Não deixemos de congregar-nos

por Todd Pruitt

Fiquei triste, mas nem um pouco surpreso, ao ler o relato recente de Donald Miller a respeito de não ir mais a uma igreja. Fiquei triste porque não há como alguém ser um cristão e rejeitar o corpo de Cristo, sua noiva, seu edifício. Cristãos nascem e crescem no corpo de Cristo. Eu não fiquei surpreso, entretanto, porque isso é uma trajetória previsível até demais para os envolvidos com a ala emergente/neoliberal do protestantismo.

Eu também admito me sentir um pouco mal por Miller, ao ler sua história. Não estou tentando ser condescendente, ele certamente não precisa da minha pena. Mas eu sinto pena por conta de seu entendimento pobre de quem é Cristo e de sua igreja. Como resultado disso, ele está privando a si mesmo exatamente das formas que Cristo prometeu usar para cuidá-lo.

Há uma série de coisas que me vieram a mente ao ler o post de Miller:

1. Adoração não se trata de encontrar uma forma pessoal de “se conectar a Deus”

Miller escreve: “Eu fui a um culto que tinha, provavelmente, o grupo musical mais talentoso que eu já havia ouvido. Eu amei a música. Mas eu gostei mais pela música do que pela adoração. No que tange à conexão com Deus, eu não estava sentindo praticamente nada”. Miller ganhou vários seguidores por criticar a igreja. Mas aqui ele demonstra um entendimento juvenil da natureza e do propósito da adoração. É irônico que Miller abrace exatamente o mesmo tipo de expectativa que levou ao crescimento da igreja voltada ao “consumidor” que o seu movimento emergente critica tão veementemente. Adoração não se trata de “se conectar com Deus”. Adoração se trata de prestar a Deus o que lhe é devido da forma que ele mesmo prescreveu em sua Palavra.

Além do mais, em Cristo nós não precisamos mais buscar maneiras de nos conectarmos com Deus. Deus já se conectou conosco por meio de Cristo! O trabalho já foi feito. A expiação foi feita. A justiça foi satisfeita e agora estamos unidos com Cristo por meio da fé. “Se conectar com Deus” faz parte do vocabulário nada útil do novo evangelicalismo. Há tantas definições para isso quanto as pessoas inventarem.

2. Eu, Mim, Meu

As reflexões de Miller tratam exclusivamente de suas preferências e experiências pessoais. Certamente há lugar para isso até certo ponto. Queremos ser apropriadamente introspectivos. Eu sou um pouco assim, então até entendo isso. Mas em lugar algum Miller tenta evitar seu “eu-centrismo”. Na verdade, ele parece estimular. Preferências pessoais e estilos de aprendizado parecem ser a preocupação principal ao determinar se seremos ou não parte de uma igreja ou participaremos ou não da adoração com o povo de Deus.

3. A igreja pode, sim, ser identificada

A igreja não é uma atmosfera, não é algum tipo de princípio universal. A igreja é uma realidade concreta e identificável. Entretanto, Miller escreve: “mas eu também acredito que a igreja está ao nosso redor, não confinada a uma tribo específica” (e ele nos convida a twittar essa frase). Por que ele acredita nisso? Isso não é ensinado na Bíblia. Só me resta imaginar que Miller desenvolveu essa teologia do que é igreja com base em suas próprias preferências pessoais. É verdade que a igreja é universal, no sentido de que se constitui de todos aqueles ao redor do mundo que professam sua fé em Jesus Cristo. Mas nós adoramos, servimos e crescemos junto com irmãos e irmãs em uma igreja local. As epístolas foram escritas para congregações locais. A maior parte das instruções à igreja no Novo Testamento são aplicadas à igreja conforme ela se dá nas congregações locais. Correndo o risco de parecer rabugento, eu não sei nem o que Miller quer dizer quando escreve que “a igreja está ao nosso redor”. Me pergunto se ele mesmo sabe o que isso significa.

4. A igreja não se trata primariamente do meu aprendizado

Ao longo do post, Miller assume que as reuniões de Domingo se resumem primariamente a ele aprender alguma coisa. E por mais que nós, certamente, nos reunamos para ouvir a Palavra de Deus sendo proclamada, isso não é simplesmente para aprender algo. Se trata de adoração. Se trata de edificarmos uns aos outros. E se trata de termos nossos corações moldados pelos meios os quais Deus ordenou para esse propósito. Deus usa a proclamação da Palavra para produzir fé no descrente e santidade em seu povo.

O fato é que as pessoas sempre preferem as formas mais sinestésicas de aprendizado. Os profetas sempre foram ignorados. A pregação era considerada loucura na época de Paulo. Quando o homem inventa uma religião, ela normalmente é voltada para as experiências e o misticismo. Mas uma das facetas mais notáveis e distintas da fé bíblica sempre foi sua dependência das palavras. O povo de Deus durante o êxodo odiava isso. Eles clamaram para que Arão fizesse para eles um deus que eles pudessem experimentar sinestesicamente enquanto Moisés estava no topo do monte recebendo mais palavras. Deus fez seu povo um povo de ouvintes. E ele o fez sem consultar os teóricos da educação e aprendizagem.

5. Falsas alternativas

Miller escreve alguns comentários bastante úteis a respeito do bem que há em trabalhar como meio de se relacionar com Deus. Infelizmente ele vê isso como uma alternativa à adoração com o corpo de Cristo no Dia do Senhor. A fé reformada se beneficiaria em muito das doutrinas robustas de Miller a respeito de criação e vocação. Foram justamente os reformadores que reafirmaram o trabalho como um meio pelo qual podemos glorificar e nos relacionarmos com Deus. Mas isso nunca deve ser visto como substituto da nossa responsabilidade de nos reunirmos com o povo de Deus.

6. O que acreditamos sobre as Escrituras importa

As questões que Miller discute são tratadas pela Escritura. A Bíblia nos diz o que é adoração, o que é a igreja e o que significa fazer parte do corpo de Cristo. Mas Miller parece se importar mais com as teorias do aprendizado do que com as Escrituras. Na verdade, em momento algum ele reflete sobre o que a Palavra de Deus ensina. Pelo contrário, ele faz referências a uma pesquisa obscura sobre estilos de aprendizado. Obviamente não há nenhuma surpresa nisso. O que aconteceu no agora fora de moda movimento emergente foi simplesmente uma reapresentação menos inteligente do liberalismo protestante. Quando as doutrinas da inerrância e da autoridade das Escrituras são descartadas, com o tempo, tudo o mais será.

Miller sugere que o povo de Deus reunido para adorar, orar e ouvir a proclamação da Palavra é meramente o “modelo tradicional de igreja”. É fácil desmerecer algo que é “tradicional”. É mais fácil ainda desmerecer um “modelo”. O que Miller não parece entender é que Deus prescreveu para seu povo se reunir no Dia do Senhor para cantar, orar, ofertar, receber os sacramentos e ouvir a Palavra de Deus proclamada. Isso não é simplesmente um modelo. Miller desmerece a vontade revelada de Deus para sua igreja com um simples aceno de mão.

Eu não quero ficar implicando com Donald Miller. Eu estou preocupado simplesmente porque ele é uma grande influência. E o que ele está ensinando sobre a igreja, as Escrituras e a obediência a Deus é perigoso. É uma prescrição para falência espiritual. Estou preocupado porque a história de Donald não irá acabar bem se ele continuar rejeitando as maneiras que Deus determinou para alimentar seu rebanho.

“Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hebreus 10.23-25)

“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Colossenses 3.16)

“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Efésios 4.11-16)

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (Atos 2.42-47)

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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