Invertendo o Evangelho: Warfield sobre Raça e Racismo (2)

por Fred G. Zaspel

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Quanto à escravidão em si, Warfield a caracteriza como “o mais poderoso dos desmoralizadores”, tendo vetado ao escravo uma vontade própria. É uma “maldição” que “come até as raízes de toda a vida”, um “sistema falso e pervertido”[12] que tem apenas um efeito desmoralizador sobre aqueles que um dia foram cativos. Em 1887 (ano do artigo de Warfield), a sociedade na qual os filhos dos escravos libertos foram criados, agora sem as restrições artificiais impostas pela escravidão, teve um efeito ainda mais desmoralizante e até mesmo imoralizante.[13] A observação de Moorhead é útil: “Como a maioria dos brancos, Warfield presumiu que os afro-americanos haviam experimentado uma decadência moral desde a emancipação. No entanto, ao contrário de muitos outros, ele não atribuiu esse fato a algum defeito moral nos próprio afro-americanos.”[14] A sociedade branca era em grande parte culpada, e Warfield argumenta:

Que pressão podemos aplicar a essas almas errantes para atraí-las para as influências formativas de uma verdadeira e sólida moralidade? O motivo mais forte com a maioria dos homens é a esperança de ascensão. O imigrante mais degradado que chega às nossas margens está sob esse feitiço: a atração da esperança dança sempre diante de seus olhos. Ainda assim, acima dele podem estar outros, ele porém tem que erguer os olhos para ver que o caminho plano corre de seus pés para os dos outros, e que é apenas uma questão de saber se ele está disposto a subir esse caminho – se ele vai ou não estar ao lado dos outros amanhã. Se ele não tem ambição para si mesmo, ele tem para seus filhos; e é raro, na verdade, que as influências civilizadoras dessa única esperança não sejam a excitação suficiente para se esforçar, respeitar a si mesmo e crescer. Mas isso se perdeu para o africano. A classe a qual ele pertence por nascimento é a classe com a qual ele deve fazer sua casa até que a morte o liberte. Ele carrega uma marca em sua testa que fecha todas as avenidas de avanço diante dele, e o desânimo de seu coração, que o torna imprudente da opinião pública quanto a seus atos, é apenas a resposta interior ao fato aparente de que, tornar-se o que ele individualmente pode, ele não pode subir nas classes acima dele. É provavelmente impossível para qualquer um de nós perceber o fardo mortífero dessa falta de esperança. A escravidão prende as asas de todos os espíritos elevados e faz com que suas ambições voltem para remorder a língua em um sofrimento vazio. No entanto, uma avaliação adequada da escravidão é uma das condições para a compreensão da gravidade do problema que está diante de nós, em nossos esforços para educar e elevar os negros a ocupar o lugar que lhes é devido em nossa civilização cristã.[15]

O analfabetismo entre os negros estava aumentando, o que era apenas mais desmoralizante. Eles foram “libertos”, mas deixados praticamente sem esperança, “paralisados” em uma sociedade de “castas perversas”. Warfield usou esse termo conscientemente, insistindo que fosse no mínimo assim chamado: não se pode negar que era, de fato, uma sociedade de castas, e que essa sociedade de castas era obviamente perversa para qualquer um que visse. E assim Warfield pressionou a responsabilidade da sociedade – e especialmente dos cristãos – em ajudar os libertos e seus filhos em sua causa, e ajudá-los em elevar-se a todo o seu potencial na sociedade.

Nunca é demais enfatizar que não é ele quem se sente persuadido de que o negro foi feito um pouco menor que o homem, quem está graciosamente disposto a treiná-lo para a aptidão para tal posição, e quem pode educá-lo em verdade e masculinidade autocentrada. É só ele quem está completamente persuadido de que Deus fez de um só sangue todas as nações da terra, quem tem o espírito missionário, ou quem pode servir como a mão do Altíssimo para elevar os humildes e resgatar os oprimidos.[16]

Warfield critica a sociedade de castas do norte e do sul. Ele relata a história de uma mulher negra que ele conhecia que foi assistir a uma reunião de reavivamento em uma igreja. Quando ela chegou, os anciãos da igreja pediram que ela fosse embora. Ele relata outra história de episcopais se gabando de terem se saído bem em relação às relações raciais em sua igreja, afirmando alegremente que os negros tinham permissão de comparecer aos seus cultos: “lugares foram reservados para eles em todas as igrejas”. Warfield lamenta que, em praticamente todo canto da sociedade, eles eram instruídos a saber qual era o “lugar deles”. Mesmo na congregação dos santos, o lugar deles não era no meio dos filhos de Deus, mas separados de lado. A tudo isso, Warfield exclama abruptamente: “Estamos hoje invertendo a declaração inspirada de que em Cristo Jesus não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre?”[17] Esse tipo de tratamento contínuo destrói a esperança, paralisa o esforços, e corta todo o incentivo ao crescimento próprio. À luz de tudo isso, Warfield pede aos cristãos que forneçam a ajuda necessária em todos os níveis:

Se é preciso uma verdadeira moralização dos negros, isso só pode ser assegurado por um ensino moral cuidadoso, tal como pode ser fornecido apenas por organizações religiosas que irão educar assim como pregar. Um treinamento secular fará um bem insignificante; a pregação ocasional do evangelho não será profunda o suficiente. Nós precisamos ter escolas cristãs em todos os lugares, onde o cristianismo como um sistema revelado de verdade e prática seja diariamente ensinado por homens e mulheres cujos corações estejam cheios de fervor missionário – que encontram em toda criatura de Deus a promessa e a força de uma vida melhor.[18]

Em 1888, Warfield começa o “Drawing the Color Line” [Delimitando a Fronteira da Cor] com uma referência a dois artigos de jornais que afirmavam que as relações raciais haviam melhorado muito, o que era uma afirmação que Warfield achou espantosa. Em vez disso, Warfield alega que “a emancipação aboliu apenas a submissão privada mas não a pública” e “tornou o ex-escravo não um homem livre, mas apenas um negro livre”.[19] Então, em palavras que parecem proféticas, escreveu:

As populações negras que, como uma classe, emergiram da escravidão sem nenhum senso de injustiça para reclamar, mas sim com uma intensa apreciação das gentilezas que haviam recebido de seus mestres, e com uma verdadeira gratidão pela elevação que receberam em suas mão através de uma ou duas gerações que os separavam da vaga lembrança da África selvagem, foram gradativamente se tornando, sob a irritação de grandes e pequenas injustiças repetidas continuamente, cada vez mais compactadas em uma massa tenebrosa de murmúrio descontente, a qual assegura seu desenvolvimento para um verdadeiro antagonismo racial também no lado deles.[20]

Warfield previu que o desprezível tratamento dos negros naquela sociedade de castas criaria em troca apenas ressentimento e ódio. Os levantes sociais e os distúrbios raciais que os EUA testemunhariam apenas décadas depois não teriam surpreendido Warfield – ele previu isso.

Warfield recita as ações das denominações episcopais e presbiterianas em relação à “linha da cor” e observa que não havia pastores negros de congregações de brancos e que existiam muitas igrejas separadas para os negros. A profundidade de suas convicções aqui é revelada em seus comentários relacionados à reunião proposta com os presbiterianos do sul. Reunir-se com os presbiterianos do sul – com seus luminares como Robert Louis Dabney – foi um movimento que Warfield teria preferido, mas não se isso significasse tolerar a contínua segregação que era “praticamente universal” no corpo do sul.[21]

Pode a história incorporada em tais exemplos ser perdida? Os homens cristãos, sob a pressão de sua antipatia racial, abandonam a lei fundamental da Igreja do Deus vivo, de que em Cristo Jesus não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre.[22]

Na carta mencionada acima, para Joseph William Torrence, Warfield fala com mais clareza: “que [a Igreja do Sul] não está acordada com seu dever para com os liberto e que a união orgânica com ela prejudicaria se não destruiria nosso trabalho entre eles. Oremos contra a reunião deles em qualquer futuro próximo.[23]

Mais uma vez, as convicções de Warfield sobre esse assunto tinham uma base teológica dupla: 1) a unidade da humanidade em Adão, criada à imagem de Deus, e 2) as vinculações niveladoras do evangelho. Sua posição pode ter sido impopular, mas estava firmemente fundamentada. E para ele havia apenas uma opção: o sistema de castas e o próprio “espírito de casta” deviam ser totalmente repudiados por todos. Nenhum tipo de racismo é uma opção cristã, e não há espaço cristão para tolerá-lo em qualquer nível.

[12] Ibid., 2:736–37.
[13] Ibid., 2:737–40.
[14] Moorhead, Princeton Seminary, 253.
[15] Selected Shorter Writings, 2:738–39.
[16] Ibid., 2:740.
[17] Ibid., 2:739–41.
[18] Ibid., 2:742.
[19] Ibid., 2:744.
[20] Ibid., 2:744.
[21] Ibid., 2:740, 746–48.
[22] Ibid., 2:748.
[23] Cf. Gundlach, “Wicked Caste,” 163–65; Moorhead, Princeton Seminary, 253–55.

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Traduzido por Cleber Filomeno | Reforma21.org | Original aqui

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