Conversando sobre a lei

por Kevin DeYoung

Kevin DeYoung
Kevin DeYoung

Há poucas questões mais importantes e mais difíceis do que o relacionamento do cristão com a lei. Nos últimos anos, particularmente, houve muitas conversas e controvérsias sobre o uso apropriado da lei na santificação progressiva do crente. Todos nós sabemos que somos justificados pela fé, não pelas obras da lei, mas qual é o lugar da obediência à lei depois que somos justificados?

Uma explicação – e a melhor e mais sucinta que eu conheço – está no Capítulo XIX da Confissão de Fé de Westminster (CFW). Para os cristãos reformados em geral, é um resumo do que cremos. Para os oficiais presbiterianos em particular, isso foi o que você fez o voto de subscrever. Para os cristãos em geral, há muitas referências bíblicas na CFW, então esteja à vontade para conferir todas essas coisas.

Eu farei as perguntas e deixarei o Capítulo XIX responder. Sempre que o texto estiver em itálico é uma citação direta da Confissão.

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KdY: Olá, obrigado pela disposição de se encontrar conosco, CFW. Eu sei que você é ocupada e muito velha, então tentarei não tomar muito do seu tempo. Eu tenho só algumas perguntas sobre a lei. Para começar, de onde veio a lei? Ela foi simplesmente inventada após a queda?

CFW: Deus deu a Adão uma lei como um pacto de obras. Por este pacto Deus o obrigou, bem como toda sua posteridade, a uma obediência pessoal, inteira, exata e perpétua; prometeu-lhe a vida sob a condição dele cumprir com a lei e o ameaçou com a morte no caso dele violá-la.

KdY: Muitas palavras aí, mas eu acho que entendi. Deus deu a Adão a lei desde o começo, mesmo antes do pecado entrar no mundo.

CFW: Isso.

KdY: Uma pena que Adão não tinha qualquer capacidade de cumprir a lei.

CFW: Não, Deus dotou-o com o poder e capacidade de guardá-la.

KdY: Tudo bem, mas depois da queda, o homem é incapaz de guardar a lei.

CFW: Correto.

KdY: Então para que propósito a lei serve, uma vez que o pecado entrou no mundo por meio de Adão?

CFW: Essa lei, depois da queda do homem, continuou a ser uma perfeita regra de justiça. Como tal, foi por Deus entregue no monte Sinai em dez mandamentos.

KdY: Então isso significa que nós temos que seguir tudo que Deus falou para Moisés fazer, mesmo todas as leis sobre comida, sacrifícios e tudo o mais?

CFW: Não, porque além dessa lei resumida nos Dez Mandamentos – vamos chamá-la de lei moral, foi Deus servido dar ao seu povo de Israel, considerado uma igreja sob a sua tutela, leis cerimoniais.

KdY: E que leis são essas?

CFW: Elas continham diversas ordenanças típicas. Essas leis em parte se referem ao culto e prefiguram Cristo, as suas graças, os seus atos, os seus sofrimentos e os seus benefícios, e em parte representam várias instruções de deveres morais.

KdY: E nós precisamos seguir essas leis?

CFW: Todas essas leis cerimoniais estão todas abrogadas sob o Novo Testamento.

KdY: E todas aquelas leis para Israel como nação? Quero dizer, nós não somos mais uma teocracia, como podemos cumprir essas leis?

CFW: A esse mesmo povo, considerado como um corpo político, Deus deu leis civis que terminaram com aquela nacionalidade, e que agora não são mais obrigatórias.

KdY: Faz sentido. Então podemos simplesmente ignorar todas essas leis sobre a nação de Israel?

CFW: Não exatamente, nós ainda devemos nos preocupar com o que exige a sua equidade geral.

KdY: Se eu estou entendendo corretamente, então esses aspectos cerimoniais e judiciais da lei mosaica não são mais obrigatórios, pelo menos não da mesma forma.

CFW: Correto.

KdY: Mas e aquelas leis que você comentou primeiro, a lei moral, sabe, as leis resumidas nos Dez Mandamentos ? O que aconteceu com elas?

CFW: A lei moral obriga para sempre a todos a prestar-lhe obediência.

KdY: Mesmo quando já somos justificados?

CFW: Tanto as pessoas justificadas como as outras.

KdY: Mas se eu sou cristocêntrico, eu não sou obrigado a cumprir a lei, sou?

CFW: Cristo, no Evangelho, não desfaz de modo algum esta obrigação, antes a confirma.

KdY: Espere um segundo. Eu pensava que eu tinha sido libertado da lei. Como assim, eu ainda sou obrigado a cumpri-la?

CFW: Embora os verdadeiros crentes não estejam debaixo da lei como pacto de obras, para serem por ela justificados ou condenados, contudo, ela lhes serve de grande proveito, como aos outros.

KdY: Você está falando de como a lei nos mostra nosso pecado. Eu concordo que isso é importante.

CFW: Sim, isso é uma forma importante do uso da lei. Ela dá às pessoas uma melhor apreciação da necessidade que têm de Cristo e da perfeição da obediência dele.

KdY: Faz sentido. A lei é sobre revelar para nós nossas falhas para que possamos correr para Cristo.

CFW: Sim, mas esse não é o único uso da lei para os cristãos. Ela também é como uma regra de vida, manifestando-lhes a vontade de Deus, e o dever que eles têm, ela os dirige e os obriga a andar segundo a retidão.

KdY: Certo, então é lei simplesmente nos diz o que é certo e o que é errado.

CFW: Eu não diria exatamente isso. A lei é também de utilidade aos regenerados, a fim de conter a sua corrupção, pois proíbe o pecado; as suas ameaças servem para mostrar o que merecem os seus pecados e quais as aflições que por causa deles devem esperar nesta vida, ainda que sejam livres da maldição ameaçada na lei.

KdY: Espera aí. Você está dizendo que mesmo nós crentes precisamos prestar atenção às ameaças da lei e que mesmo os regenerados podem sofrer aflições aqui e agora por causa da desobediência? O que é isso, algum tipo de religião de mérito? Eu não acho que Deus deseja que os crentes justificados obedeçam a lei para tentar agradá-lo.

CFW: As promessas da lei mostram que Deus aprova a obediência dos homens e que bênção podem esperar, obedecendo, ainda que essas bênçãos não lhes sejam devidas pela lei considerada como pacto das obras.

KdY: Fala sério, os cristãos não obedecem porque a lei diz para obedecer.

CFW: Assim o fazer um homem o bem ou o evitar ele o mal, porque a lei anima aquilo e proíbe isto, não é prova de estar ele debaixo da lei e não debaixo da graça.

KdY: Mas se ainda devemos ouvir os alertas da lei e as promessas da lei, e se até sejamos abençoados por obedecer a lei e recebamos aflições por desobedecê-la, e se parte de nossa motivação para fazer o bem é porque a lei nos encoraja a isso, como isso tudo não é anti-evangelho?

CFW: Os supracitados usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condizem com ela.

KdY: Mas isso é simplesmente contar com nossa própria capacidade moral!

CFW: Errado! Cristãos obedecem a lei pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer se faça.

KdY: Então talvez haja mais espaço para  lei na minha vida como cristão do que eu imaginava.

CFW: Era isso que pensavam os cristãos reformados de 350 anos atrás.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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