Cuidado com imagens que te fazem parecer mais patético do que legal

por Clint Roberts

Quando foi que tornamos ser amados por todos uma obsessão a ponto de nos desviarmos do nosso caminho para exibir imagens que agradarão os outros? Não estou falando de jovens. Estou falando de pessoas crescidas que, como adolescentes superficiais com baixa auto-estima, se esforçam para apresentar imagens de si mesmas (opiniões, prioridades, atitudes) que superficialmente se conformam às ultimas tendências de uma cultura inconstante. A pressão nervosa para “se encaixar” ou pertencer à multidão correta sempre foi um rito de passagem e algo esperado dos jovens. Ela se torna astronomicamente mais patética em adultos.

O que eu quero dizer? Bem, podemos começar com a visão ampla e depois reduzir para os limites da igreja. Até agora em  minha vida, uma contínua e maciça revolução tecnológica tem fomentado o advento de um novo tipo de mundo. Nesse mundo, ao contrário do de nossos avós, todas as pessoas estão fácil e prontamente conectadas, podem se comunicar em tempo real a partir de qualquer lugar e são mais transparentes para o mundo do que nunca. Câmeras capturam o que fazemos e falamos, bilhões de nossas correspondências são gravadas minuto após minuto. O ditado “imagem é tudo” tem um novo significado agora. Não são apenas os famosos que mantêm e projetam sua imagem. Todo mundo tem uma espécie de  imagem online cheia de suas fotos, tweets, curtidas,  amigos, relatos de atividades diárias etc.

Este novo mundo também testemunha o crescimento de uma tendência desafortunada que geralmente ganha o nome de “politicamente correto”, referindo-se a uma sensibilidade elevada acerca do que você diz e de quem isso pode ofender. Com a imagem sendo tão importante e com todos sendo gravados, o cenário tornou-se um campo minado perigoso. Pessoas públicas, como políticos, dizem apenas o mínimo possível para evitar cair numa mina e ver suas reputações explodidas no instante necessário para o relato atravessar o mundo.

 A pressão nervosa para “se encaixar” ou pertencer à multidão correta sempre foi um rito de passagem e algo esperado dos jovens. Ela se torna astronomicamente mais patética em adultos.

O que isso tem a ver com ser “legal” pode não ser imediatamente aparente. Você pode pensar em “legal” em formatos mais específicos que remontam a tempos mais antigos. Eu estou sendo mais geral com relação a isso. Não pense em “legal” da forma que Fonz fazia em Happy Days¹ (para aqueles que são tão velhos que se lembram disso). Ideias do que está na moda ou do que é “legal” (ou qualquer outra palavra que você use para isso) são normalmente associadas a imagens, da imagem arquetípica de James Dean até a do personagem fictício Zoolander.² Mas estou me referindo a uma imagem que não diz tanto respeito a aparência ou forma de se vestir. Pense em ser “legal” ou “cool” simplesmente como estar na correnteza atual das formas de se pensar, em não ir de forma alguma contra as visões prevalecentes acerca das coisas. É subscrever ou concordar com todas as posições que os “garotos legais” sustentam nas questões e assuntos do dia.

Esse tipo de pressão leva pessoas com um pano de fundo social mais conservador  a repudiarem a forma como foram criados agora que elas entraram em um contexto social em que esses padrões são taxados como ultrapassados (ou pior). O medo de não ser legal faz com que algumas pessoas caiam na tentativa desesperada de parecer que estão do lado certo das coisas.

Testemunhe o que acontece regularmente com figuras públicas se auto-flagelando nos últimos anos, pagando penitência em um pronunciamento público ou conferência de imprensa, forçadas a trilhar a triste estrada da vergonha por causa de algo dito sem pensar, de uma piada de mau gosto, de alguma coisa que alguém escutou por alto vinte anos atrás. Imagine que incrível força é necessária para fazer pessoas tão arrogantes humilharem-se a si mesmas dessa forma, quer sua penitência seja sincera ou não. Ademais, o risco aterrorizante de ser mal visto pela multidão “legal” é bem pior do que a vergonha pública pela qual eles estão dispostos a passar.

Pessoas ligadas à indústria do entretenimento são especialmente suscetíveis a essas forças. Notavelmente ansiosos em relação a suas imagens, geralmente derivando sua insaciável busca por sucesso de uma tola deficiência de auto-estima,  comumente, os envolvidos com entretenimento são o tipo de personalidade com as maiores sensibilidades para perceber o que é “legal” e os níveis em que estão em relação a seus padrões. Toda vez que vejo um apresentador, um ator, um cantor, etc, cujas visões não são compatíveis com a maior parte da galera descolada, eu tomo nota. Geralmente, assumo que esses indivíduos, sendo exceções à regra, possuem um tipo de autoconfiança que é rara em seus círculos.

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Mas porque deveria ser rara? Não faz parte da maturidade justamente o tipo de auto-realização que permite que uma pessoa perceba as coisas por si mesma, faça juízos e decisões baseadas em razões de maior substância do que pressão social, e assuma a responsabilidade e as consequências por esses juízos e decisões, independentemente da pressão social ou críticas culturais que elas tragam? Os grandes reformadores sociais que geram respeito e saudade eram assim. Eles eram confiantes o suficiente em seus posicionamentos para resistir aos ventos tórridos da repercussão pública. A maioria deles era completamente “careta” segundo grande parte das opiniões de suas épocas.

Isso deveria nos ensinar algo. A neurose por ser aceito pela nossa cultura e de manter uma imagem que acompanhe os padrões do que é legal é sinal de fraqueza. Ela demonstra que somos pessoas que não estão confortáveis com a própria pele, que não podem pensar com as próprias cabeças e manter convicções baseadas na verdade ou retidão dessas convicções (ao invés de baseadas nas pressões sociais).

“Bacanice cristã”

Concentrando-se na subcultura cristã, podemos ver o mesmo fenômeno em ação. O sentimento mais comum que eu percebo em pessoas criadas em famílias razoavelmente tradicionais é que agora elas estão, de muita maneiras, “melhores” do que antes. Simplesmente não é legal vir dessa origem, mas, se você se esforçar, é possível vencer essa história infeliz pelo repúdio público. Note que não estou falando apenas sobre mudar algumas das suas visões conforme você cresce. Todo mundo faz isso de uma forma ou de outra. Estou falando de uma atitude particular relacionada a graus de aceitação percebidos nos padrões sociais contemporâneos. Muitos dos que se distanciaram tão dramaticamente de suas infâncias conservadoras o fizeram principalmente por causa de influências sociais e de colegas. Muitos deles não conseguem construir  um argumento significativo para o por quê. A maioria dos motivos não são racionais. Apenas parece mais natural que as coisas se afastem das formas conservadoras de pensamento.

Então, um monte de pessoas com formação conservadora adotou uma postura bacana que as mantêm longe de problemas que envolvem sua imagem geral. Alguns, agora, são “legais” no sentido secular mais amplo; outros, são cristãos “legais”. O sujeito simplesmente descarta sua origem e mergulha na correnteza amigável do pensamento contemporâneo. Eles permanecem “espirituais” de alguma forma (como se auto-denominam), mas não têm mais a pretensão de serem cristãos. Quando estão discutindo suas origens, eles tendem a falar de suas raízes evangélicas em termos condescendentes, vendo tudo de forma pitoresca e ficando maravilhados por terem pensado dessa forma em algum momento. Claro que alguns deles são menos bonitinhos quanto a isso, expressando auto-aversão pela sua origem conservadora.

O segundo grupo abrange a multidão de cristãos “legais”. Eles não deixaram tudo de lado e optaram por um humanismo secular (ou algo na moda dentro do seu círculo social, como espiritualidade genérica ou, talvez, religião Wicca). Não, esses hipsters ainda se identificam como cristãos (ou, pelo menos, um rótulo melhorado, algo como “seguidor de Cristo”), mas são igualmente precipitados em bloquear e torcer seus narizes para o terrível fundamentalismo de sua infância.

Eu reitero que esse fenômeno é mais do que meras alterações na teologia ou na interpretação. Não há dúvida de que muito do que igrejas ultraconservadoras bem intencionas em alguns lugares ensinam e praticam (e impõem com vigor) é, na melhor das hipóteses, extra-bíblico, ridículo ou, na pior das hipóteses, nocivo. Então, não me refiro ao caso em que uma pessoa passou a perceber certos elementos de sua origem como falso ensinamento ou como algo meio maluco. Mais uma vez, estou identificando uma certa forma de apresentar a si mesmo, em imagem, conduta – postura, se preferir – com um espírito de superioridade baseado em estar mais “por dentro” dos padrões atuais. Essas são pessoas que saíram de um ambiente hiper-conservador sou-mais-santo-do-que-você para a mais nova espiritualidade sou-mais-legal-do-que-você.

O surpreendente acerca de alguns jovens cristãos “legais” de hoje é o sentimento de desdém que eles sentem pelo padrão de religião no qual foram criados. Não é somente que eles se distanciaram desse ou daquele ensinamento (por exemplo, foram criados dispensacionalistas mas defendem uma outra visão atualmente), nem é apenas que sua infância na igreja era do tipo excessivamente rígida (por exemplo, proibiam a dança, diziam que álcool era ruim, etc). A mentalidade moderninha, ou hipster, de alguns desses antigos fundamentalistazinhos carrega um ressentimento mais profundo e pessoal, algo que eu ainda não consigo entender exatamente.

Somos muito facilmente influenciados pela percepção pública. Noções do que é “legal” são transitórias. Elas não duram e, no fim das contas, acabam por parecer tolas.

Colocando em perspectiva, existem muitas pessoas no mundo que são “ex-algo”, onde “algo” representa alguma coisa que era, de fato, opressiva. O pior exemplo inclui aquelas raras pessoas que escaparam da seita estatal da Coreia do Norte ou que foram criadas em algo como o Talibã. Exemplos menos notórios podem ser ex-cientologistas agora perseguidos, isolados de todos, ameaçados por ações legais e importunados até o fim. Em todos esses casos, o ex-algo que agora seguiu com sua vida pode ser perdoado por nutrir sentimentos extremamente doloridos contra a tirania controladora na qual ela ou ele foi criada. Pessoas assim podem jamais livrar-se de um sentimento permanente de desgosto por causa das memórias frequentes da manipulação, crueldade e abusos envolvidos; e quem pode culpá-las?

O cristão, entretanto, que foi criado na família e/ou igreja super-conservadora e que descobriu o caminho da moda não está exatamente nessa mesma categoria. Quais atrocidades estão assombrando a memória dessa pessoa para que ela veja o evangelicalismo conservador como se ele fosse a Al-Qaeda ou a Ku Klux Klan? O que leva o cristão hipster com a origem fundamentalista a atacar com um sarcasmo lastimável todas as coisas conservadoras? Afinal de contas, o pequeno ex-fundamentalista geralmente ainda defende as principais crenças de antes. Provavelmente, ele ainda defende as doutrinas essenciais do cristianismo, ainda é contra o aborto, ainda incentiva o trabalho missionário árduo em lugares distantes, ainda canta louvores todo domingo e assim por diante.

A questão não é tanto as crenças essenciais. Deixando as crenças de lado, ele agora se sente como se fosse mais aceito, mais apresentável para a cultura atual. Agora, ele se sente mais orgulhoso de sua espiritualidade e confiante de que escapará da zombaria pública. A imagem que ele tem de si mesmo e que ele espera que esteja aparente para os outros é de alguém que ainda é legal, apesar de ser cristão. Então, quando seus colegas de trabalho seculares reclamam da bancada da direita, ele pode falar “Pois é, não é mesmo?”. Ele cortou todos os laços com qualquer coisa que remotamente lembrasse seu conservadorismo inicial e está livre do peso morto dessa chatice. Como seus pares, ele menospreza as gerações passadas, pessoas que ele conhece apenas um pouco – e a maior parte disso são apenas caricaturas negativas, baseadas na ideia autocomplacente, porém bastante popular, de que nós somos muito mais civilizados, pacíficos e tolerantes do que todos esses bárbaros que vieram antes da gente.

A igreja mostra sua fraqueza e falta de profundidade quando a fonte de sua autoestima se torna tão deslocada que ela começa a suspirar por ser parte da “galera legal”.

Meu argumento em tudo isso é bastante simples: somos muito facilmente influenciados pela percepção pública. Noções do que é “legal” são transitórias. Elas não duram e, no fim das contas, acabam por parecer tolas. Como fumaça no vento, a imagem hipster que predomina atualmente será dissipada e sumirá rapidamente. Por que ser escravo de algo tão passageiro e inconstante quanto as imagens contemporâneas do que é “legal”? As massas são um caprichoso e instável senhor de escravos. As massas te farão dançar uma nova dança a cada semana, quando o tom tiver mudado por razões que não estão nem próximas da racionalidade.

Crescer envolve pensar por si mesmo, como se diz tantas vezes, examinando criticamente a instrução que você recebeu nos seus primeiros dias assim como as lições da cultura atual. O fundamentalista teimoso condena a cultura  atual sem dedicar-se a ela, aceitando seus próprios caminhos sem questionar ou desafiar a si mesmo. O hipster moderno faz exatamente o oposto. Um entende que tudo que tem em mãos deve estar correto; o outro, que deve estar errado. Mas uma reação intempestiva à sua criação conservadora é tão tola quanto uma fidelidade impensada a ela; abraçar os sentimentos culturais compartilhados do momento é tão ingênuo quanto condenar tudo o que está fora da sua tradição limitada.

Se somos cristãos que se prezem, deveríamos estar mais interessados na verdade das coisas do que tentando nos prostituir com uma cultura corrupta e confusa por causa de aceitação temporária. Imagem importa, é claro, mas o incerto fator “ser legal” deve estar bem abaixo na lista de ingredientes importantes da nossa imagem. Embora certos pontos de vista sejam, pelo menos em dado momento, impopulares, sempre há o reconhecimento universal de respeito por aqueles que buscam a verdade a custo pessoal. Daniel Defoe celebremente escreveu: “Aquele que tem a verdade ao seu lado é um tolo assim como um covarde se teme apropriar-se dela por causa da opinião dos outros homens”. A igreja mostra sua fraqueza e falta de profundidade quando a fonte de sua autoestima se torna tão deslocada que ela começa a suspirar por ser parte da “galera legal”.

É como se sua mãe aparecesse num baile da escola com o cabelo e as roupas combinando com a moda atual, fingindo falar as gírias dos seus amigos – e não é uma pegadinha. Seria simplesmente a pior imagem que ela poderia projetar. Você não acharia que ela é legal e, certamente, você não a respeitaria mais. Você corretamente veria a situação como triste e patética.

 


1 Programa da TV americana dos anos setenta que apresentava o personagem caricato “Fonzie”.
2 Comédia de 2001 estrelando Ben Stiller.

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Traduzido por Kimberly Anastacio | Reforma21.org | Original aqui

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