Em defesa da Idolatria: por que cristãos evangélicos podem adorar ídolos

por Andrew Wilson

[Eu realmente espero que fique claro que isso é uma paródia, mas se não estiver: isso é uma paródia]

Até onde consigo me lembrar, eu sempre quis adorar ídolos. Não é que meus pais tenham me educado assim, porque não o fizeram; eu cresci em um lar cristão amável e seguro. Mas desde a infância até hoje, meu coração sempre foi atraído pela idolatria. De fato, se eu for honesto, uma das características que mais definem a minha identidade tem sido meu desejo de colocar outras coisas – popularidade, dinheiro, influência, sexo, sucesso – no lugar de Deus.

Eu simplesmente sou assim.

Por muitos anos, fui ensinado que idolatria era pecado. Como bom cristão, lutei contra o desejo de cometer idolatria e me arrependia quando cedia a ele. Mas o desejo de adorar ídolos nunca se foi.

Eu gostaria que isso desaparecesse, mas não aconteceu.

Assim, tem sido uma grande bênção descobrir que adorar um Deus, e apenas um, não é para todos. Há milhares de cristãos por aí que encontraram formas fiéis e amorosas de expressar sua adoração tanto por Deus quanto por ídolos, sem comprometerem sua fé ou sua visão das Escrituras. Nos últimos anos, finalmente reuni a coragem para admitir que sou um deles. Deixe-me dar algumas razões pelas quais eu creio que idolatria e cristianismo são compatíveis.

Eu começo com a minha própria história, que é a mesma de muitos outros como eu. Sou evangélico e tenho uma visão rigorosa da Bíblia – atualmente estou estudando para obter um Ph.D. em estudos bíblicos no King’s College de Londres, que será minha terceira graduação em teologia – assim como conheço as duas línguas originais e o estado do estudo acadêmico. Mesmo assim, após estudar sob muita oração, descobri a verdade libertadora que é possível ser um cristão idólatra. Isso, por si só, já é uma evidência de que você pode ser evangélico e idólatra.

Não apenas isso, mas vários escritores evangélicos tem desafiado a narrativa monólatra em uma série de livros acadêmicos. Vários desses apresentam um argumento poderoso em favor de ouvir a diversidade dos testemunhos antigos em seus contextos originais e buscam uma abordagem cristã de humildade, abertura e inclusão em relação a nossos irmãos e irmãs idólatras.

Alguns, ao ouvirem isso, irão correr diretamente para as passagens confrontadoras das cartas de Paulo (que eu vou comentar daqui a pouco), na tentativa de assegurar suas fortalezas fundamentalistas e encerrar futuros diálogos. Mas ao considerarmos o material das Escrituras, duas coisas se destacam. Primeiro, a vasta maioria das referências a ídolos e idolatria na Bíblia aparecem no Antigo Testamento – o mesmo Antigo Testamento que nos diz que não podemos comer frutos do mar ou juntar gravetos no Sábado. Quando defensores da monolatria comem sanduíches com bacon e dirigem carros no fim de semana, eles mesmos deixam claro que devemos superar os mandamentos do Antigo Testamento na nova aliança.

Em segundo lugar, e mais importante, precisamos ler toda a Bíblia em referência à abordagem de Jesus. Ser um cristão é ser parecido com Jesus: alguém cuja vida é baseada nas prioridades dEle, não dos teólogos que o seguiram. E quando olhamos para Jesus, notamos que ele recebia todos que vinham a ele, incluindo aquelas pessoas que os líderes religiosos (adoradores de um Deus só) rejeitavam – e que Jesus não disse absolutamente nada sobre ídolos em qualquer um dos quatro evangelhos. Teólogos conservadores, muitos dos quais são meus amigos, muitas vezes não percebem esse ponto no debate, mas para aqueles que amam Jesus, isso deveria estar no centro da discussão.

Jesus não tinha qualquer problema com a idolatria.

Ele incluía todos, não importa quantos deuses eles idolatravam.

Se queremos ser como ele, então devemos adotar a mesma abordagem inclusiva.

Também devemos nos lembrar que, conforme conhecemos mais sobre o cérebro humano, descobrimos todo tipo de coisa sobre idolatria que os escritores da Bíblia simplesmente não sabiam. Os profetas e os apóstolos não sabiam nada sobre córtex e neurônios, e não tinham a menor ideia de que algumas pessoas são pré-programadas para cometerem idolatria, então nunca falaram sobre isso. Mas, conforme aprendemos mais sobre genética, ligações neurais, hormônios e etc., começamos a perceber que algumas tendências – alcoolismo, por exemplo – são resultados científicos da forma que fomos feitos e, por isso, não podem ser a base para desaprovação ou condenação moral. Não levar em conta as descobertas da ciência nesse ponto é como continuar a insistir que a terra é plana.

Com todas essas ideias preliminares em mente, finalmente podemos nos voltar para Paulo, que, infelizmente, tem sido usado como aríete pelos monólatras por séculos. Quando o fazemos, o que salta aos olhos imediatamente é que na “passagem confrontadora” mais clássica, Romanos 1, o problema não tem nada a ver com idolatria! O problema, como Paulo diz, não é que as pessoas estejam adorando ídolos, mas que “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível” (1.23). Paulo não está falando sobre pessoas idólatras por natureza. Ele está falando de pessoas que eram adoradoras por natureza do Deus de Israel e deixaram isso para adorarem ídolos. O que mais a palavra “mudaram” poderia significa aqui?

Não apenas isso, mas nenhuma dessas referências se aplicam à idolatria como a conhecemos hoje: colocar algo acima de Deus em nossas afeições. Paulo, como cidadão Romano Helenista, simplesmente não tinha categorias para falar desse tipo de coisa. Em seu mundo, idolatria significava se render fisicamente a deidades tribais – estátuas e imagens feitas de bronze, madeira ou pedra – e, dessa forma, a adoração de poder, dinheiro, sexo ou popularidade não tem nada a ver com as proibições de Paulo (alguns veem uma exceção na forma com que ele fala sobre cobiça como idolatria em Efésios 5.5 e Colossenses 3.5, mas essas passagens obviamente refletem seu desejo, como judeu do primeiro século, de honrar os Dez Mandamentos).

Em outras palavras, quando Paulo fala sobre idolatria, ele não está falando da adoração a ídolos como conhecemos hoje. Como seguidor de Cristo, ele ficaria tão horrorizado quanto Jesus se visse a forma como suas palavras tem sido torcidas para excluir idólatras modernos como eu e tantos dos meus amigos. Por séculos a igreja tem silenciado a voz dos idólatras (assim como silenciou a voz dos escravos e mulheres), e já é hora de reconhecermos que nem Jesus nem Paulo tinham qualquer problema com a idolatria.

Obviamente, isso é apenas a minha contribuição para uma longa conversa, não a última palavra sobre o assunto. Minha esperança é que você examine as escrituras, examine seu coração e considere as evidências – e evite julgar aqueles que discordam! Talvez, só talvez, possamos abrir espaço na igreja para aqueles que, como eu, passaram a vida toda lutando contra a idolatria.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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