Invertendo o Evangelho: Warfield sobre Raça e Racismo (3)

por Fred G. Zaspel

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Previsivelmente, os comentários publicados por Warfield atraíram oposição. Encontramos isso em sua correspondência, como a carta de Torrence já citada sugere. Outro ministro responde com receios do que aconteceria se o conselho de Warfield fosse seguido: igualdade dos pastores negros e brancos, pastores negros em posições de liderança denominacional, respeito igual ao das mulheres negras e brancas, e – o mais impensável de todos – casamento inter-racial. Certamente Warfield simplesmente não pensara nas implicações de sua posição!
Em sua resposta, Warfield, tipicamente, se volta para as Escrituras – neste caso, Tg 2:1-13, Ef 3:1 e 1Tm 3:15 – e escreve com uma exortação correspondente:

Tudo isso não é uma preocupação sua e minha. Pois, pelo fato de a Igreja ser o pilar e a base da Verdade pela qual o mundo deve ser salvo, o Senhor não deixou de nos aconselhar, mas nos deu instruções sobre como devemos nos comportar na Igreja do Deus vivo… Não posso deixar de acreditar que não há caminho tão sábio, bom e leal tal como simplesmente permitir que Deus ordene a sua própria casa a seu próprio modo e que alegremente nos escolha para estar ao seu lado. Tenhamos cuidado para que, ao organizarmos as coisas para nós mesmos e ao ajustarmos nossos preconceitos pessoais, não construamos de fato um reino, mas um reino que não é para Deus ou de Deus e abençoado por Ele. [24]

A mensagem contundente de Warfield era clara: não devemos fingir ser mais sábios que Deus. Se estas preocupações que você expressou não são preocupações de Deus, então elas não devem ser nossas.
Em 1907, Warfield publicou seu apelo em um poema intitulado “Procurado – Um Samaritano”. Aqui ele aplica a parábola do bom samaritano às sensibilidades e comportamentos contemporâneos. A aplicação – a moral da história, podemos dizer – é reservada para a última linha, mas a pancada é contundente:

Deitado na estrada ele estava
Ferido e dolorido:
Sacerdotes, levitas, por aquele caminho passavam
E viraram a cabeça de lado.

Não eram homens rígidos
Na negligência do serviço humano:
Sua necessidade era grande: mas então,
Veja, seu rosto, era preto.
[25]

Em 1913, enquanto Warfield atuava como presidente do seminário, ele agia administrativamente de acordo com essas convicções. O corpo docente sustentou que brancos e negros deveriam permanecer socialmente separados, e Machen, o colega mais novo de Warfield na época, reclamou em carta à sua mãe que Warfield unilateralmente rejeitara o protesto e permitiu que um estudante negro morasse no dormitório de estudantes em Alexander Hall.[26] Warfield praticou o que pregou.

Em uma revisão de 1918 da Enciclopédia da Religião e Ética de James Hastings,[27] Warfield discorda de um artigo sobre “Negros nos Estados Unidos”, de William O. Carver, do Seminário Teológico Batista do Sul. Warfield caracteriza o artigo de Carver como apoiando entusiasticamente uma América permanentemente segregada – “duas raças, separadas uma da outra por barreiras sociais intransponíveis, cada uma possuindo uma consciência racial cada vez mais intensificada e seguindo, sem se importar com a outra, seus próprios ideais raciais”.[28]

Warfield contesta, e argumenta em vez de uma posição integracionista:

Esse [ponto de vista de Carver expresso no artigo da enciclopédia] considera o negro como (de acordo com uma teoria atual da natureza do crescimento do câncer, para todos os efeitos) apenas um câncer permanente no corpo político. Podemos suspeitar que não é um sentimento inexplicável de repulsa racial que impele o Dr. Carver a repelir com uma decisão precisa a previsão de que a fusão das raças deve ser a questão final. Com a imigração branca contínua e a alta taxa de mortalidade dos negros contribuindo com a diminuição progressiva da proporção da população negra para o branco, não é natural se esperar por sua absorção final? Ou seja, em meio milênio ou menos? Esse não é, no entanto, nosso problema: para nós e nossos filhos e nossos netos, as duas raças em diferenciação bem marcada formarão elementos desproporcionais no mesmo Estado. O que claramente temos que fazer é aprender a viver juntos em solidariedade, respeito e auxílio, e trabalhar juntos para a realização de nossos ideais nacionais e a conquista do objetivo de uma civilização verdadeiramente cristã.[29]

Mais uma vez, Warfield pede o fim da segregação.

Carver concluiu seu artigo com um chamado a viver juntos em busca de objetivos comuns, e por isso Warfield faz um comentário mais favorável: “É com isso que o Dr. Carver nos exorta corretamente em suas palavras finais. Com efeito, é uma exortação à consolidação política e social, – se não ainda racial. Afinal, estamos todos, para o melhor e para o pior, atados no mesmo feixe de vida.”[30]
Em nenhum lugar Warfield expõe longamente suas convicções quanto ao racismo. Contudo, suas várias referências à questão são explícitas e pungentes. Ele critica a segregação em qualquer nível, na sociedade em geral e especialmente na igreja. O orgulho racial é uma negação de nossa unidade em Adão e de nossa criação compartilhada à imagem de Deus. E o orgulho racial na igreja implica um mal adicional – uma negação de nossa unidade e estado compartilhado em Cristo; Para Warfield, isso constitui uma negação do evangelho e é motivo de separação eclesiástica.

É impossível medir a influência que Warfield pode ter ou não em relação às atitudes raciais, mas não temos evidências de que sua voz tenha sido amplamente ouvida. Alguns podem argumentar que encontramos, mesmo nos traços de Warfield, sentimentos paternalistas que ainda o prendiam aos seus dias. Mesmo assim, as condenações de Warfield estavam à frente de seu tempo. Ele era um corretivo necessário para o seu dia, cuja voz certamente não foi ouvida o suficiente. Ele serve como um guia para nós ainda hoje. Ele condena o racismo nos dois níveis mais fundamentais – criação e redenção – e insiste que nós permitamos que as implicações desses ensinamentos bíblicos funcionem em vias de uma sociedade e de uma igreja completamente integrada, com igualdade de direitos e privilégios a todos.

A sociedade de “castas perversas” que Warfield deplora não é, felizmente, a América de hoje. A escravidão está no passado, assim como a reconstrução e as leis de Jim Crow. Mas tudo deixou uma cicatriz de racismo que permanece. Poucos argumentariam que conseguimos, como atestam os recentes acontecimentos nos EUA. Preconceito e ressentimento permanecem. No entanto, o caminho a seguir é simples, só se o orgulho não estivesse no caminho: uma vez que reconhecemos nossa unidade em Adão (e em Noé!), criados à imagem de Deus, e uma vez que reconhecemos as necessárias vinculações do evangelho pelo qual estamos unidos uns aos outros em nosso Redentor, resta apenas submeter nossas mentes, nossas decisões, nossas atitudes e nosso comportamento em acordo mútuo.

[24] B. B. Warfield, Letter to R. M. Carson, 3 March 1887 (Princeton Theological Seminary Archives, Warfield Papers, box 17). See Gundlach, “Wicked Caste,” 157.
[25] “Wanted–A Samaritan,” in The Independent LXII (31 January 1907), 251; republished in B. B. Warfield, Four Hymns and Some Religious Verses (Philadelphia: Westminster Press, 1910), 11. See David B. Calhoun, Princeton Seminary, vol. 2: The Majestic Testimony 1869–1929 (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1996), 326, 505.
[26] Calhoun, Princeton Seminary, 505.
[27] B. B. Warfield, review of Encyclopedia of Religion and Ethics by James Hastings, PTR 16 (1918): 110–15.
[28] Ibid., 114–15.
[29] Ibid., 115.
[30] Ibid.

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Traduzido por Cleber Filomeno | Reforma21.org | Original aqui

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