Louvor é protesto

por Carl Trueman

Se Paulo está emocionalmente impactado pelas suas reflexões sobre a Graça de Deus de uma forma que faz com que ele rompa em louvor, uma segunda coisa a notar sobre esse louvor é que, em sua essência, ele é um ato de protesto.

Os títulos que Paulo emprega em sua doxologia (1 Timóteo 1.17) deixam isso mais claro:

“Rei eterno” fala sobre a soberania absoluta de Deus e nega assim a legitimidade de qualquer reivindicação real feita por qualquer pretendente ao trono, quer sejam falsos deuses ou seres humanos.

“Imortal” é uma marca de Deus que o diferencia de qualquer criatura. Apenas Ele não vem a ser ou passa a ser, e a falha em reconhecer isso faz parte da depravação humana (Romanos 1.23). Afirmar a sua imortalidade é negar qualquer pretensão da criatura ser deus.

“Invisível” se refere a algo característico de Deus em toda a Escritura: ele não pode ser visto por mortais. Isso não é, primeiramente, uma questão filosófica ou metafísica, embora isso não seja necessariamente excluído. Isso está alinhado com Exôdo 33.19-23, sublinhando a transcendente e inacessível santidade de Deus. Como Gregório, o Teólogo, posteriormente, Paulo é dominado pelo mistério que é Deus e percebe que há um ponto onde se não se deve especular mais, mas simplesmente se curvar e adorar.

“Deus único” é uma alusão ao shemá de Deuteronômio 6.4. Originalmente um polêmico golpe contra o politeísmo egípcio com que os filhos de Israel haviam sido familiarizados, aqui ele está em oposição ao panteão dos deuses pagãos do mundo no primeiro século. Isso também é, obviamente, uma vigorosa oposição aos deuses pagãos do século XXI, especialmente aqueles fabricados pelos nossos próprios corações.

Então, por fim, Paulo atribui a esse Deus ‘honra e glória’, coisas que devem ser atribuídas apenas a uma pessoa de alta reputação. Esse é o padrão da doxologia do Novo Testamento e é, novamente, polêmica: atribuindo essas coisas a um Deus assim como ele descreveu, Paulo está implicitamente negando-as a todos os outros deuses.

A adoração de Paulo é, portanto, completamente polêmica. Mas note que ela não é motivada por uma mesquinhez de espírito ou expressa usando uma retórica torpe; seu aspecto polêmico surge como uma direta inferência de quem Deus é (teologia) e é expressado em palavras de alegria, temor e maravilha (doxologia).

Nossa adoração hoje deve ser polêmica também. Atribuir glória e honra a esse Deus e a nenhum outro é por à espada os clamores de todos os outros pretendentes ao trono. Debates sobre adoração que se concentram primeiramente na estética podem ser importantes – forma e conteúdo nunca podem ser perfeitamente separados. Mas, muito mais importante do que uma reflexão estética por si só, é a reflexão sobre quem Deus é.

Atribuir glória e honra a esse Deus e a nenhum outro é por à espada os clamores de todos os outros pretendentes ao trono.

Por ultimo, louvar a Deus é fazer um protesto teológico e doxológico contra os clamores de todos os pretendentes ao Seu trono. Quando a igreja se reúne em uma manhã de domingo, o que temos é um reunião de protesto, um encontro de pessoas que não mais aceitarão as arrogantes reivindicações do mundo. Isso deve ser o ponto de partida para qualquer discussão sobre estilo de adoração e sobre como a igreja se relaciona com a cultura ao seu redor.

Não se engane: louvor é protesto. Se não é protesto, não é louvor.

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Traduzido por Marianna Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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