você coloca frente a frente uma matéria da universidade que critica a fé cristã e uma fé imatura e mal desenvolvida de Escola Dominical. Assim como você busca aprender (se, e quando, fizer) as críticas que foram feitas à sua fé, você deve se disciplinar na busca de aprender como sua comunidade da fé tem respondido a essas críticas. Homens e mulheres de fé cristã profunda e inteligência e sabedoria extraordinárias tem respondido as críticas à fé cristã desde que a igreja cristã tem existido. Hoje não há um campo sequer – de biologia à física, de filosofia aos estudos bíblicos – em que não haja crentes comprometidos que se levantam em meio aos mais proeminentes de seus campos e estão prontos para explicar como eles veem sua fé à luz de sua especialidade.

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5. Busque crescimento, não apenas desenvolvimento. Por um lado, nunca é totalmente verdade que você pode “se reinventar”; você, afinal de contas, carrega você mesmo para onde quer que vá, juntamente com seus hábitos e predisposições, suas feridas e fraquezas. Mas a transição do Ensino Médio para o Superior oferece oportunidades extraordinárias de desenvolver seu caráter e enriquecer sua personalidade. Se comprometa, no primeiro ano, a tentar algo novo toda semana. Vá um concerto de Taiko, escreva um texto para o jornal da faculdade, assista um filme estrangeiro obscuro, se matricule naquela matéria de barco à vela (ou golfe, ou Swahili, ou violão clássico), compareça àquela palestra aberta (palestras abertas estão entre os mais poderosos e mais desprezados recursos que você pode obter na faculdade), pule de bungee jump ou tente aquela vaga para estudar na Europa ou fazer uma pesquisa na Amazônia. Incontáveis estudantes podem atestar que as coisas mais importantes que eles fizeram na faculdade aconteceram fora da sala de aula. Se você for fiel às aulas, você receberá educação e treinamento. Mas se você também for fiel às outras oportunidades que a faculdade proporciona, seus horizontes, seus sentidos, seus senso de identidade e seu mundo serão expandidos exponencialmente.

O importante a se lembrar aqui é que você não deve fazer aquelas coisas que te diminuem ou que te escravizam em vícios. Nenhuma decisão é livre de consequências. As decisões que você tomar nesses anos vão criar padrões e desencadearão as decisões que você tomará nas próximas décadas. Se você se jogar livremente à bebida, às drogas, ou até mesmo a busca desenfreada por sexo, você pode cair em si quatro anos depois e descobrir que desperdiçou as oportunidades e o seu potencial. Pense na pessoa que você quer ser, a pessoa que você crê que foi chamada para ser, e comece a ser essa pessoa. E comece agora. Um dos maiores erros que os universitários cometem é pensar que seus anos na faculdade são uma pausa da “vida real” ou uma sala de espera logo antes do “mundo real”. Seus amigos ou irmãos mais velhos não ajudam em nada quando agem como se você não habitasse o mundo real. Sim, você habita uma esfera particular com suas próprias regras e proteções, mas você é chamado para ser quem você é hoje, para começar hoje os hábitos que você quer manter amanhã – pois quem você for nos próximos quatro anos terá um imenso impacto em quem você vai ser nas próximas quatro décadas.

6. Busque comunhão, não apenas amizades. Vou ser curto aqui. A melhor e mais importante parte da minha experiência em Stanford, de longe, foi a comunidade cristã que fiz parte. É uma grande alegria estar cercado de pessoas da sua idade, pessoas como você, que amam Deus e buscar viver suas vidas de acordo com a Palavra. O treinamento mais significativo que recebi para o ministério e para a vida cristã veio através dessa comunhão. As amizades que mantive nesses treze anos desde a formatura são praticamente todas dessa comunidade. Nós brincávamos e trabalhávamos, orávamos e adorávamos, servíamos e ministrávamos ombro a ombro – no campus, nas cidades ao redor, por todo o país e por todo o mundo. Essa comunhão também me levou a conhecer mulheres cristãs marcantes. Um belo relacionamento terminou em dor e arrependimento. Outro levou a um belo casamento.

7. Finalmente, busque primeiro o Reino e a justiça de Deus. Mergulhe profundamente na vida da mente, e saboreie a beleza e os ritmos e as riquezas da vida acadêmica. Aprofunde-se na amizade e na comunhão e comprometa-se a aprender com os outros. Aproveite as competições esportivas e os estágios no exterior. Explore todas as idiossincrasias da sua faculdade e da sua comunidade, as tradições e os tesouros escondidos. E aprenda a amar e a ser amado por alguém importante. Você mudará de curso, mudará de emprego e mudará de carreira muitas vezes antes que a sua vida profissional se encerre. Não há problema com isso. E você passará por muitos altos e baixos emocionais. Não há problemas nisso também.

Apenas certifique-se que você prioriza o que é prioridade e deixa de lado o que deve ser deixado de lado. Lembre-se do seu amor supremo, lembre-se quem é o Caminho, a Verdade e a Vida, busque-o, e o resto vai acontecer. “Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração” (Salmo 37.4). “Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas” (Provérbios 3.6). Quer seus anos na faculdade tragam problemas ou dificuldades, quer tragam florescimento e alegria ou, como é mais provável, tragam ambos, busque Deus nisso tudo. Provavelmente a coisa mais importante que eu aprendi nos meus anos de faculdade vieram quando eu quebrei meu pescoço em um acidente de ginástica, e aprendi de verdade que nada poderia me separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Romanos 8.38). A comunhão graciosa com Deus é algo necessário. Não importa o que possa ser tirado de você, se você tem essa comunhão, você tem o suficiente, e mais do que o suficiente. As coisas boas do mundo vem e vão. Mas a paz e a alegria de nossa comunhão com Deus através da fé em Jesus Cristo permanecerão para sempre.

Viva por essa comunhão, viva nela, e viva através dela. No fim, o resto é detalhe.

Sinceramente,

Seu amigo.

Traduzido por André Carvalho e Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui

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