João Calvino – Um coração pronto e sincero

por Filipe Schulz

João Calvino
João Calvino - amor à Devoção, Doutrina e Glória de Deus

Há poucos dias, mais exatamente em 31 de Outubro, comemoramos o aniversário de 493 anos da Reforma Protestante. Para quem se interessa por um pouco de história, é importante conhecer os homens que estiveram por trás desse acontecimento. O último lançamento da Editora Fiel, João Calvino – amor à Devoção, Doutrina e Glória de Deus, ajuda bastante nesse sentido. Mais que uma biografia, o livro é uma introdução à teologia e, principalmente, à vida de João Calvino, considerado o maior dos Reformadores, ao lado de Martinho Lutero.

Se ler sobre a Reforma (e os reformadores) tem o seu valor histórico, conhecer essas doutrinas também é olhar para o futuro. Em um já famoso artigo, a revista americana Time listou o “Novo Calvinismo” ou “Neocalvinismo”, como uma das dez idéias que estão mudando o mundo, entre outras como o uso da ciência genética para prolongar a vida humana e a consciência ecológica. Não como um movimento de contestação, mas de reafirmação, o novo calvinismo é marcado simplesmente pelo ressurgimento do interesse de estudar as doutrinas da Reforma.

Nas palavras de Thabiti Anyabwile, “eu receio que a imagem mental que muitos de nós carregamos quando pensamos na Reforma Protestante é de velhos anciãos com longas barbas brancas, curvados sobre pilhas de antigos pergaminhos, lendo e escrevendo à luz de velas, preocupados apenas com as mais restritas das questões”. Ao lado de nomes conhecidos como John MacArthur e John Piper, pastores mais jovens como Mark Driscoll e Joshua Harris têm mostrado que isso está longe da verdade e que as chamadas Doutrinas da Graça podem ser acessíveis e ensinadas à geração da Internet como verdades fundamentais e de aplicação prática na vida do cristão. Levando todo esse cenário em consideração, nada mais apropriado que ler um livro que faz justamente isso: ressalta, para os dias de hoje, a relevância de Calvino e de suas doutrinas.

João Calvino
João Calvino

Editado e organizado por Burk Parsons, o livro é dividido em capítulos curtos escritos por um seleto grupo de pastores e teólogos: o próprio Burk Parsons, Iain Murray, Derek Thomas, Sincalir Ferguson, D. G. Hart, H. L. Reeder, Steven Lawson, Robert Godfrey, Philip Johnson, Eric Alexander, Thabiti Anyabwile, John MacArthur, Richard Philips, Thomas Ascol, Keith Mathison, Jay Adams, Philip Ryken, Michael Horton, Jerry Bridges e Joel Beeke.

Citando o comentário de John Piper, na contracapa do livro, os autores são “humildes santos de Deus – não espere nada bombástico, espere admiração humilde e equilibrada”. Não estamos lendo uma série de honras e homenagens a um grande homem que viveu no passado. O que vemos são exposições sérias, mas apaixonadas, das verdades bíblicas que baseiam vidas e ministérios de homens usados por Deus hoje, assim como marcaram a vida de João Calvino e de outros da época da Reforma.

Farel e Calvino
Guillaume Farel pedindo "gentilmente" que Calvino fique em Genebra

A divisão dos capítulos é didática, e apesar de ser possível ler cada um fora de ordem, sua sequência é lógica e flui com naturalidade. Após um importante capítulo inicial sobre a humildade de Calvino, que provavelmente se sentiria muito desconfortável com o amplo uso de seu nome para denominar uma doutrina puramente bíblica, lemos duas biografias: uma descritiva, e outra mais íntima, sobre seus sentimentos e motivações (“O Coração de Calvino para Deus”). Lemos então sobre vários aspectos de sua vida – reformador, escritor, pastor, entre outros – e a seguir conhecemos suas doutrinas, em especial os chamados “5 pontos do Calvinismo”. O livro termina falando da Justificação – pela fé somente, em Cristo somente – doutrina fundamental para a caracterização da Reforma Protestante como um movimento de retorno aos ensinos bíblicos e peça chave na separação das igrejas evangélicas da igreja Católica Romana.

Cabe aqui ressaltar um defeito quase sempre presente na maioria das coletâneas desse tipo, com múltiplos autores. Lemos em pelo menos três capítulos do livro sobre como Calvino saiu da França com destino a Lausanne e como pretendia passar apenas uma noite em Genebra, mas a pedido do amigo Guillaume Farel, acabou ficando lá permanentemente. Esse é apenas um exemplo, e não é nada que prejudique o livro, mas algumas histórias que causam algum impacto ou admiração nas primeiras páginas acabam perdendo o efeito após a segunda ou terceira vez.

Por outro lado, algumas das passagens mais marcantes da obra também se repetem algumas vezes, mas são importantes por não serem simplesmente fatos históricos, mas demonstrações profundas de relacionamento com Deus. Quando estava em Estrasburgo e foi convidado a voltar para Genebra após a conturbada saída da cidade, a princípio relutou, mas pouco tempo depois, escreveu uma carta ao amigo Farel em que dizia “Porque sei que não sou o meu próprio senhor, ofereço meu coração como verdadeiro sacrifício ao Senhor”, deixando claro que o direcionamento de Deus para sua vida era muito mais importante do que a própria vontade.

muro dos reformadores
Muro do Reformadores, em Genebera. Da esquerda para a direita, Guillaume Farel, Calvino, Theodore Beza e John Knox

O ponto forte do livro é a forma de tratar as doutrinas, e provavelmente isso está ligado à influência de Calvino sobre os próprios autores. Longe da caricatura sisuda e mal-humorada normalmente associada aos calvinistas, as exposições aqui não são agressivas nem arrogantes. É possível notar um tom pastoral em praticamente todos os capítulos. O intuito de Calvino nunca foi o de levar pessoas ao calvinismo, mas ao Evangelho. E, citando Sinclair Ferguson, “para Calvino, o Evangelho não é predestinação ou eleição, a soberania de Deus ou mesmo os cinco pontos de doutrina com os quais seu nome é frequentemente associado. Esses são aspectos do Evangelho, mas o Evangelho é o próprio Jesus Cristo”. Antes de teólogo, Calvino era um pastor de um rebanho a ele confiado por Deus, e isso está claramente presente em sua vida e na vida daqueles influenciados por ele.

Nascido na França, o período mais importante da vida de Calvino se passou em Genebra, cidade onde ele tinha grande influência, e que John Knox, reformador escocês, chamou de “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. Lá, Calvino dedicava a maior parte de seu tempo às atividades de pastor da capela de São Pedro, onde ensinava e pregava, e exercia outras funções pastorais como a ministração da Ceia e a visitação de enfermos. Em Genebra também fundou escolas de ensino fundamental, seminários e hospitais. Os ideais da Reforma faziam parte da vida cotidiana da cidade e tornaram a cidade suíça um refúgio seguro para todos que fugiam de seus países, principalmente a França, onde a igreja protestante ainda era perseguida, quase sempre de forma violenta. De lá, Calvino influenciou toda a Europa, e mais tarde, a fundação dos Estados Unidos pelos puritanos.

Ao fundo, o púlpito onde Calvino Pregava, na Catedral de São Pedro, Genebra
Ao fundo, o púlpito onde Calvino Pregava, na Catedral de São Pedro, Genebra

Falar de João Calvino sem falar do calvinismo é contar a história pela metade. Por isso, grande parte do livro é dedicada justamente a falar sobre as doutrinas às quais Calvino dedicou sua vida para ensinar. Assim, a maior referência bibliográfica, de todos os capítulos, acaba sendo a obra prima do reformador, as Institutas da Religião Cristã. Nelas estão baseados todos os capítulos sobre as doutrinas da graça, explicadas de forma acessível e pastoral – características nem sempre associada aos teólogos reformados atuais mais ferrenhos – e os capítulos finais sobre a Justificação.

Para quem deseja conhecer um pouco mais sobre essas doutrinas vitais para a igreja, em tempos de ressurgimento do estudo dos fundamentos da nossa fé por uma parcela considerável dos crentes, esse livro é um bom começo. Talvez aqueles calvinistas de longa data que sabem recitar os cinco pontos do calvinismo de trás para frente passem batido por esse livro, de caráter mais introdutório. Entretanto, são poucas as obras como essa, que se dedicam a estudar tanto a vida de Calvino quanto sua pregação e suas doutrinas.

Exposição séria, bíblica e apaixonada da Verdade das Escrituras. Assim foi a vida e a obra de João Calvino, e assim é o livro João Calvino – amor à Devoção, Doutrina e Glória de Deus. Ao contrário do que muitos pensam, conhecer e estudar doutrinas não nos torna frios e sem vida. Para Calvino, conhecer a Deus era conhecer a si mesmo, e viver o Evangelho era receber um coração de carne no lugar de um coração de pedra endurecido pelo pecado. Seus ensinamentos não eram teorias sobre uma vida cristã ideal, eram o reflexo de uma vida de paixão por Cristo e sua Palavra, e de submissão à vontade daquele que nos retirou das trevas e nos trouxe para Sua maravilhosa luz. Então, que isso sirva de exemplo para todos nós.

“O fato de que Calvino entregou espontaneamente sua vida sobre o altar do ministério pastoral foi, em última análise, resultado de submissão a Cristo, seu Senhor – uma submissão nutrida pela alegria da salvação pela graça e impelida pela majestade de seu Salvador.” Harry L. Reeder

Resenha por Filipe Schulz | iPródigo.com

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