Cristãos e a Cultura

por Tim Keller

Cristãos e a Cultura
A ‘cultura’ de uma sociedade é um conjunto de práticas, atitudes, valores e crenças que estão baseados no entendimento comum das ‘grades questões’ – de onde surgiu a vida, qual é seu significado, quem somos nós e no que é importante gastarmos nosso tempo durante os anos que nos foram dados. Ninguém consegue viver sem pensar em algumas respostas para essas perguntas, e cada tipo de resposta ajuda a formar a cultura:
a forma como tratamos o mundo material,
a forma como relacionamos o indivíduo com o grupo e com a família,
a forma como grupos e classes se relacionam,
a forma como tratamos o sexo, o dinheiro e o poder,
a forma como tomamos decisões e decidimos prioridades, e a forma como tratamos a morte, o tempo, a arte, o governo, e o espaço físico.
Hoje em dia, muitos movimentos, grupos políticos, redes de ativistas sociais, fundações, elites, especialistas, escritores, artistas e líderes religiosos estão todos trabalhando intencionalmente em favor de mudanças culturais – e trabalhando em direções extremamente diferentes e muitas vezes, contraditórias. Cristãos, obviamente, adorariam ver sua sociedade refletir mais e mais a justiça do Pai, o amor sacrificial do Filho e o poder vivificante do Espírito. Como os cristãos deveriam ‘relacionar Cristo e a cultura’ para que isso aconteça?
Historicamente, cristãos têm adotado três abordagens clássicas que ainda estão em uso. Podemos chamá-las de abordagens conversionista, política e separatista.
Conversionista – De um lado, temos um grupo que acredita que o caminho a seguir para mudar a cultura é mudar o máximo possível de indivíduos através da conversão pessoal. Assim, supostamente, a cultura seria mudaria automaticamente.
Política – Do outro lado, houve muitos crentes ao longo dos últimos séculos que pretendiam usar do poder político para estabelecer lei que eram diretamente baseadas na teologia cristã.
Separatista – A terceira abordagem rejeita qualquer idéia de cristãos tentando influenciar a cultura. Ela afirma que nós deveríamos refletir nossos valores cristãos dentro de nossas igrejas, mas não deveríamos tentar influenciar a sociedade em qualquer aspecto particular.
Em um texto tão breve, não há como esperar que se faça justiça a essas três abordagens. Cada uma delas está passível de tantas críticas das outras duas que nós podemos concluir que não um caminho utópico para criar uma sociedade cristã. Você pode levantar o ponto que nunca houve uma sociedade cristã (mesmo quando algumas se diziam ser) e nunca haverá.
Entretanto, os cristãos não devem se satisfazer com conversões individuais ou enclaves políticos quando olham e analisam o centro da narrativa da Bíblia:
A. Deus criou um mundo de paz e vida;
B. O mundo caiu em um estado de injustiça e sofrimento;
C. Deus decidiu redimir esse mundo através da obra de seu Filho e a criação de uma “nova humanidade”; até que
D. Eventualmente, o mundo será renovado e restaurado para ser da forma como ele foi criado e como queremos que ele seja.
Resumindo, o propósito da redenção não é ajudar indivíduos a fugir desse mundo. É a vinda do reino de Deus para renovar o mundo. O propósito de Deus não é somente salvar indivíduos, mas criar um novo mundo baseado na justiça, na paz e no amor, ao invés de poder, conflitos e egoísmo. Se Deus é tão dedicado ao ponto de sofrer e morrer, cristãos certamente deveriam também buscar uma sociedade baseada do amor e na paz de Deus.
Como devemos fazer isso, então? Aqui na Redeemer, nós aprendemos alguma coisa de cada uma das abordagens citadas acima, e mesmo assim temos seguido um caminho diferente. Nem sonhamos em afirmar que temos a resposta definitiva, mas nossa forma de relacionar cristãos com a cultura é, assim cremos, extremamente promissora (apesar de seus resultados até aqui serem apenas ‘embrionários’). A seguir, um rascunho:
1. Cristãos devem viver plenamente na cidade. A cidade é um intenso caldeirão para formação da cultura. Tendências culturais tendem a surgir na cidade e se espalhar pelo resto da sociedade. Assim, pessoas que vivem em grandes centros urbanos (trabalhando em suas instituições, arrumando empregos artísticos, financeiros, acadêmicos ou na mídia e fornecendo serviços) tendem a ter mais impacto sobre como as coisas são feitas em uma cultura. Se uma maior porcentagem das pessoas que habitam em cidades fosse cristã, os valores de Cristo teriam muito mais influência na cultura.
2. Cristãos deveriam ser uma contracultura dinâmica na cidade. Não vai ser o suficiente para os cristãos apenar morar na cidade, individualmente. Eles devem viver como um tipo particular de comunidade.
A Bíblia nos conta que a história do mundo é a um “conto de duas cidades”. A “cidade do homem” é construída sobre o princípio da auto-exaltação individual (Gênesis 11.1-4: “Assim nosso nome será famoso”). O que Deus deseja é diferente. “Seu santo monte, belo e majestoso, é a alegria de toda a terra” (Salmo 48.2). Em outras palavras, a sociedade urbana que Deus quer é baseada no serviço ao invés do egoísmo e em trazer alegria ao mundo, não apenas aos seus indivíduos. Provavelmente Jesus tinha o Salmo 48.2 em mente quando disse aos seus discípulos que eles eram “uma cidade construída sobre um monte” cuja vida e as ações mostraram a glória de Deus ao mundo (Mateus 5.14-17). Assim somos nós! Nós cristãos somos chamados para ser uma cidade alternativa dentro de qualquer outra cidade terrena, uma cultura humana alternativa dentro que qualquer outra cultura humana, para mostrar como sexo, dinheiro e poder podem ser usados de formas não-destrutivas; para mostrar como classes raças que não se dão bem longe de Cristo podem se dar bem nele; e para mostrar como é possível produzir arte que traz esperança ao invés de desespero e excitação.
3. Cristãos deveriam ser uma comunidade radicalmente comprometida com o bem da cidade como um todo. É insuficiente para os cristãos formar uma cultura que apenas ‘contradiz’ os valores da cidade. Nós devemos então nos voltar, como todos os recursos de nossa fé e nossa vida, para servir sacrificialmente pelo bem de toda a cidade, especialmente os mais pobres. Cristãos trabalham pela paz, segurança, justiça e prosperidade de seus próximos, amando-os em palavra e em ação, quer acreditem eles nas mesmas coisas que nós, quer não. Em Jeremias 29.7, os judeus foram chamados não só a viver na cidade, mas a amá-la e trabalhar por seu ‘shalom’ – seu crescimento econômico, social e espiritual. Cristãos são, sim, cidadãos da cidade celestial de Deus. Mas os cidadãos da cidade de Deus devem ser os melhores possíveis cidadãos de sua cidade terrena. Eles seguem os passos dAquele que deu sua vida por seus inimigos.
Por fim, cristãos não serão atraentes dentro de sua cultura através de jogos de poder e coerção, mas através de serviço sacrificial em prol das pessoas, sem se importar com o que elas crêem. Não vivemos aqui simplesmente para aumentar a prosperidade de nossa tribo ou grupo, mas para o bem de todas as pessoas da cidade.
4. Cristãos deveriam ser um povo que integra sua fé com seu trabalho. Existe um quarto e crucial componente para nosso plano de relacionar os cristãos com a cultura. Como dissemos antes, todo trabalho procede do que se acredita em relação às ‘grande questões’ sobre o significado da vida, o que os seres humanos são e quais são as coisas mais importantes da vida. Nós chamamos as respostas para essas questões de ‘cosmovisão’. Muitos campos profissionais hoje em dia estão dominados por cosmovisões muitos diferentes da cristã.
Entretanto, quando muitos cristãos adentram um campo vocacional, eles a) isolam sua fé de seu trabalho e simplesmente trabalham como todos ao seu redor ou b) simplesmente arremessam versículos bíblicos para as pessoas, esperando difundir sua fé. Nós simplesmente não sabemos como pensar sobre as implicações da visão cristã da realidade para formar tudo o que fazemos em nossas profissões. Não sabemos como persuadir pessoas ao mostrar a elas as raízes que o trabalho de qualquer pessoa tem em uma cosmovisão baseada na fé. Não sabemos como atrair as pessoas ao cristianismo ao mostramos os recursos obtidos em Cristo para resolver problemas culturais e satisfazer expectativas culturais.
A igreja cristã tem apenas começado a pensar nessa área. Quando se trata de cultura,muitos cristãos não conhecem nada além de uma fé privativa ou militante e beligerante. Aqui na Redeemer, nós queremos ser parte da renascença do engajamento cultural cristão em Nova Iorque.

A ‘cultura’ de uma sociedade é um conjunto de práticas, atitudes, valores e crenças que estão baseados no entendimento comum das ‘grandes questões’ – de onde surgiu a vida, qual é seu significado, quem somos nós e no que é importante gastarmos nosso tempo durante os anos que nos foram dados. Ninguém consegue viver sem pensar em algumas respostas para essas perguntas, e cada tipo de resposta ajuda a formar a cultura:

  1. a forma como tratamos o mundo material,
  2. a forma como relacionamos o indivíduo com o grupo e com a família,
  3. a forma como grupos e classes se relacionam,
  4. a forma como tratamos o sexo, o dinheiro e o poder,
  5. a forma como tomamos decisões e decidimos prioridades, e a forma como tratamos a morte, o tempo, a arte, o governo, e o espaço físico.
Tim Keller pregando na Redeemer Presbyterian Church
Tim Keller pregando na Redeemer Presbyterian Church

Hoje em dia, muitos movimentos, grupos políticos, redes de ativistas sociais, fundações, elites, especialistas, escritores, artistas e líderes religiosos estão todos trabalhando intencionalmente em favor de mudanças culturais – e trabalhando em direções extremamente diferentes e muitas vezes, contraditórias. Cristãos, obviamente, adorariam ver sua sociedade refletir mais e mais a justiça do Pai, o amor sacrificial do Filho e o poder vivificante do Espírito. Como os cristãos deveriam ‘relacionar Cristo e a cultura’ para que isso aconteça?

Historicamente, cristãos têm adotado três abordagens clássicas que ainda estão em uso. Podemos chamá-las de abordagens conversionista, política e separatista.

  1. Conversionista – De um lado, temos um grupo que acredita que o caminho a seguir para mudar a cultura é mudar o máximo possível de indivíduos através da conversão pessoal. Assim, supostamente, a cultura seria mudada automaticamente.
  2. Política – Do outro lado, houve muitos crentes ao longo dos últimos séculos que pretendiam usar do poder político para estabelecer leis que eram diretamente baseadas na teologia cristã.
  3. Separatista – A terceira abordagem rejeita qualquer idéia de cristãos tentando influenciar a cultura. Ela afirma que nós deveríamos refletir nossos valores cristãos dentro de nossas igrejas, mas não deveríamos tentar influenciar a sociedade em qualquer aspecto particular.

Em um texto tão breve, não há como esperar que se faça justiça a essas três abordagens. Cada uma delas está passível de tantas críticas das outras duas que nós podemos concluir que não há um caminho utópico para criar uma sociedade cristã. Você pode levantar o ponto de que nunca houve uma sociedade cristã (mesmo quando algumas se diziam ser) e nunca haverá.

Entretanto, os cristãos não devem se satisfazer com conversões individuais ou enclaves políticos quando olham e analisam o centro da narrativa da Bíblia:

  1. Deus criou um mundo de paz e vida;
  2. O mundo caiu em um estado de injustiça e sofrimento;
  3. Deus decidiu redimir esse mundo através da obra de seu Filho e a criação de uma “nova humanidade”; até que:
  4. Eventualmente, o mundo será renovado e restaurado para ser da forma como ele foi criado e como queremos que ele seja.

Resumindo, o propósito da redenção não é ajudar indivíduos a fugir desse mundo. É a vinda do reino de Deus para renovar o mundo. O propósito de Deus não é somente salvar indivíduos, mas criar um novo mundo baseado na justiça, na paz e no amor, ao invés de poder, conflitos e egoísmo. Se Deus é tão dedicado ao ponto de sofrer e morrer, cristãos certamente deveriam também buscar uma sociedade baseada do amor e na paz de Deus.

Como devemos fazer isso, então? Aqui na Redeemer, nós aprendemos alguma coisa de cada uma das abordagens citadas acima, e mesmo assim temos seguido um caminho diferente. Nem sonhamos em afirmar que temos a resposta definitiva, mas nossa forma de relacionar cristãos com a cultura é, assim cremos, extremamente promissora (apesar de seus resultados até aqui serem apenas ‘embrionários’). A seguir, um rascunho:

1. Cristãos devem viver plenamente na cidade. A cidade é um intenso caldeirão para formação da cultura. Tendências culturais tendem a surgir na cidade e se espalhar pelo resto da sociedade. Assim, pessoas que vivem em grandes centros urbanos (trabalhando em suas instituições, arrumando empregos artísticos, financeiros, acadêmicos ou na mídia e fornecendo serviços) tendem a ter mais impacto sobre como as coisas são feitas em uma cultura. Se uma maior porcentagem das pessoas que habitam em cidades fosse cristã, os valores de Cristo teriam muito mais influência na cultura.

2. Cristãos deveriam ser uma contracultura dinâmica na cidade. Não vai ser o suficiente para os cristãos apenar morar na cidade, individualmente. Eles devem viver como um tipo particular de comunidade.

A Bíblia nos conta que a história do mundo é a um “conto de duas cidades”. A “cidade do homem” é construída sobre o princípio da auto-exaltação individual (Gênesis 11.1-4: “Assim nosso nome será famoso”). O que Deus deseja é diferente. “Seu santo monte, belo e majestoso, é a alegria de toda a terra” (Salmo 48.2). Em outras palavras, a sociedade urbana que Deus quer é baseada no serviço ao invés do egoísmo e em trazer alegria ao mundo, não apenas aos seus indivíduos. Provavelmente Jesus tinha o Salmo 48.2 em mente quando disse aos seus discípulos que eles eram “uma cidade construída sobre um monte” cuja vida e as ações mostraram a glória de Deus ao mundo (Mateus 5.14-17). Assim somos nós! Nós cristãos somos chamados para ser uma cidade alternativa dentro de qualquer outra cidade terrena, uma cultura humana alternativa dentro que qualquer outra cultura humana, para mostrar como sexo, dinheiro e poder podem ser usados de formas não-destrutivas; para mostrar como classes e raças que não se dão bem longe de Cristo podem se dar bem nele; e para mostrar como é possível produzir arte que traz esperança ao invés de desespero e excitação.

3. Cristãos deveriam ser uma comunidade radicalmente comprometida com o bem da cidade como um todo. É insuficiente para os cristãos formar uma cultura que apenas ‘contradiz’ os valores da cidade. Nós devemos então nos voltar, como todos os recursos de nossa fé e nossa vida, para servir sacrificialmente pelo bem de toda a cidade, especialmente os mais pobres. Cristãos trabalham pela paz, segurança, justiça e prosperidade de seus próximos, amando-os em palavra e em ação, quer acreditem eles nas mesmas coisas que nós, quer não. Em Jeremias 29.7, os judeus foram chamados não só a viver na cidade, mas a amá-la e trabalhar por seu ‘shalom’ – seu crescimento econômico, social e espiritual. Cristãos são, sim, cidadãos da cidade celestial de Deus. Mas os cidadãos da cidade de Deus devem ser os melhores possíveis cidadãos de sua cidade terrena. Eles seguem os passos dAquele que deu sua vida por seus inimigos.

Por fim, cristãos não serão atraentes dentro de sua cultura através de jogos de poder e coerção, mas através de serviço sacrificial em prol das pessoas, sem se importar com o que elas crêem. Não vivemos aqui simplesmente para aumentar a prosperidade de nossa tribo ou grupo, mas para o bem de todas as pessoas da cidade.

4. Cristãos deveriam ser um povo que integra sua fé com seu trabalho. Existe um quarto e crucial componente para nosso plano de relacionar os cristãos com a cultura. Como dissemos antes, todo trabalho procede do que se acredita em relação às ‘grande questões’ sobre o significado da vida, o que os seres humanos são e quais são as coisas mais importantes da vida. Nós chamamos as respostas para essas questões de ‘cosmovisão’. Muitos campos profissionais hoje em dia estão dominados por cosmovisões muitos diferentes da cristã.

Entretanto, quando muitos cristãos adentram um campo vocacional, eles a) isolam sua fé de seu trabalho e simplesmente trabalham como todos ao seu redor ou b) simplesmente arremessam versículos bíblicos para as pessoas, esperando difundir sua fé. Nós simplesmente não sabemos como pensar sobre as implicações da visão cristã da realidade para formar tudo o que fazemos em nossas profissões. Não sabemos como persuadir pessoas ao mostrar a elas as raízes que o trabalho de qualquer pessoa tem em uma cosmovisão baseada na fé. Não sabemos como atrair as pessoas ao cristianismo ao mostramos os recursos obtidos em Cristo para resolver problemas culturais e satisfazer expectativas culturais.

A igreja cristã tem apenas começado a pensar nessa área. Quando se trata de cultura, muitos cristãos não conhecem nada além de uma fé privativa ou militante e beligerante. Aqui na Redeemer, nós queremos ser parte da renascença do engajamento cultural cristão em Nova Iorque.

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo

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