O cânon do NT é incompatível com alegações de novas revelações?

por Michael J. Kruger

“Deus falou comigo.”

Há poucas declarações que acabarão com um debate mais rápido do que essa. Se os cristãos estão discordando sobre uma doutrina, uma prática ou uma ideia, então sempre há o trunfo “Deus falou comigo” para resolver. Fim da discussão.

Mas, a história da igreja (para não dizer as próprias Escrituras) demonstra que tais alegações de revelação privada e direta são altamente problemáticas. Evidentemente, isso não significa que Deus não fale com as pessoas. A Escritura está cheia de exemplos disso. Porém, tipicamente são indivíduos com chamados singulares (e.g., profeta ou apóstolo) ou que agiam em tempos singulares na história da redenção (e.g., a igreja primitiva em Atos).

Depois que o primeiro século terminou, e os apóstolos tinham morrido, a igreja rejeitou amplamente a ideia de que qualquer um poderia aparecer e afirmar que teve uma revelação direta de Deus. Essa realidade é provavelmente exemplificada em sua melhor forma no debate primitivo sobre o Montanismo.

Montanismo foi um movimento do século II cujo líder Montano afirmava receber revelação diretamente de Deus. Além disso, duas de suas “profetisas”, Priscila e Maximila, também afirmavam receber tal revelação. Tais revelações frequentemente eram acompanhadas por comportamento estranho. Quando Motano tinha essas revelações, “ficava obcecado e, de repente, caía em frenesi e convulsões. Ele entrava em estase e andava e falava estranhamente” (Hist. Eclesiástica 5.16.7).

É desnecessário dizer que esse tipo de atividade gerava grande preocupação para os líderes ortodoxos do segundo século. Parte de sua preocupação era maneira como essa atividade profética acontecia. Eles a condenavam pelo fato de que era “contrária ao costume que pertencia à tradição e à sucessão da igreja desde o princípio” (Hist. Ecl. 5.16.7).

Porém, a outra preocupação (e, talvez, a maior delas) era que essa nova revelação era inconsistente com as crenças da igreja sobre os apóstolos. Os líderes do século II entendiam que os apóstolos eram porta-vozes únicos de Deus; tanto que eles não aceitariam qualquer revelação que não fosse entendida como apostólica.

Como exemplo desse compromisso, a igreja primitiva rejeitou o Pastor de Hermas – um livro que supostamente continha revelações do céu – porque foi escrito “muito recentemente, em nosso próprio tempo” (Fragmento Muratoriano). Em outras palavras, ele foi rejeitado porque não era apostólico.

A questão chegou a um ponto em que os Montanistas começaram a escrever suas novas profecias, formando sua própria coleção de livros sagrados. Os líderes ortodoxos viam tal atividade como ilegítima porque, no entendimento deles, Deus já tinha falado por seus apóstolos, e as palavras dos apóstolos foram registradas nos escritos do Novo Testamento.

Alguns poucos exemplos de como os líderes ortodoxos rejeitaram esses livros de “nova revelação”:

  1. Gaio de Roma, em seu diálogo com o montanista Proclus, censurou “a imprudência e audácia de seus oponentes em compor novas Escrituras” (Hist. Ecl. 6.20.3).
  1. Apolônio os contestou porque os profetas montanistas estava colocando suas “pomposas palavras vazias” no mesmo nível que Cristo e os apóstolos (Hist. Ecl. 5.18.5).
  1. Hipólito reclamou que os montanistas “alegam que eles aprenderam algo mais através destes [escritos montanistas] que da lei e os profetas, e os Evangelhos” (Her. 8.12).
  1. O crítico anônimo do Montanismo registrado por Eusébio registra sua hesitação em escrever uma resposta aos montanistas para não ser visto como se cometesse o mesmo erro deles e “parecesse a alguns estar adicionado aos escritos ou injunções da Palavra da nova aliança do Evangelho” (Hist. Ecl. 5.16.3)

Quando você olha essas respostas, uma série de fatos centrais torna-se clara. Primeiro, e isso é crítico, está claro que esses autores já conheciam e tinham recebido um grupo de escritos do Novo Testamento como Escritura autoritativa. Assim, eles já tinham um tipo de cânon do NT (mesmo se alguns livros ainda estivessem sob discussão). De fato, é a existência desses livros que forma a base para suas maiores denúncias dos Montanistas.

Segundo, e igualmente crítico, a resposta desses escritores mostra que eles não aceitavam nova revelação em sua época. Para eles, o tipo de revelação que poderia ser considerada “palavra de Deus” e, assim, escrita em livros, tinha cessado com o período apostólico.

Em termos da igreja moderna, há grandes lições a serem aprendidas aqui. Nós devemos ser igualmente cautelosos sobre alegações extravagantes de que pessoas têm recebido nova revelação dos céus. E, mais do que isso, o debate montanista é um grande lembrete a sempre retornar à Escritura como padrão último e guia para a verdade. É na palavra escrita de Deus que a igreja deve se firmar.

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Traduzido por Josaías Jr | Reforma21.org | Original aqui

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