Invertendo o Evangelho: Warfield sobre Raça e Racismo (1)

por Fred G. Zaspel

Fred G. Zaspel é pastor da Igreja Batista Reformada de Franconia, Pensilvânia, professor adjunto de teologia no Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky, e editor executivo da Books at a Glance

RESUMO:
O gigante da Velha Princeton, Benjamin Breckinridge Warfield, condenou explicitamente o racismo e a rígida segregação da sociedade americana de sua época. Seus pontos de vista estiveram notavelmente à frente de seu tempo em relação à compreensão do mal do racismo e até um pouco profético em relação ao mal adicional que resultaria dele. Suas convicções foram explicitamente fundamentadas em uma compreensão e aplicação fiel da unidade da raça humana em Adão e da unidade e igualdade dos crentes em Cristo. Este breve estudo analisa os argumentos de Warfield dentro do contexto de seus dias.

“Nós reverteríamos hoje a declaração inspirada de que em Cristo Jesus não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre?” (B. B. Warfield, 1887)

Benjamin Breckinridge Warfield (1851–1921) da Velha Princeton ganhou reputação internacional como o vigoroso defensor da histórica fé cristã – particularmente em sua expressão reformada – e foi nas categorias tradicionais de estudos bíblicos e teológicos que as suas energias editoriais foram quase que exclusivamente gastas. Causas sociais surgem muito raramente em suas obras, mas uma causa social se destaca como uma que mantém seu interesse particular: a causa dos negros americanos. Sua produção literária aqui não foi extensa, com certeza, mas foi apontada, revelando um profundo senso de urgência sobre o assunto. E embora Warfield raramente se envolvesse em qualquer esforço organizado fora do seminário, essa era a exceção – mesmo que a posição que ele assumiu tenha sido impopular (para dizer o mínimo!), tanto na sociedade quanto na igreja, e mesmo em seu próprio Seminário de Princeton. Para Warfield, a sociedade de “castas perversas” que os Estados Unidos então constituíam era um mal moral e teológico que, se não fosse revertido, traria apenas mais danos à nossa nação.

O fundamento teológico da oposição de Warfield ao racismo era duplo: 1) a unidade da raça humana criada em Adão à imagem de Deus, e 2) as implicações unificadoras do evangelho de Cristo. Em 1911, Warfield argumentou em “Sobre a Antiguidade e a Unidade da Raça Humana”,[1] que a idade da humanidade não é uma questão bíblica. A Bíblia não fala sobre o assunto, argumentou ele, e, portanto, não é uma questão de interesse teológico. Podemos nos interessar pela idade da humanidade por razões científicas, mas não por motivos bíblicos. No entanto, a unidade da raça humana, pelo contrário, é de fato uma questão teológica muito importante.

A unidade da humanidade era, de fato, comumente reconhecida por todos os lados nos dias de Warfield. A evolução havia removido o motivo para se negar uma origem comum à humanidade e “tornou natural considerar as diferenças que existem entre os vários tipos de homens como diferenciações de uma ação comum.”[2] Ele observa que no passado havia várias teorias opostas, tais como o co-adamismo e o pré-adamismo. Também nota que alguns dos primeiros evolucionistas sugeriram múltiplos tempos e lugares da origem humana. O orgulho racial continuou a existir, com certeza, mas teoricamente todos os lados reconheceram uma unidade para toda a humanidade que é evidente tanto física como psicologicamente (fala, tradições comuns, etc.). Vários fatores foram empregados na explicação dessa unidade, mas o fato de haver uma humanidade comum já não exigia defesa.

A importância da unidade da humanidade, para Warfield, dificilmente poderia ser supervalorizada, tanto bíblica quanto teologicamente. A ideia é construída na própria estrutura do relato de Gênesis sobre a origem do homem: Deus criou um único casal a partir do qual descendeu toda a raça (Gn 1:26). Eva foi assim chamada “por ser a mãe de todos os seres humanos” (Gn 3:20). O próprio Adão é assim chamado (“homem”) por ser o primeiro dessa espécie; Warfield observa e nos aponta isso de acordo com as expressões bíblicas “filhos de Adão” ou “homem” como reflexo dessa espécie. Além disso, no dilúvio, toda a humanidade, exceto oito, foi destruída, e a humanidade recomeça, via Sem, Cam e Jafé, com Noé como pai comum, e dos filhos de Noé “foram disseminadas todas as nações na terra” (Gn 10:32) As diferenciações dos povos, nos lembra Warfield, são o resultado da rebelião e da dispersão que segue a torre de Babel (Gn 11). “O que Deus ajuntou os próprios homens separaram.” Ao longo das Escrituras, toda a humanidade é tratada como uma unidade, compartilhando “não apenas uma natureza comum, mas uma pecaminosidade comum, não apenas uma necessidade comum, mas uma redenção comum.”[3] Toda a estrutura do ensino bíblico a respeito do pecado e da salvação, Warfield insiste, é construída com base na nossa unidade comum em Adão. A Israel foi dado o privilégio, certamente, mas isso não se deu por causa deles mesmos; o privilégio deles era apenas por causa da misericórdia divina. E nas provisões da lei aos escravos, Israel foi lembrado de sua humanidade comum. Na verdade, o status privilegiado de Israel foi concebido de tal maneira que, através deles, a misericórdia se estenderia a toda a humanidade.

Warfield rapidamente examina a evidência bíblica, mas de forma abrangente. Ele observa, sobretudo, que Jesus afirmou a origem da humanidade em um único casal (Mt 19:4). E ele cita o pronunciamento claro do apóstolo Paulo sobre o assunto em Atos 17:26. A unidade da humanidade é tão óbvia nas Escrituras que dificilmente requer defesa: “todo o Novo Testamento é compreendido com a irmandade do homem sendo única na origem, na natureza, na necessidade e na provisão de redenção.”[4]

A realidade do pecado racial é basilar para todo o sistema paulino (Rm 5:12; 1Co 15:21), e sob essa realidade, existe a realidade da unidade racial. Isso só existe porque todos os homens estavam em Adão, sendo ele o primeiro cabeça de quem todos os homens compartilham o pecado e sua punição. E somente por que o pecado do homem é de origem e, portanto, de mesma natureza e qualidade, é que a redenção, que é adequada e pode ser disponibilizada para um homem, é igualmente adequada e pode ser disponibilizada para todos. Por ser a raça uma só, bem como a sua necessidade, sendo judeus e gentios iguais sob o pecado, é que não há diferença entre judeus e gentios também em matéria de salvação, mas como o mesmo Deus é Senhor de todos, então Ele é favorável em Cristo Jesus a todos os que o invocam, e justificá a incircuncisão somente pela fé, assim como Ele justifica a circuncisão somente pela fé (Rm 9:22-24, 28; 10:12). Jesus Cristo, portanto, como o último Adão, é o Salvador não somente dos judeus, mas do mundo (João 4:42; 1Tm 4:10; 1João 4:14), tendo sido entregue à Sua grande obra somente pelo amor do Pai pelo mundo (João 3:16). A unidade da raça humana é, portanto, estabelecida na Escritura não apenas como base de uma exigência de que devemos reconhecer a dignidade da humanidade em todos os seus representantes, por menores que sejam os bens ou a família, pois todos carregam a mesma imagem de Deus em semelhança da qual o homem foi criado, sendo esta mais profunda do que o pecado, não podendo ser vencida por ele (Gn 5:3; 9:6; 1Co 11:7; Hb 2:5); mas também como base de todo o plano de restauração concebido pelo amor divino para salvação de uma raça perdida.[5]

A unidade da raça humana em Adão não é apenas biblicamente evidente, insistiu Warfield – é de importância central para a teologia cristã e para o próprio cristianismo. Além disso, o reconhecimento de nossa humanidade comum é acompanhado de uma obrigação ética correspondente. Warfield escreve:

A unidade da raça humana é, portanto, estabelecida na Escritura não apenas como base de uma exigência de que devemos reconhecer a dignidade da humanidade em todos os seus representantes, por menores que sejam os bens ou a família, pois todos carregam a mesma imagem de Deus em semelhança da qual o homem foi criado, sendo esta mais profunda do que o pecado, não podendo ser vencida por ele (Gn 5:3; 9:6; 1Co 11:7; Hb 2:5); mas também como base de todo o plano de restauração concebido pelo amor divino para salvação de uma raça perdida.[6]

Isso quer dizer que nossa compreensão da unidade essencial da humanidade em Adão carrega um significado moral; não é uma questão de interesse teológico meramente abstrato. Warfield tampouco deixou essa questão para uma mera discussão teológica e, em sua condenação do orgulho racial, esteve gerações à frente de seu tempo.

Os pais de Warfield vieram ambos de famílias de abolicionistas declarados e com importantes conexões com a causa da emancipação. Em uma carta ele até parece se gabar disso: John Clarke Young, o desenhista das resoluções do Sínodo de Kentucky de 1835, era o marido da prima da minha mãe. Meu avô R. J. Breckinridge concorreu a uma legislatura por uma chapa pró-emancipação em 1849 – com risco de vida. Cassius M. Clay era o marido da prima do meu pai. Minha sogra era uma abolicionista do tipo William Lloyd Garrison. Meus avós, meus pais e os pais de minha esposa procuraram de todas as formas cumprir seus deveres para com aqueles a quem se sentiam haver pecado por manter em cativeiro.[7]

Ironicamente, a família de Warfield e as famílias dos seus avós todos possuíam escravos – mesmo que, aparentemente, com a consciência pesada. Contudo (correta ou erroneamente), eles consideravam os escravos insuficientemente preparados para a vida lá fora, e os escravos foram visivelmente bem tratados, respeitosa e generosamente pela vontade da família.[8]

No entanto, a sociedade pós-guerra civil – mesmo pós-reconstrução – ainda estava profundamente segregada, mesmo que os escravos tivessem sido libertados. O antagonismo racial não desapareceu e, nessa sociedade decididamente segregada, os negros tiveram pouco espaço para o progresso pessoal ou social. O sofrimento dos libertos e de seus filhos, como Warfield o apresenta – como “praticamente subordinados e não cidadãos, camponeses em vez de libertos”[9], mesmo que sete milhões das cinquenta milhões de almas nos EUA [10], é preocupante e reveladora. A “casta perversa” não estava exagerando, insistiu Warfield, e quando ele assumiu essa causa, deve ter parecido uma voz praticamente única.

Em 1885, Warfield tornou-se membro do Conselho Presbiteriano de Missões para Libertos e trabalhou por sua melhoria. Como mencionado acima, Warfield não foi dado ao ativismo social, e não estava disposto a servir em comitês. Todavia, essa foi a exceção, e sua paixão pela causa é notória.

Em 1887 e 1888 ele publicou artigos condenando a situação e pedindo aos cristãos que considerassem mais seriamente a doutrina que professavam crer. No artigo “Uma Calma Perspectiva do Condição do Liberto” (1887), ele argumentou que a “elevação e civilização” dos negros era “a maior obra ante o povo americano hoje”, e que “o terrível legado do mal que gerações de escravidão deixaram aos nossos libertos é pouco apreciado por qualquer um de nós.”[11] Ele reconhece que remediar o problema é mais fácil falar do que fazer, mas ele contesta aqueles que acham que fizeram tudo o que podiam, e ele prevê apenas um futuro muito difícil para os libertos. O potencial individual entre os libertos era, sem dúvida, perceptível a todos, mas com tantos obstáculos a perspectiva parecia desanimadora.

(continua semana que vem na parte 2)

[1] Benjamin B. Warfield, Studies in Theology: The Works of Benjamin B. Warfield, vol. 9 (Grand Rapids: Baker, 1991), 235–58.
[2] Ibid., 9:252.
[3] Ibid., 9:256.
[4] Ibid., 9:257.
[5] Ibid., 9:257–58.
[6] Ibid., 9:258.
[7] B. B. Warfield, Letter to Joseph William Torrence, 7 January, 1887 (Princeton Theological Seminary Archives, Warfield Papers, box 17). Bradley Gundlach provides the most complete background for this generally available. See his “‘Wicked Caste’: Warfield, Biblical Authority, and Jim Crow,” in Gary L. W. Johnson, ed., B. B. Warfield: Essays on His Life and Thought (Philipsburg, NJ: P&R Publishing, 2007), ch. 6, esp. pp. 139–47. See also James H. Moorhead, Princeton Seminary in American Religion and Culture (Grand Rapids: Eerdmans, 2012), 252–55.
[8] There is, however, a story from the Warfield family of Robert Jefferson Breckinridge who, upon turning age 16, beat up an older family slave—to prove his manhood, it seems—an offense for which he received due punishment. In fairness, it should also be pointed out that as an older man Breckinridge championed emancipation.
[9] B. B. Warfield, Benjamin B. Warfield: Selected Shorter Writings, ed. John E. Meeter, 2 vols. (Philipsburg, NJ: P&R Publishing, 2001), 2:743.
[10] Ibid., 2:735.
[11] Ibid., 2:735.

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Traduzido por Cleber Filomeno | Reforma21.org | Original aqui

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