Jesus e o luto

por D.G. Hart

Não há nada como a morte de um familiar em uma congregação para trazer alguma perspectiva ao resultado de uma eleição presidencial. Enquanto muitos americanos estavam chorando, lamentando e fumegando por causa da eleição do candidato do Partido Republicano, a providência exigiu que alguns cristãos chorassem a morte de um membro da igreja. Embora as emoções experimentadas e expressas nas reações à corrida presidencial fossem muito mais perceptíveis que o quieto e sóbrio sofrimento que os parentes e membros da igreja exibiram no funeral e no enterro, a profundidade do luto era provavelmente proporcional à sonoridade ou intensidade emocional do sofredor. A razão poderia ser que os crentes entendem que raiva ou histeria motivada pela morte, não importa o quão repentina, é inapropriada para aqueles cuja esperança da salvação se baseia na morte do Filho unigênito de Deus. Contemplar a morte é essencial para a devoção cristã.

Ter uma perspectiva saudável do significado da morte, entretanto, não é o mesmo que encontrar as palavras certas para dizer a um companheiro cristão que perdeu um familiar. Seja no caso de um cônjuge mais velho ou da morte de um filho jovem, expressar empatia e consolo pode ser um dos aspectos mais desafiadores da comunhão cristã. Parte da razão é que nenhuma experiência é igual, o que é um truísmo que presume profundidade ao procurar a maneira certa de compadecer-se daqueles que perderam um ente querido. Assim como dois cônjuges casados por três décadas e que se conhecem bem podem reagir de maneira diferente a um livro escrito por um de seus autores preferidos, a experiência da morte de um amigo ou filho provavelmente provocará reações diversas que têm a ver com o relacionamento singular que cada cônjuge tinha com o falecido e a fase da vida de cada um, para não mencionar a experiência anterior de cada um com a morte. Ninguém em uma congregação, não importa quão próximo do enlutado, está equipado com a sensibilidade e o conhecimento para dizer “as palavras certas”. Na verdade, a busca pela coisa certa a se dizer pode levar, se a ponderação demorar demais, ao “medo do palco”. Você não diz nada, apenas abraça.

É aqui que a Escritura pode ser útil, não apenas por seu consolo de que a morte não tem a palavra final, mas também por sua própria brevidade sobre o luto dos santos. Em duas ocasiões, pelo menos, Jesus ouviu notícias perturbadoras sobre as mortes de pessoas próximas a ele. Indiscutivelmente, o mais conhecido é o relato de Jesus ressuscitando seu amigo Lázaro. Mas, antes desse ato miraculoso, o evangelho de João inclui o verso mais curto de toda a Escritura, que conclui com uma descrição do próprio luto de Cristo:

Tendo, pois, Maria chegado aonde Jesus estava, e vendo-o, lançou-se aos seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê. Jesus chorou. (João 11.32-35)

Outro exemplo notável da reação de Jesus à morte vem da narrativa de Mateus sobre a execução de João Batista:

E [Herodes] mandou degolar João no cárcere. E a sua cabeça foi trazida num prato, e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. E chegaram os seus discípulos, e levaram o corpo, e o sepultaram; e foram anunciá-lo a Jesus. E Jesus, ouvindo isto, retirou-se dali num barco, para um lugar deserto, apartado. (Mt 14.10–13a)

Nos dois casos, vemos uma descrição contida de emoção profunda. A Bíblia reconhece o luto de Jesus mas não explica ou avalia sua experiência de perda. Os leitores sentem que é genuíno, que Jesus experimentou uma perda real e tinha empatia pelos enlutados. Não é realmente uma surpresa, pois o autor de Hebreus afirma que em Cristo todos os crentes têm um sumo-sacerdote capaz de simpatizar com as fraquezas de seu povo. Não somente Cristo foi tentado a pecar, como também experimentou o tipo de perda que leva alguns a questionar o amor e a bondade de Deus.

Que maneira melhor de confortar aqueles que lamentam que ressuscitar o falecido? Evidentemente, os cristãos precisam encorajar os seus companheiros crentes a aguardar e ansiar pelo dia em que os mortos em Cristo serão ressuscitados. Até lá, saber que a Bíblia revela um Salvador que lamentou a morte, mas não disse muito pode ser um encorajamento quando lamentamos com aqueles que choram, mas nos faltam palavras.

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Traduzido por Josaías Jr | Reforma21.org | Original aqui

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