Dia do Senhor, dia inútil?

por Josaías Ribeiro Jr.

dez-mandamentosO sábado, ou o dia do descanso, para os israelitas tem alguma implicação para os cristãos hoje? Você pensa sobre isso? Tenho certeza que muitos de nós não gastamos muito tempo pensando no quarto mandamento. No máximo, aceitamos que os primeiros cristãos passaram a comemorar a ressurreição de Jesus ao reunir-se no domingo e que não podemos ser legalistas como os fariseus do tempo de Jesus eram em relação a este dia. Associamos o dia do descanso ao dia em que devemos nos reunir em culto e aproveitar como um dia semelhante a qualquer outro dia que não é útil.

Seria então o domingo, e o princípio por trás dele, o de dia de descanso, apenas uma base para um “dia inútil” na nossa semana? Nesse texto rápido quero te mostrar como a Lei, quando vista de maneira correta – isto é, revelação de Deus para seu povo, ou seja, nós – apresenta alguns bons motivos para levarmos essa questão um pouco mais a sério.

Antes de tudo, um alerta: não confunda isso com Adventismo. Às vezes falarei do sábado como sinônimo de “dia do descanso”, ou como um princípio que deve ser aplicado no domingo também. Também não confunda com legalismo – acredito que a maneira como lidamos com o Dia do Senhor é uma questão cheia de peculiaridades e particulares, o que significa que às vezes duas pessoas realizando a mesma ação podem estar errando ou acertando. Compare, por exemplo, os discípulos de Jesus e o povo de Israel catando comida no sábado. No caso dos israelitas no deserto, a falta da confiança na providência tornava tal atitude condenável. Além disso, o texto que usarei trata dos anos sabáticos. Há mais que a questão do dia, há o princípio do sábado.

Dito isso, vejamos o que o livro de Êxodo nos ensina:

“Plantem e colham em sua terra durante seis anos, mas no sétimo deixem-na descansar sem cultivá-la. Assim os pobres do povo poderão comer o que crescer por si, e o que restar ficará para os animais do campo. Façam o mesmo com as suas vinhas e com os seus olivais. Em seis dias façam os seus trabalhos, mas no sétimo não trabalhem, para que o seu boi e o seu jumento possam descansar, e o seu escravo e o estrangeiro renovem as forças. Tenham o cuidado de fazer tudo o que lhes ordenei. Não invoquem o nome de outros deuses; não se ouçam tais nomes dos seus lábios.” (23.10-13)

Existem algumas implicações nessa ordem da Lei de Moisés.

1) Uma implicação ecológica: A terra não oferecia ao povo recursos ilimitados. Talvez naquela época até parecesse algo sem sentido para alguns hebreus (se considerassem a questão importante, talvez não desrespeitassem esse mandamento tantas vezes), mas para nós este é um fato até óbvio (e ainda assim continuamos brincando com o assunto). A terra precisava descansar para que voltasse a ser fonte de provisão dos israelitas ou então ela sofreria com o maltrato do homem. Além disso, o que sobrava naquele ano sabático era deixado para que os animais selvagens pudessem também usufruir do trabalho do povo, enquanto os animais domésticos deveriam descansar de seus esforços também. Deus se preocupa com as criaturas e com os seres inanimados de sua Criação.

consumismoAprendemos aqui que a maneira como lidamos com os recursos naturais tem relação com Deus. Não pensemos que isso se trata apenas de conversa de ecochatos, mas é algo que o próprio Yahweh se preocupou em registrar em sua lei. Como cristãos, temos a obrigação de dar descanso à terra. Vivemos numa sociedade de alto consumo de bens e produtos, e muitas vezes não pensamos em como gastamos os recursos da natureza. O princípio do sábado nos mostra que tanto a Criação quanto o homem devem dar uma pausa, a fim de que o mundo não seja sobrecarregado apenas para satisfazer os desejos da humanidade.

Alister McGrath nos apresentam quatro princípios ecológicos tirados narrativa da Criação, mas que se aplicam para Israel e para a Igreja:

  1. O princípio da conservação da terra: Assim como o Criador cuida da humanidade e a mantém, a humanidade, por sua vez, deve cuidar da Criação do Criador e mantê-la;
  2. O princípio frutífero: A fecundidade da Criação deve ser aproveitada e não destruída;
  3. O princípio da realização e dos limites: A humanidade precisa conhecer seus limites na relação com a Criação e respeitá-los;
  4. O princípio do descanso: Deve-se permitir que a Criação goze de períodos de recuperação em relação ao uso humano de seus recursos.

2) Uma implicação social: Enquanto o povo não cultivava nem colhia a terra, ainda era possível que frutos nascessem das plantações. No entanto, aquilo que crescesse deveria ser dado aos pobres, já que estes provavelmente não teriam como guardar alguma coisa para o ano sabático. O hebreu não poderia ser ganancioso, juntando mais que o necessário para si, ou preguiçoso, colhendo aquilo que nascia do que ele não tinha semeado. Essas bênçãos da terras, presentes da mão providencial de Deus, deveriam ser usadas para abençoar o necessitado. Quantos de nós pensamos assim sobre os excedentes? Quem teria coragem de usar um 13º apenas para os pobres e necessitados desse mundo? Ou parte do saldo positivo da conta bancária?

Para Calvino, o motivo de recebermos mais é que contribuamos mais:

“Ensinados somos que os ricos receberam maior abundância, com esta condição –  que sejam ministros dos pobres, a dispensarem os bens que foram postos nas suas mãos pela bondade a Deus. Todos os ricos, então, quando tem o de que fazer o bem, certo é que aí estão como oficiais de Deus e que fazem o que lhes incumbe, isto é, ajudar o próximo na vida.” (João Calvino)

workaholic-thumb1Para os autores bíblicos, a religião que não envolve o cuidado junto aos pobres é considerada falsa, pois desprezar o necessitado é desprezar aquele que os criou. Muitos membros de igreja são omissos em relação aos seus irmãos, o que não é permitido por Deus. Na Bíblia, o ódio às pessoas não revela-se apenas em ações más, mas também na falta de ação frente aos problemas do outro. Aquele que finge não ver a dificuldade do outro não tem o amor de Deus.

Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? (1Jo 3.17)

Além disso, o sábado trazia descanso para os funcionários que o israelita poderia ter. Não havia espaço para workaholics no povo de Deus. Não deveria haver opressão. Os shopping centers não abririam no domingo. As pessoas não eram obrigadas a trabalhar no Dia do Senhor e não poderiam ser demitidas por isso. Não há espaço para consumismo, ganância e falta de repouso entre o povo de Deus.

E é irônico que às vezes o Senhor tenha que nos ordenar que descansemos…

3) Uma implicação religiosa: É curioso que essa passagem termine com uma ordem para que não se caia na idolatria. Talvez fosse intenção de Moisés demonstrar que o sábado está intimamente ligado à adoração e ao relacionamento com Deus. O Dia do Senhor, ao contrário do que muitos crentes pensam, É o Dia do Senhor.

Ainda que os cristãos não devam seguir o mandamento do dia de descanso de maneira legalista como faziam os fariseus e algumas seitas fazem hoje, vemos que muitas vezes os crentes menosprezam a ordem para consagrar esse dia somente ao Senhor. Somos levados a usar o domingo para resolver pendências pessoais ou apenas se entreter, ignorando as reuniões do povo de Deus e nosso relacionamento com ele.

rede+descansoAquilo que você faz ou deixa de fazer neste dia pode demonstrar quem é seu verdadeiro Deus. Para aqueles que se dedicam ao emprego e ao consumo, o deus cultuado no domingo é o dinheiro, para aqueles que usam apenas para o prazer pessoal, o deus adorado é seu próprio ventre (Fp 3.19). Nos dois casos, o Dia do Senhor vira o dia do EU. A quem você adora nos domingos (seja ele o domingo literal ou o tempo que você deveria dedicar ao Criador) – a empresa, o shopping, a família, o futebol, o lazer ou o sono? Use o dia do descanso para seu prazer em Deus! Lembre-se: no Antigo Testamento, o sétimo dia era mencionado como uma das festas do povo (Lv 23.2,3). Faça dele uma festa também!

Concluindo, vemos que o descanso de Deus no sétimo dia, relatado em Gênesis 2, tem a ver com a contemplação do Criador com a coisa criada. Essa contemplação, porém, é mútua, pois também o homem deve dedicar este sábado para contemplar a beleza de seu Criador. Por trás do sábado não está simplesmente uma lei sobre um dia da semana, mas está o princípio de como a Criação deve se relacionar especialmente o Criador.

E isto tem tudo a ver conosco, cidadãos da Nova Criação de Deus. Não faça do domingo um dia inútil. Use-o para a glória de Deus.

Descansando no Senhor,

Josa

P.S.: Agradeço ao Filipe Schulz e ao Felipe Simões, que colaboraram em parte desse texto com suas ideias e comentários, e com trechos da aula que preparamos para a classe de cosmovisão.

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