Eutanásia e Assassinato

por G. K. Chesterton

G. K. Chesterton
Escrito por G. K. Chesterton em 1937

Não existe nenhuma lei que proíba um homem de morder seu próprio nariz, fora as leis da natureza; também não há qualquer regulação contra se pendurar pelo cabelo ou pelo bigode com o intuito de conversar com a família ou os amigos em uma situação de grande desconforto. Existem algumas penalidades para o suicídio, e apesar de eu mesmo não ter hábitos suicidas, eu imagino que elas devem ser difíceis de aplicar; obviamente, seria nada mais que um paradoxo jurídico e lógico enforcar um homem para curá-lo do desejo de se enforcar.

A majestosa mente legislativa do homem não se concentra normalmente em proibir coisas que ninguém normalmente gostaria de fazer. Muito provavelmente não haveria qualquer tipo de lei se não houvesse coisas que alguns homens pensam ser natural e até sentem um desejo desenfreado de fazer. O homem proíbe o assassinato precisamente porque existe um grande número de pessoas para quem seria natural, quase necessário, matar. O homem proibiu o roubo porque é tão óbvio que algum tolo poderia pensar que alguma propriedade está nas mãos erradas e que talvez seja melhor estar em suas próprias mãos; algum tolo poderia ver, algum tolo poderia falar, e a lei foi feita porque algum tolo poderia fazê-lo. Há até o Mandamento que proíbe não só cobiçar o jumento do seu próximo, mas até a esposa dele, sobre o qual seria indelicado falar mais, pois todos os tolos já o fizeram.

Sobre isso, a Mente Moderna já passou por dois estágios, e eu não sei qual é o pior; a Mente Moderna é um tanto quanto fraca. No século XIX, generalizando um pouco, todas as pessoas respeitáveis pareciam supor que ninguém seria tentado a matar, roubar ou adulterar, desde que fosse alguém respeitável. Eles pensavam que essas tentações só viriam às remotas tribos de monstros conhecida como a Classe Criminosa. Foi-nos dito solenemente que todo criminoso deve ser um lunático; quando de fato é difícil encontrar um homem saudável ou são que passa mais de 48 horas sem qualquer tentação de cometer algum crime desse tipo.

Então, de repente, a Mente Moderna descobriu isso e (não sendo uma mente muito forte) instantaneamente caiu para o outro extremo. Como a maioria das pessoas moderadamente inteligentes, eu prefiro ler histórias de detetives aos romances modernos; mas mesmo nas histórias de detetives eu percebo essa idéia rudimentar crescendo. Mesmo nas histórias de criminosos existe agora certa compreensão com do crime; essa compreensão é que todos somos criminosos. E agora o problema todo é ir para o lado oposto; muitas histórias recentes de assassinato são, na verdade, justificativas para assassinatos. No momento que um respeitável cavalheiro pensa em querer matar alguém, ele chega à conclusão de que essa pessoa deve ser morta. O fato de que a tia Jane é uma chata, o tio William está ficando cada dia mais insuportável e que o primo Hildebrand está se colocando entre nós e aquela solução para o problema familiar. Cada vez mais coisas começam a se parecer com razões reais para matar. É por isso que, em meu próprio país, alguns estão propondo o que é chamado de Eutanásia; no presente momento, apenas uma proposta de matar aqueles que são um problema para si mesmo; mas logo será aplicada progressivamente àqueles que são um problema para outras pessoas também. Como será, na hipótese, aplicada a pessoas moribundas ou quase totalmente paralisadas, a decisão provavelmente será tomada pelas outras pessoas.

Tudo começou, claro, com o roubo tanto da mulher quando do jumento do próximo; já que a mulher era mais que um jumento. Se quisermos entender como essa liberdade para a exceção arruína ou substitui a regra, o melhor exemplo é o divórcio. Aqueles que primeiro o sugeriram, o fizeram muito honestamente para que fosse uma exceção extrema. Eles só realmente queriam que se aplicasse a alguém casado com um maníaco homicida. E chegou ao ponto em que um homem de Nova York me disse que nenhum homem poderia continuar casado com uma mulher que fala “tudo jóinha?”. Eu penso que ele deveria ter evitado casar com uma mulher que fala “tudo jóinha?” desde o princípio. Chegamos ao ponto em que um homem diz querer se divorciar de uma mulher apenas porque esqueceu o nome dela. Que maravilha será quando a santidade da vida humana alcançar o mesmo estágio que a santidade do casamento alcançou atualmente! Quando homens nem se lembrarem quem foi que mataram, assim como esse homem que não se lembra com quem se casou. Será que não é a hora de reassumirmos o princípio, conhecido dos homens mais antigos,  de que as coisas que desejamos fazer talvez sejam coisas que devemos ser impedidos de fazer; e que porque somos todos criminosos, deveríamos ser desencorajados de cometermos crimes?

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com

Tags: , , , ,

Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.