Como Paulo agiu para vencer a escravidão

por John Piper

A realidade histórica e contemporânea da escravidão nunca está muito distante de como pensamos sobre a Bíblia. Ao invés de um ataque frontal na instituição culturalmente aceita da escravidão em seus dias, Paulo usou uma aproximação diferente, como por exemplo, em sua carta a Filemon.

Onésimo era um escravo. Seu senhor, Filemon, era um cristão. Onésimo evidentemente fugiu de Colosso (Colossenses 4.9) para Roma, onde Paulo, na prisão, o levou à fé em Jesus. Agora ele estava enviando Onésimo de volta a Filemon. A carta diz a Filemon como ele deveria receber Onésimo.

Neste processo, Paulo faz pelo menos onze coisas que trabalharam juntas para subverter a escravidão.

1. Paulo chama atenção para o amor de Filemon por todos os santos. “Ouço falar da sua fé no Senhor Jesus e do seu amor por todos os santos” (1.5). Isto coloca o relacionamento com Onésimo (agora um dos santos) debaixo do rótulo do amor, não é apenas comércio.

2. Paulo apresenta a Filemon a superioridade dos pedidos sobre as ordens, quando se trata de relacionamentos governados por amor. “Por isso, mesmo tendo em Cristo plena liberdade para mandar que você cumpra o seu dever, prefiro fazer um apelo com base no amor” (1.8-9). Isto mostra a Filemon a nova dinâmica que reinará entre ele e Onésimo. O agir voluntário de um coração amoroso é o alvo no relacionamento.

3. Paulo intensifica o sentimento de Onésimo ser membro da família de Deus ao chamá-lo de seu filho. “Apelo em favor de meu filho Onésimo, que gerei enquanto estava preso.” (1.10). Lembre-se, Filemon, que quando lidar com ele, você está lidando com meu filho.

4. Paulo enfatiza isto novamente ao dizer que Onésimo se tornara parte de suas profundas afeições. “Mando-o de volta a você, como se fosse o meu próprio coração” (1.12). A palavra para “coração” é “entranhas”. Isto significa: “eu estou ligado emocionalmente de maneira profunda a este homem”. Trate-o desta forma.

5. Paulo destaca mais uma vez que ele quer evitar coerção ou força em seu relacionamento com Filemon. “Gostaria de mantê-lo comigo… Mas não quis fazer nada sem a sua permissão, para que qualquer favor que você fizer seja espontâneo, e não forçado” (1.13-14). Isto mostra a Filemon como lidar com Onésimo de uma maneira que ele também aja espontaneamente.

6. Paulo expressa a intensidade do relacionamento mais uma vez, com a expressão para sempre. “Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre” (1.15). Em outras palavras, Onésimo não está voltando para um relacionamento secular e comum. É para sempre.

7. Paulo diz que o relacionamento de Filemon não pode mais ser a relação normal senhor-escravo. “[Você o teve de volta] não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado.” (1.16). Não importa se ele deixará Onésimo livre para servir Paulo, ou irá mantê-lo a seu serviço, as coisas não podem permanecer as mesmas. “Não mais como escravo” não perde sua força quando Paulo adiciona “acima de escravo”.

8. No mesmo verso (1.16), Paulo refere-se a Onésimo como irmão amado de Filemon. Esse é o relacionamento que toma o lugar da escravidão. “Não mais como escravo, mas… como irmão amado”. Onésimo agora recebe o “ósculo santo” (1 Tessalonicenses 5.26) de Filemon, e ceiará ao seu lado na mesa do Senhor.

9. Paulo deixa claro que Onésimo está com Filemon no Senhor. “[Ele é] um irmão amado… no Senhor” (1.16). A identidade de Onésimo é agora a mesma de Filemon. Ele está “no Senhor”.

10. Paulo pede a Filemon que receba Onésimo da maneira que ele receberia Paulo. “Assim, se você me considera companheiro na fé, receba-o como se estivesse recebendo a mim” (1.17). Talvez isto seja tão forte como ele dizer: Filemon, como você me veria, me trataria, me receberia, se relacionaria comigo? Trate seu antigo escravo e novo irmão desta forma.

11. Paulo diz a Filemon que cobrirá todos os débitos de Onésimo. “Se ele o prejudicou em algo ou lhe deve alguma coisa, ponha na minha conta.” (1.18). Filemon, sem dúvida, seria envergonhado por isso, se ele tivesse algum pensamento de pedir restituição do seu novo irmão, afinal Paulo estava prisão! Ele vivia dos dons dos outros! Filemon é que deveria preparar um aposento para Paulo! (1.22).

O resultado de tudo isto é que, sem explicitamente proibir a escravidão, Paulo direcionou a igreja para longe da escravidão, pois é uma instituição incompatível com a maneira como o Evangelho trabalha na vida das pessoas. Seja a escravidão econômica, racial, sexual, moderada, ou brutal, a maneira de Paulo ao lidar com Filemon destrói essa instituição em suas várias manifestações. Caminhar “de acordo com a verdade do evangelho” (Gálatas 2.14) é caminhar longe da escravidão.

Caminhando com você em direção a Jesus,

Pastor John

Traduzido por Josaías Jr

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