Cristianismo, Desconectado

por K. Scott Oliphint

K. Scott Oliphint
K. Scott Oliphint

Quando foi a última vez que você se distanciou? Não a última vez em que você foi a única pessoa na sala ou na casa – quando foi a última vez que você se afastou do contato com qualquer pessoa? Jesus “se retirava” das multidões “para os desertos, e ali orava” (Lc 5.16). Ele sabia que Sua agenda lotada exigia tempo sozinho – completamente sozinho – com Seu Pai celestial.

No século XXI, ficar sozinho e distanciado significa muito mais do que ser a única pessoa na sala. Significa estar desconectado. Em nossa admiração pela ajuda que a tecnologia traz, talvez não tenhamos consciência dos seus perigos mais sutis. E os perigos não estão simplesmente no conteúdo que a tecnologia pode oferecer, pode ser muito mais prejudicial. Seus perigos recaem também no comportamento que é exigido por seu uso. Possuir um smartphone cria a pressão por comunicação imediata. Quantas vezes por dia você verifica o seu e-mail – por telefone, computador, laptop ou tablet? Quantas vezes você o verifica mesmo quando você está no meio de uma conversa? Além disso, com a realidade da nossa nova propensão para estar em constante contato, vem a realidade das constantes expectativas dos outros sobre nós. Possuir um celular traz a expectativa de que nunca se está sozinho.

Uma das mudanças históricas de paradigma em neurologia aconteceu quando a “visão padrão” do cérebro como uma máquina fixamente interconectada mostrou-se falsa. Em vez disso, estudos têm mostrado que o cérebro é um órgão flexível. É formado e moldado, em grande parte, não apenas por aquilo que pensamos, mas pela maneira ou forma que escolhemos informar nossos cérebros. Este fenômeno de flexibilidade é chamado de “neuroplasticidade.” O cérebro é uma espécie de argila mole e flexível. Como a argila, pode ser formado e conformado, mas como a argila, pode obter uma rigidez ao longo do tempo, uma vez formado de um modo particular. Se treinarmos o cérebro para se distrair, ele vai “aprender” que a distração é o seu modo normal de operação. Ele também irá “aprender” que a contemplação e o pensamento são estranhos à sua prática.

Foi Marshall McLuhan que cunhou a frase “o meio é a mensagem.” O que McLuhan estava estabelecendo com essa frase é que não era apenas o conteúdo de um meio em particular que é importante reconhecer. Por exemplo, não são apenas as imagens que uma televisão comunica que são importantes. Talvez ainda mais importante, porque é mais sutil, é a TV se comunica por meio de imagens. O meio – isto é, a comunicação de imagens na televisão – é a mensagem. Imagens são bidimensionais, não podem se comunicar com profundidade. Elas não são dependentes do contexto, pois são seu próprio contexto. Imagens são incapazes de comunicar conceitos  universais ou o conteúdo de uma emoção (embora eles possam comunicar a emoção em si).

Com os avanços cada vez mais crescentes da tecnologia, nos tornamos uma sociedade (e uma igreja?), que comprometeu-se, talvez involuntariamente, à distração. O problema da distração já é grave o suficiente, mas o poder da distração para treinar os nossos cérebros plásticos pode ser mortal para o crescimento cristão. Se o cérebro é realmente moldado pela forma como pensamos, então é possível que nossa dependência por distração acabará por treinar-nos a não pensar mais. Seremos tão dominados pela nossa necessidade constante de verificar e responder nossos e-mails, de olhar para nossos smartphones cada vez que eles vibrarem, de verificar a pontuação de nossos times favoritos, de mandar SMS que nossa capacidade de pensar, orar e saborear a verdade de Deus quase desaparecerá.

Como Cristo, os cristãos devem isolar-se, desconectar-se. É hora de se certificar de que estamos moldando nosso cérebro plástico de uma maneira que ele será treinado novamente a pensar cuidadosamente, a se concentrar, a trabalhar com dificuldades, a meditar sobre o caráter de Deus, a deleitar-se em Sua glória. O apóstolo Paulo nos manda deixar a Palavra de Cristo habitar em nós. É possível cumprir essa ordem lendo e memorizando as Escrituras. O advérbio, no entanto, é muito importante. A palavra de Cristo deve habitar em nós ricamente (Colossenses 3.16). O advérbio expressa uma profundidade e uma abundância que pode vir a nós somente se aquela Palavra que lemos, e até memorizamos, toma o seu lugar em nossas mentes de tal forma que contemplamos e meditamos sobre suas verdades. Se o meio é a mensagem, então a Palavra de Deus nas Escrituras é dada a nós para que possamos continuar a renovar e treinar as nossas mentes plásticas para pensar os pensamentos de Deus segundo Ele.

Quando as multidões pressionavam Jesus, Ele sabia que a obediência ao Pai celestial exigia que ele deveria, por vezes, retirar-se para concentrar-se nesse relacionamento, e somente nele, a fim de conhecer e enfrentar um mundo necessitado e hostil. Um cristão que leva a sério o crescimento na graça e no conhecimento de Jesus Cristo vai tornar a tecnologia um servo cheio de recursos, não um mestre de entorpecimento mental e se comprometerá a tornar um hábito afastar-se de tudo isso, para moldar sua mente, mais e mais, em conformidade com a profundidade e a verdade da fé cristã.

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Traduzido por Josie Lima | Reforma21.org | Original aqui

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