Guerra Santa (2)

por Eric Davis

(Parte 1)

4. Somos enfraquecidos contra nosso pecado por muitas razões

No livro “O peregrino”, um crente batalhando o seu caminho para o céu, Cristão, enfrenta uma miríade de personagens que simbolizam tentações que encaramos interior e exteriormente. E não falta um: o Obstinado, o Sábio-Segundo-o-Mundo, o Simples, a Preguiça, a Presunção, a Piedade e a multidão na Feira das vaidades, para nomear apenas alguns.

E não é diferente conosco.

A falta de oração, por exemplo, suga nossa força para a batalha. Como Owen disse, “Se não seguirmos em oração, seguiremos em tentação” e “ Quem deseja fugir da tentação deve orar”.

Autossuficiência espiritual e autoconfiança também são destruidores. J.I. Packer observou “A estratégia do pecado é induzir um falso senso de segurança como um prelúdio para um ataque-surpresa”. Como Pedro gabando-se de que nunca negaria Cristo em Mateus 26.33-35, o orgulho precede a queda.

“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Coríntios 10.12).

Nos distanciarmos do envolvimento com a igreja local também pode ser um catalisador para a presença enfraquecedora do pecado. A igreja é a estufa de Deus para nosso crescimento e seu hospital para nossa recuperação. Tome nota: a conduta descuidada para com o envolvimento e vigilância da igreja local é fatal.

Considere, por exemplo, aqueles momentos pós-cirúrgicos no hospital. É fundamental que o paciente seja monitorado por todos os ângulos por um médico no hospital. Tornar-se um cristão não significa entrar para o clube dos heróis morais, mas finalmente marcar a data de uma cirurgia. E não deixamos o hospital de Deus, a igreja local, até a glória. Abandonar a igreja é uma digressão na luta.

Relacionamentos incontestados também geram vias de tentação. Algumas vezes podemos estar mais interessados em uma igreja local ou em relacionamentos que nos inflem e adulem do que nos desafiem e nos impulsionem. Nossa visão acerca de relacionamentos degenerou-se em simplesmente encontrar uma coleção de indivíduos que, em indiferença mútua, dão uns aos outros um passe para a sua mediocridade. E isso tira o foco da guerra santa.

Deixar-se levar por um pecado também dá espaço para uma tentação maior. As vezes, podemos pensar “Bom, se eu ceder a esse pecado, a essa tentação, as coisas vão se acalmar”. Vão se acalmar, mas da mesma forma que um leão se acalma após a comer carne de um búfalo inteiro. O animal vai comer a carne e entrar em um coma de comida. Supomos que, porque o leão se alimentou, tudo vai bem. Mas nós apenas alimentamos e reforçamos a fera, nos assegurando de que ela voltará com mais força e vitalidade. E o que é pior, nos habituamos a alimentar o leão ao invés de deixá-lo com fome. Então, se queremos matar a fera, temos que deixá-la sem alimento.

Owen novamente:

“Que nenhum homem pense que matará o pecado com poucos, fáceis e gentis golpes. Aquele que começa a ferir uma serpente, se não permanece no ataque até o fim, pode ser arrepender de ter sequer começado o combate. Assim é com aquele que subestima o pecado e não o persegue constantemente até a morte”.

“O pecado nunca é menos quieto do que quando ele aparenta estar mais quieto e suas águas são as mais profundas quando elas estão calmas”.

“Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências” (Romanos 13:14).

Além disso, coisas como um arrependimento tardio (Davi avançou de adultério para assassinato, 2 Samuel 11.15), uma doutrina e conhecimento da palavra ruins, prosperidade (espiritual, material, etc.), dificuldades físicas (doenças, privação do sono, fome), pouco consumo das Escrituras (Salmo 119.11) e fracasso ao praticar a palavra podem pavimentar o caminho para maiores tentações.

5. Nossa batalha contra o pecado não terminará até a morte

Essa não é uma questão mórbida, mas real. Você pode ver isso na vida de Paulo. Em todo momento, ele está regozijando-se em Cristo ao mesmo tempo em que luta e lamenta o pecado. Ele caiu lutando.

As vezes, podemos esmorecer na batalha. Mas isso não significa que a batalha não esteja acontecendo, assim como limpar a neve da cidade em Dezembro não significa que não haverá mais necessidade de limpá-la pelo inverno inteiro. Parar de lutar significa simplesmente que o pecado está comandando e me enterrando.

Além disso, não há mandamento nas Escrituras indicando que nós precisamos, em algum momentos das nossas vidas, “deixar a vida nos levar”. A batalha continua até que ela acaba. Por essa razão, nós não oramos “Deus, me tira da luta”, mas “Reaviva-me para e na batalha de forma a nunca deixar o combate até que ele finde”. Não oramos para escapar da luta, mas para não perdermos a batalha. Não oramos para sermos salvos do esforço da batalha, mas para termos forças nela. Precisaremos de força até o final.

Novamente, J. I. Packer diz “Ninguém deixa Romanos 7 nesse mundo”.

Um encorajamento, entretanto:

6. É uma marca de saúde espiritual e humildade o lamentar nosso próprio pecado

Porque nos vemos como realmente somos. E é tão ruim assim, até pior.

No famoso sermão de Cristo, entre outras coisas, ele começa com a benção para aqueles que veem e abominam os seus pecados “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados… Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”. É o tipo de ódio que é bom.

Quando Paulo clamou “Desventurado homem que sou!” (Romanos 7.24), isso não marcava uma regressão na sua fé, mas um progresso. Quando Isaías foi moralmente despedaçado frente à santidade de Deus, chorando “Ai de mim! Estou perdido!”, Deus não interferiu dizendo, “Relaxe, você não é tão ruim assim.” Como Lloyd-Jones disse, “Quanto maior o santo, maior o seu senso de pecado e a consciência do pecado que mora em si”. Crescer é reconhecer.

Então, somos encorajados ao saber que reconhecer e lamentar nosso pecado não é algo falho, mas enriquecedor. Além disso, é algo que não podemos nunca fazer sem a misericórdia convincente do Espírito Santo. Podemos ser encorajados nesses momentos porque é o poder do Deus Todo Poderoso respondendo a nossa falta de santidade. Isso significa que embora haja guerra, tudo vai bem.

Não precisamos nos preocupar muito com o indivíduo que diz “Meu pecado é muito desencorajador. É uma batalha diária. Eu odeio isso”. Essa é uma alma saudável que está posicionada para ver e se alegrar em Cristo de uma maneira renovada.

John Owen entendeu bem isso:

“… as vezes somos levados em afeições destemperadas, imaginações tolas e prazeres que não são bons ou proveitosos… Quando a alma está fazendo… alguma outra coisa.. o pecado começa a atuar no coração… o que leva a muito mal e pecado. Não conheço maior fardo na vida de um crente do que essas surpresas involuntárias… E é sobre essas coisas que o apóstolo faz suas reclamações em Romanos 7.24.”

Nota: considere que Owen sofreu muito em sua vida, tendo enterrado sua primeira esposa e muitos filhos enquanto também passava pelo caos da perseguição civil aos puritanos. Ainda assim, ele não conhecia “maior fardo” do que as surpresas do pecado interior.

É uma marca de saúde espiritual e humildade o lamentar-se em seu próprio pecado.

7. Não importa o quanto lutamos ou se falhamos: permanecemos filhos de Deus baseados na morte de Cristo em nosso lugar

Essas são boas notícias. Apesar dos socos recebidos de nosso pecado, estamos fixados na família de Deus. Nosso desempenho na guerra santa não é o que nos mantém justos perante Cristo. A força com que lutamos não é a base para nossa permanente não-condenação perante um Deus Santo.

Deus derramou toda a sua ira justa em Cristo para poder derramar toda sua misericórdia em nós. Nossa fé nele sela o acordo. Nenhuma condenação. Nossa certeza na batalha é que Cristo já ganhou.

Quando estamos fartos na nossa luta contra o pecado; quando caímos; quando falhamos; quando pensamos que desistiremos, a cruz nos declara que ainda assim nós permanecemos perante um Deus satisfeito.

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Traduzido por Kimberly Anastacio | Reforma21.org | Original aqui

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