Ensinando as partes explícitas da Bíblia para as crianças

por Nick Batzig

Uma das coisas que percebi na primeira vez que ensinei o livro de Gênesis por completo é que as narrativas patriarcais parecem muito mais com o tipo de coisa que você encontra nos seriados da TV a cabo do algo que você ouviria nos programas evangélicos matinais. Seja o relato de Cain assassinando seu irmão, o pecado sexual dos homens de Sodoma e Gomorra, o pecado de Abraão com Agar, o pecado de Judá com sua nora fingindo ser uma prostituta, o tratamento cruel de Simeão e Levi com os homens de Siquém, a traição dos irmãos de José ou a tentativa da mulher de Potifar de levar José para a cama, você não precisa ir além do primeiro livro da Bíblia para encontrar o que eu gosto de chamar de “as partes explícitas da Bíblia”.

Como pastor, muitas vezes vejo pais expressarem preocupação com o que tem sido exposto a seus filhos pequenos na igreja. Seja uma referência ao sinal da antiga aliança, a circuncisão, sendo aplicado ao órgão reprodutivo masculino, ou alguma parte da narrativa Bíblica sendo discutida na Escola Dominical – não há como evitar a exposição de nossos filhos às porções da Escritura em uma igreja biblicamente fiel. De fato, eu diria que nós somos chamados a expô-los à realidade dessas coisas da forma correta. A Bíblia é muito mais explícita do que muitos de nós gostaríamos de admitir. Nas palavras de Rich Mullins:

A Bíblia não é um livro para os fracos de coração – é um livro cheio de toda a ganância, glória, violência, carinho, sexo e traição que acometem a humanidade. Não é uma coleção de belas anedotas proferidas por pequenos ratinhos de igreja piedosos – ela não dá mordidinhas no cadarço do sapato, mas corta profundamente até o coração e separa ossos e medula. Ela não nos dá respostas do tamanho de nossas questões tacanhas, mas a verdade que vai além do que sequer sabemos como perguntar.

De fato, a mensagem central da Bíblia é a mais explícita possível – a saber, o assassinato do Filho de Deus, que foi espancado e torturado, flagelado e pregado ao madeiro para sangrar e até a morte pelos pecados explícitos de Seu povo. Certamente devemos ensinar os nossos filhos essa verdade explícita desde seus primeiros dias! Ao considerarmos esse assunto extremamente difícil (e amplamente debatido), aqui estão três razões para ensinarmos nossos filhos sobre a depravação do homem conforme ela é revelada na Escritura:

1. Porque Deus ordena. O Senhor mandou os israelitas ensinarem toda a Sua palavra diligentemente aos seus filhos. Em Deuteronômio 11.18-21, lemos:

Colocai estas minhas palavras no coração e na alma; prendei-as como um sinal na mão, como faixas na vossa testa; e as ensinareis a vossos filhos, falando delas, sentados em casa e andando pelo caminho, ao vos deitardes e ao vos levantardes; e as escrevereis nos batentes de casa e nas portas; para que se multipliquem os vossos dias e os dias de vossos filhos na terra que o SENHOR prometeu com juramento dar a vossos pais, enquanto o céu cobrir a terra.

Certamente esse mandamento, no último livro da Lei (Deuteronômio), inclui ensinar nossos filhos aquelas porções explícitas do primeiro livro da Lei (Gênesis). Além disso, inclui ensiná-los aquelas leis extremamente específicas a respeito do pecado sexual (Êxodo 22.19; Levítico 18.6-18; 23; 20.13, 15-16, 17). Isso não significa que precisamos entrar nos detalhes com nossos filhos mais novos. Claro, o mais sábio é ensiná-los todo o conselho de Deus ao ler os livros da Bíblia e esperar até que eles façam perguntas específicas sobre as coisas que ouvirem. Embora a Bíblia seja explícita em seu conteúdo, há um nível de discrição na forma com que ela aborda o pecado sexual. Por exemplo, ela usa o eufemismo “descobrir a nudez” como código para o ato sexual. Ela usa a frase “ele a conheceu” para descrever a intimidade sexual de um marido com sua esposa. Entretanto, devemos lidar com o fato de que Deus disse que membros da igreja da Antiga Aliança que eles não deveriam “se deitar com um animal” (Levítico 18.23). Eles também deveriam ensinar isso aos seus filhos.

Se nunca falamos sobre as partes explícitas da Escritura para nossos filhos, estamos sugerindo de forma descuidada que Deus não devia ter incluído essas partes na Escritura. Nós não queremos cair na armadilha de sermos “mais decentes” que Deus. Isso só irá prejudicar a fé de nossos filhos, quando eles finalmente encontrarem essas porções da Escritura, as quais nunca tivemos a coragem de ensiná-los. Quando eles forem confrontados por essas coisas no mundo, eles não saberão como lidar com descrentes sexualmente perversos pelo bem do evangelho (1 Coríntios 5.10), ou serão atraídos pela perversidade desses pecados (Levítico 18.24). Ironicamente, muitos dos que pensam que estão santificando seus filhos ao não os exporem às porções explícitas da Escritura estão, na verdade, falhando no uso do que Deus nos deu para nossa santificação. Deus nos ordena ensinarmos as Escrituras diligentemente aos nossos filhos – incluindo as partes explícitas – porque elas são meios para a nossa santificação (João 17.17) quando ensinadas à luz do evangelho.

2. Porque a nossa cultura necessita. Um amigo e mentor recentemente me disse que “com a crescente acessibilidade, e aceitação, da pornografia, veremos um aumento do pecado sexual na igreja”. Infelizmente – embora eu não gostaria que fosse assim – eu sei que isso é verdade. Longe de isolar a igreja da Antiga Aliança do conhecimento de imoralidade grotesca, o Senhor os instruiu a respeito dessas coisas por conta da exposição que eles sofreriam, em virtude de sua proximidade com as nações pagãs ao seu redor. Deus disse a Israel que eles precisavam evitar essas coisas “porque as nações que eu expulso de diante de vós se contaminaram com todas elas” (Levítico 18.24). Foi precisamente por causa das ações daqueles ao redor deles que o Senhor ordenou que Israel não praticassem essas coisas. Assim também, em nossos dias – com a cultura se gloriando na imoralidade sexual – cabe a nós instruir nossos filhos a respeito do que eles devem evitar. Ironicamente, quando os pais deixam de fazê-lo, o resultado muitas vezes é o oposto da intenção. Muitas vezes, crianças que foram isoladas da verdade da depravação do mundo e de seus próprios corações acabam correndo diretamente para a perversão do mundo quando se tornam adultos. Isolar nossos filhos dessas coisas não muda seus corações. Seus corações só serão transformados pela verdade do evangelho e a pela obra soberana do Espírito Santo que os regenera.

Além disso, a cultura necessita que instruamos nossos filhos pelo bem da defesa da fé. A incapacidade de explicar ou saber abordar as porções explícitas da Bíblia prejudicará severamente a eficácia do nosso testemunho. Muitas vezes eu já fui desafiado por descrentes a respeito de coisas como as táticas de extermínio de guerra do Antigo Testamento. É importante que expliquemos para nossos filhos porque Deus ordenou que Israel erradicasse todos os habitantes (homens, mulheres e crianças) da Terra Prometida. E, é claro, precisamos saber mais do que simplesmente que Ele ordenou – também precisamos saber porque Ele ordenou, para podermos explicar. Precisamos ser capazes de ensinar nossos filhos a como distinguir as leis cerimoniais do Antigo Testamento – que eram apenas para Israel até que Cristo veio e as cumpriu na história redentiva – das leis morais contra o pecado sexual nos mesmos livros. Em seu artigo “A Lei do Antigo Testamento e a acusação de incoerência”, Tim Keller fez um excelente trabalho de nos ajudar a defender nossa fé nessas questões. Nossos filhos precisam crescer aprendendo sobre tudo que Deus revelou na Escritura e como defender a fé em relação a ela.

3. Porque nossos corações precisam. Às vezes me pergunto se aqueles que são cautelosos e zelosos em excesso em proteger seus filhos de serem expostos à verdade da depravação do mundo – como é revelada na Escritura – simplesmente não estão querendo enfrentar e confessar sua própria depravação. Me permita explicar. Em lares fundamentalistas e legalistas, muitas vezes há a tentativa de isolamento do conhecimento da depravação do mundo em nome da santidade, enquanto não se admite o fato de que não podemos nos isolar da depravação de nossos próprios corações. O coração legalista deseja reconhecer a depravação “de fora” e insiste que a contaminação vem meramente pela exposição, ao invés de apontar o dedo “para dentro” e insistir que a depravação está em todos nós por conta da natureza pecaminosa que todos nós herdamos de Adão. Sem dúvida, queremos guardar nossos corações pecaminosos – e os corações pecaminosos de nossos filhos – de uma contaminação desnecessária pela depravação ‘externa’ (pelo que achamos ser uma exposição desmedida), mas não o faremos apenas por não falarmos a respeito. Só o faremos quando reconhecemos que temos a mesma natureza daqueles que praticam tais coisas e que o nosso Deus nos ensinou sobre o mal dessas coisas para que possamos, pela graça do nosso Senhor, Jesus Cristo, no evangelho, evitá-las.

Dito isso, eu realmente acredito que há uma forma correta de expor nossos filhos a essas coisas. Pode haver uma grosseria inapropriada com que essas coisas podem ser apresentas às crianças. Em alguns lares, o pêndulo balança para o outro lado. Pais imaturos (e, sim, há pais imaturos em qualquer igreja) que fazem piada com coisas perversas podem – e certamente irão – causar dano irreparável em seus filhos. Adicionalmente, como já falei, quando a Bíblia alerta contra o pecado sexual perverso, ela o faz de formas bem específicas – mas assim o faz com um certo nível de propriedade verbal. Felizmente, há muitas outras coisas na Bíblia além dessas partes explícitas. Isso significa que nossos filhos devem receber uma dieta saudável de todas as diferentes partes da Escritura e verdades ensinadas nela. As partes explícitas são necessárias, mas não são as únicas partes. Elas devem ser ensinadas proporcionalmente às outras verdades da Escritura. Quando estamos comprometidos com a leitura de todos os livros da Bíblia com nossos filhos, isso irá ocorrer naturalmente.

Quando um pastor está prestes a pregar um livro inteiro da Bíblia que contem partes explícitas (Gênesis, Levítico ou Juízes, por exemplo), seria bom que ele ajudasse a preparar os pais para o que seus filhos irão ouvir. Se um pastor vai pregar em Juízes 19, talvez seja sábio que ele avise os pais de filhos mais novos – não para que os pais deixem de levar seus filhos para o culto nesse dia, mas para que eles se preparem para conversar com seus filhos sobre essas coisas se seus filhos fizerem perguntas depois do culto. Como pastor de uma congregação com muitas crianças pequenas, eu, pessoalmente, não me delongo muito nas partes explícitas de um texto; entretanto, eu não pulo essas partes, pois sou obrigado por Deus a ensinar diligentemente todo o Seu conselho. Ao dar esse “aviso” aos pais a respeito de uma parte intensamente explícita da Escritura, o pastor está realmente ajudando os pais a ensinarem seus filhos em casa.

Sempre há um espectro a respeito de quando – assim como quanto ou quão pouco – nós expomos nossos filhos pequenos ao ensinamento bíblico sobre pecado sexual, violência, etc. Eu tendo para o lado de expô-los pelas razões que já ofereci. Outros, entretanto, se inclinam para o lado de proteger as mentes e corações de seus filhos do que eles consideram uma exposição desnecessária. Eu certamente não estou insistindo que eu já resolvi todo o problema. Há um desconforto inescapável em conversar sobre essas coisas, por causa da vergonha do pecado. Não estou sugerindo que devemos ter uma “Bíblia Infantil Censura 18”, mas estou sugerindo que fazemos um desserviço a nossos filhos se pulamos as partes explícitas da Bíblia na maior parte das histórias que lemos e contamos para elas. Afinal de contas, devemos nos perguntar: “onde está o Noé pelado e bêbado no flanelógrafo da Escola Dominical?”.

Ensinar nossos filhos as partes explícitas, por mais desafiador que seja, é uma parte necessária do processo de santificação deles. Que Deus nos dê sabedoria para o fazer, pelo bem de suas almas.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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