Da torre de marfim à cruz de madeira

por Josaías Ribeiro Jr.

Josaías Jr.

Você já viu uma torre de marfim? Nem eu. Ainda assim, gostamos de repetir expressões sem pensar muito sobre elas.Tudo bem, dá pra imaginar uma coluna alta, longe de todo mundo, com o um quartinho lá dentro, onde um iludido se distancia dos pedestres lá embaixo. Normalmente, quando falamos da igreja, esse suposto iludido correndo atrás do vento é o teólogo.

Falamos sempre desses estudiosos, perdidos em seus escritórios, sem contato com o homem comum, os problemas cotidianos e as questões que a humanidade enfrenta a cada dia. Em parte, falamos porque somos pragmáticos – se não me servir ou me divertir, é inútil. Não é à toa que Michel Teló vende mais que Michael Horton. Mas, devemos admitir, em certas ocasiões, pode haver razão para esta ideia. Não porque o estudo da teologia seja irrelevante, mas porque é possível gastarmos muito tempo usando termos lindos como supralapsarianismo, kenosis e textus receptus para nos afastarmos dos “leigos”.

Mas o que me levou a escrever não foram os teólogos que moram nas torres de marfim. Muito já foi dito e muito será dito sobre eles. Percebo que, como os estudiosos usam suas expressões esquisitas e têm seu grupinho de amigos para discutir tais assuntos, talvez seja mais fácil enxergá-los no alto da torre, como se todos se enquadrassem no mesmo estereótipo. Porém, existem outros que ocupam quartos no prédio, e que muitas vezes não percebemos.

Recentemente, me chamou atenção a preocupação que Carl Trueman, pastor e historiador, teve com aquelas pessoas que não têm ou não podem ter uma vida sexual saudável ou, pelo menos, aceitável para os padrões da igreja contemporânea. Comentando sobre a obsessão de muitos pastores e escritores a respeito da sexualidade, ele lembra que nem sempre podemos ser tão explícitos como desejaríamos em sermões, estudos e livros. E o motivo é mais pastoral que moral. Ele explica:

Pergunto-me quão útil é lidar com atos sexuais, usando detalhes gráficos no púlpito, para aqueles que lutam com o vício em pornografia. Ou simplesmente, para os solteiros. Ou para aqueles que nunca ouviram falar nos atos sexuais mencionados. Ou para aqueles que são impotentes. Ou para aqueles que ainda são crianças. Ou para aqueles que sofreram abuso sexual.

O que quero ilustrar aqui é que Trueman percebeu que existem pessoas que seriam profundamente afetadas pelo descuido de um pastor ao tratar temas delicados como este. Por estar acostumado ao seu padrão de satisfação sexual, um líder pode muito bem esquecer-se daqueles que estão em uma posição diferente, ignorando suas fraquezas, temores e problemas.

Subindo na torre

Este tipo de atitude despreocupada é mais comum do que se pensa. Muitas vezes, um pastor e o grupo que se encaixa a certo padrão (por exemplo, presbíteros ou o grupo de louvor) elevam-se acima do resto da igreja, sem levar em consideração a “vida real” que boa parte dos membros vive. Isso pode acontecer de diversas formas. Alguns exemplos:

  1. Dinheiro: quando o pastor, pelo seu bom salário, tem um padrão de vida superior aos dos membros e (mesmo inconscientemente) transforma relatos de sua vida numa exibição do programa Estrelas. Nada contra um salário digno para o presbítero (1 Tm 5.17,18), mas às vezes uma lição de humildade aprendida em uma viagem para Europa pode sair pela culatra.
  2. Vida cristã: Conhecia um pastor que dizia – “se você não teve uma experiência com Deus essa semana, algo está errado com você”. Pobre dos jovens que ouviam isso a cada reunião. Nem todos têm um relacionamento tão estável com Deus, quanto mais nesse nível de intensidade¹. Muitas podem estar aprendendo. Outros sequer sabem se sua experiência entra na categoria. Uma perseguição em casa pode afetar as devocionais diárias, que teoricamente “produzem” tais experiências. Desânimo, doença, depressão. E a falta da “experiência” novamente separa os bons dos maus.
  3. Alegria: Relacionado a isso, há a ênfase que muitos cultos dão à questão da alegria. Aqueles que não conseguem deixar a sua tristeza de fora durante o culto podem se sentir em um nível inferior. Há canções que tratam pecados e problemas gravíssimos de maneira leviana, como se a mera presença na igreja e o desejo de cantar magicamente os afastasse². Canta-se que “há muita festa” sem levar em consideração lares destruídos e tratamentos de quimioterapia; que o gafanhoto não nos tocará, quando igrejas são explodidas na Nigéria. Não sei tanto sobre o problema da depressão, mas é a maior das insensibilidades permitir que  o assunto seja tratado tão levianamente como cantando “Tire esse problema da cabeça e vem não vai adiantar você se preocupar tire esse problema da cabeça e vem louvar” em shows e cultos.
  4. Evangelismo que ignora as grandes questões: Provavelmente eu bati um dos recordes mundiais de tempo na universidade. Passei pelas exatas e pelas humanas e entrei em contato com diferentes pessoas. Esses jovens, tanto o chicleteiro quanto o cara do movimento estudantil, têm sérias questões a respeito de Deus, do homem, do universo e tudo mais. Muitas vezes pastores orientam suas igrejas a deliberadamente não trazerem respostas a essas pessoas, porque no fim não é metafísica que importa. O que vale é o exemplo, o amor, “Jesus”, ou outra palavra destituída de seu significado ou contexto verdadeiro. Parece humilde e sábio, mas basicamente não leva a sério as perguntas de nossos amigos, só nosso mundinho.
  5. Voluntariado e programações: A expressão “esquenta-banco” é famosa e refere-se àqueles que não participam ativamente em ministérios da igreja. Creio que colaborar em alguma área de sua comunidade é saudável e o padrão para o cristão. Mas devemos tomar cuidado para não desconsiderar aqueles que não podem assumir ainda um compromisso maior. Da mesma forma, podemos ignorar aqueles que só comparecem nos domingos, considerando-os inferiores aos mais ativistas ou tornando-lhes desenturmados da vida da igreja. No fim das contas, qual o centro da vida da comunidade – as programações paralelas ou o culto público?

É possível citar vários outros exemplos, como a exaltação daqueles que obtiveram curas e “vitórias” durante o ano (testemunhos geralmente só valorizam essas questões), ênfase em programações voltadas apenas a famílias estruturadas, desvalorização de jovens ou de idosos, o raciocínio de que todos são líderes (o que afasta tímidos, introspectivos e socialmente ineptos) ou coisas mais simples como a agenda lotada do pastor, pregações que propõem alvos inatingíveis (quando o Evangelho não é pregado, apenas Lei), chantagem emocional com aqueles que não colaboram financeiramente em todos os projetos que a igreja ajuda ou promove, e por aí vai.

É evidente que a mensagem do Evangelho vai ofender e vai, sim, excluir. Ela pode até parecer distante do mundo e arrogante para alguns. Mas se isso for acontecer, deve acontecer pela fidelidade da igreja à Palavra de Deus. A mensagem de Jesus ataca nosso imenso orgulho para curá-lo e faz exigências complicadas – que implicam uma transformação sobrenatural para serem aceitas. E a vida da igreja, com Ceia e Batismo delimitando quem está dentro e quem está fora, com uma mensagem de salvação exclusiva por Cristo, não deve abrir espaço para exceções. Há uma separação, mas vem por meio de Jesus (Mt 10.34).

Por outro lado, há também uma tendência hoje de se vitimizar qualquer pessoa que se sente ofendida. A igreja deve perceber quando o caso é realmente falta de um coração pastoral ou é apenas a reação de pessoas hipersensíveis (o famoso “dodói”). Às vezes, questões como estrutura, educação e ênfase podem levar a igreja a “ignorar” momentaneamente certo grupo³. Esse também não é um chamado a sermos politcamente corretos e tratarmos certos grupos como pecadores e outros como santos, mas a um apelo para que sejamos mais atentos.

Descendo à cruz

Enfim, por que isso acontece? Porque somos centrados em nós mesmos e em nossas tribos (família, grupo de afinidade, interesses). Tanto o teólogo, quanto o pastor, ou mesmo a congregação, devem examinar seus corações continuamente a fim de perceberem se seus alvos, suas palavras e ações estão exibindo um coração semelhante ao de Cristo. Jesus fez-se servo, abrindo mão de sua glória, gostos e prerrogativas por amor dos desprezíveis, doentes e esquecidos. Algumas sugestões para nos examinarmos:

  1. Você considera sua vida o padrão para todos os crentes?
  2. Já pensou que pessoas que não nasceram na igreja ou convivem pouco com você podem ter passado ou passam por situações que você nem imagina? Por exemplo: travestismo, aborto, prisão, perda de bens, solidão.
  3. Você está considerando certos grupos inferiores aos seus?
  4. Você pensa em todas as consequências do que falará ou fará publicamente?
  5. Considere se seu interesse relaciona-se mais com gosto que com serviço. Teologia é algo maravilhoso, mas somos mestres para abençoar a igreja, não para nos divertirmos. Jesus sabia tudo sobre Deus, mas sempre foi acessível.
  6. Observe se você não está protegendo sua tribo (os jovens legais e as famílias de comercial de margarina, por exemplo), ao invés de sacrificar-se pelos estrangeiros. Como assim? Compare Jonas e Jesus – um tentou esconder-se, para que Deus não salvasse os ímpios ninivitas. O outro buscou e alcançou os pagãos de seu tempo.
  7. Suas aspirações ou sua vocação frustrada te levam a enfatizar certas áreas da igreja? Por exemplo – você sempre quis ser músico, então que transformar tudo em show, considera a música o auge do culto e quer obrigar todos a gostar tanto quanto você?
  8. Conhece todos os grupos da congregação ou apenas os membros “populares” ou de sua “tribo”?
  9. Já pensou em não forçar introspectivos e tímidos a serem divertidos e brincalhões? (Ok, coloquei essa para me proteger.)

Certamente, essa lista não resolverá tudo. Sei que muitas situações ainda me surpreenderão e vou falar muita bobagem por egoísmo e autoproteção (como já fiz, várias vezes). O importante aqui é realmente levarmos em consideração as palavras do Senhor Jesus, o Bom Pastor. Estamos aqui para servir, não para ser servidos. Devemos estar atentos às pessoas, mesmo que isso seja inconveniente. Cristo desceu de uma torre bem melhor que uma feita de marfim e aceitou ser pregado em uma vergonhosa cruz. Que, como ele, saiamos das nossas confortáveis torres e voltemos à rude cruz.

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¹ Sem entrar na questão do que eles queriam dizer com “experiência”, vamos assumir que é algum tipo de nova compreensão ou entendimento que você tem sobre Deus, que te leva a uma reação emocional forte de alegria e deleite no Senhor.

² É óbvio que há momentos de alegria no culto e temos muito a celebrar, mas a igreja não pode agir como se a euforia fosse o único estado emocional em que todos os crentes se encontram.

³ Por exemplo, um prédio onde só cabem 90 pessoas sendo visitado por 200.Os atrasados serão excluídos.

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