De que adianta “não se preocupe” em tempos como estes? (4)

por David Powlison

David Powlison
David Powlison

A última parte dessa série começa com a última razão de Jesus para não viver uma vida de ansiedade. Por fim, veremos seis aplicações que nos ajudam a lidar com os problemas que nos preocupam.

Veja as outras partes da série: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3

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Finalmente, após dizer tudo isso, Jesus dá uma sétima razão para não viver uma vida temerosa. É uma razão e, ao mesmo tempo, uma alternativa. Tendo te dado tanto, seu Pai o chama para a liberdade radical de entregar sua vida. Antes, tudo era uma questão de conseguir, alcançar. Ficamos ansiosos porque queremos obter algo. Não queremos perder o que já conseguimos. Cobiçamos nossa herança porque desejamos alcançá-la. Ficamos presunçosos, nos acomodamos com uma vida de conforto e nos vemos como gatos gordos porque achamos que já alcançamos o que precisávamos. Tudo é querer, conseguir, alcançar, desejar, talvez não ter, querer obter. Mas aqui, quando você chega ao fim da mensagem de Jesus para você, é só sobre dar. Porque lhe foi dado, porque lhe tem sido dado, porque lhe será dado, algo tão certo e maravilhoso, não há mais incerteza, não há mais talvez, porque não há mais nada para se preocupar, então dê. É por prazer que Ele lhe dá, então você pode dar também. Pense nisso.

O que acontece quando isso se torna uma realidade, homens de pouca fé, é uma transformação maravilhosa na sua vida. Você tem ótimas razões para deixar para trás a ansiedade. Nós – que temos uma forte tendência a sermos como as pessoas dos jornais, tão focadas no que nós vamos ganhar, em ficarmos ansiosos pelo futuro, em lutarmos para garantirmos o nosso – somos capacitados para abrirmos nossas mãos.

Jesus diz “Vendei o que tendes, e dai esmolas”. Ele não está dizendo que você deve viver exatamente como Francisco de Assis viveu, mas ter a mesma motivação dele. É algo para se morrer e se viver. É a única liberdade verdadeira e a única felicidade verdadeira. É uma atitude de confiar no seu Pai e ser capaz de viver uma vida que vale alguma coisa. “Eu posso me entregar, e posso usar meus dons. Minha vida agora é de entrega”. Há um mundo para ser alcançado, pessoas para serem amadas e trabalhos a serem feitos. Nós temos um propósito e podemos nos entregar a esse propósito. Seu Pai sabe do que você precisa. Ele vai lhe acrescentar essas coisas conforme for necessário. Você sabe. Prioridade ao que é prioritário. Viva para o reino. O que Jesus diz aqui é maravilhoso: vai ao encontro das nossas incertezas com as quais nos preocupamos.

Note como Jesus fala: “Fazei para vós bolsas que não se envelheçam”. Você pode possuir algo que nunca envelhecerá. Nunca se desgastará. Nunca perderá a qualidade. Nunca terá furos ou precisará de remendos. Um tesouro infalível. Você pode viver por ele e entregar tudo o que tiver, pois ele nunca acaba. Sim, a crise financeira pode afetar suas receitas, e elas podem se esgotar. Mas existe um tesouro que é inesgotável. A fonte está sempre jorrando. Sempre tem mais. Nenhum ladrão pode roubar de você. Nenhuma traça pode corroê-lo. Essa “bolsa” nunca será furtada, corroída ou perdida.

Jesus diz “eu lhe prometo, a melhor coisa que você poderia desejar, você nunca vai perder”. Isso é fantástico! Tudo o que nos preocupa é aquilo que queremos, mas podemos perder. É por isso que nos preocupamos. A melhor coisa que você poderia desejar, você nunca irá perder, e pode sempre entregá-la. “Se você morrer por mim, viverá” – isso é uma promessa. É a forma fundamental da redenção. Se você morrer por Cristo, viverá. Seu Pai está provendo, então você pode dar generosamente.

Como manter o controle quando os vândalos estão tomando o controle da sua mente?

Eu quero que você imagine isso. Você deseja ouvir uma boa descrição do que acontece durante a ansiedade? “Como a cidade com seus muros derrubados, assim é quem não sabe dominar-se”. Provérbios 25.28. Como manter o controle quando bárbaros invadem as ruas da sua mente? Ataques terroristas, gangues de criminosos, homens-bomba, incêndios, até os leões correm soltos nas ruas. Caos. Você perde o controle. O medo e a ansiedade comandam. Nada é certo ou está a salvo.

Ansiedade é uma experiência humana universal, e você precisa de um plano para lidar com ela. Note que isso não é uma fórmula. Quando Andy Reid, técnico do Philadelphia Eagles [time de futebol americano], vai para um jogo, ele não faz ideia do que acontecerá após o apito inicial. Ele não sabe nem quem vai começar o jogo até que joguem o “cara ou coroa”. Mas ele não está despreparado. Ele tem um plano de jogo, uma orientação básica para o que pode acontecer. Eu quero fazer uma lista de 6 coisas que compõe um plano para quando você começa a se preocupar e ficar obcecado.

Primeiro, dê nome à tentação. Você sempre se preocupa com algo. O que normalmente te leva a isso? Quais “boas razões” você tem para se preocupar? O simples ato de listar essas coisas pode ser muito útil. No meio de uma crise de ansiedade, pode parecer um milhão de coisas. Você parece estar fazendo malabarismo com mil facas, segurando de um lado e empurrando de outro. Mas na verdade, são apenas três bolinhas – talvez seja apenas uma coisa que te preocupa. É de grande ajuda dar nome àquilo que sempre te volta à mente para atormentar. A ansiedade parece sem fim, infinita – mas elas são finitas e específicas.

Segundo, identifique como você expressa sua ansiedade. Veja os sinais. Como a ansiedade se mostra na sua vida? Para alguns, é um sentimento de pânico entalado na garganta, ou apenas um leve mal estar. Que grande avanço é poder dar um passo atrás e dizer “A-ha! Um pontinho vermelho no radar!”. Ao invés de apenas ir engolindo as preocupações, você pode identificar a aproximação delas. Para algumas pessoas, são pensamentos obsessivos repetitivos “Já é a quarta vez que imagino toda essa história novamente”. Para algumas pessoas, o sinal é a raiva. Elas ficam irritadas, mas quando se acalmam, percebem: “eu estava temeroso e ansioso por algo específico”. Para outras, a preocupação tem sinais físicos (como dores de cabeça) ou se mostra nos remédios baratos que o pecado fabrica para nos relaxar (como mastigar gelo ou roer as unhas). Identifique os sinais. Como essas coisas podem te ajudar? “Eu estou perdendo o controle, Deus, as pilhas da minha lanterna estão acabando”.

Terceiro, se pergunte “por que estou ansioso?”. A preocupação sempre tem uma lógica. Pessoas ansiosas são “homens de pouca fé”. Se você se esqueceu de Deus, quem, ou o que, o afastou da sua mente e começou a reinar no lugar dEle? Identifique o sequestrador. Pessoas ansiosas ficam presas em algum tipo de ganância. O que eu quero, preciso, desejo, demando, cobiço? Ou o que eu tenho medo de perder ou de nunca conseguir? Identifique a cobiça específica. Pessoas ansiosas buscam mais as coisas criadas que o Criador. Elas tratam como tesouro as coisas erradas. O que está me preocupando, me fazendo buscar com todo o meu coração? Identifique o objeto da sua obsessão.

Quarto, qual razão Jesus te dá para não se preocupar? Quais daquelas promessas que acabamos de conversar? Volte e escolha uma para guardar no coração. Eu listei 7 promessas para você, 7 formas que garantem que Deus está governando Seu universo. Eu dei destaque para a sexta, “Seu pai é Deus”, porque é a melhor dessas razões. Mas todas elas são boas razões. É por isso que Jesus menciona todas elas. Nós somos pessoas muito simples. É difícil se lembrar de todas as sete, então escolha uma. Para mim, no último mês, a mais útil tem sido “se Deus alimenta os corvos, por que ele não cuidaria de mim?”. Tenho vontade de rir só de pensar nisso, e a ansiedade não é capaz de coexistir com uma risada sincera. Aquela gangue de corvos me fez identificar muitas tentações no meu coração; eles me ajudaram. Agarre uma dessas promessas e trabalhe em cima dela.

Quinto, vá ao seu Pai. Converse com Ele. Não é como se seu Pai não se importasse com as coisas com as quais você se preocupa: seus amigos, sua saúde, seu dinheiro, seus filhos, etc. Seu Pai sabe o que você precisa. Você pode ir até ele, levar as coisas que te preocupam. Deixe aos pés dele as suas ansiedades, porque ele cuida de você. Todas essas coisas estão além do seu controle! Como seus filhos serão? Se você vai ter Alzheimer? O que vai acontecer com a economia? Se você vai se casar? Se haverá um ataque terrorista na sua cidade? Se o seu pai vai ter um encontro com o Senhor? Se você terá dinheiro para as contas do mês que vem? Você tem muitas razões para se preocupar com essas coisas, mas você tem razões melhores ainda para deixá-las aos pés de Alguém que te ama. Como aquela garotinha que a mãe ajudou a caminhar, a sua vida está completamente nas mãos do Senhor.

Finalmente, dê. Diga e faça algo construtivo. Se importe com alguém. Supra as necessidades de alguém. No mais escuro, quando o mundo está mais confuso, quando há vândalos nas ruas, quando a vida parece impossível, sempre há a coisa certa a fazer. Sempre há alguma forma de se entregar. O problema pode parecer insuportável. Você se preocupar. Mas você é chamado a fazer algo pequeno, insignificante. Sempre há algo pela qual se entregar, e alguma forma de fazê-lo. Jesus disse muito sobre isso em Mateus 6, uma passagem paralela a essa que estamos estudando:  “Basta a cada dia o seu próprio mal”. Se dedique a lidar com os problemas de hoje. Deixe as incertezas do amanhã para o seu Pai.

Irmãos e irmãs, aprouve ao seu Pai lhes dar o reino. Deus é o seu pai. Não se preocupe.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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