O Cântico dos cânticos de Paulo

por John MacDuff

John MacDuff (1818-1895)

Apresentação

A maioria dos cristãos brasileiros nunca ouviu falar de John MacDuff, pregador e compositor de hinos, nascido na Escócia. Conhecemos pouco da história da igreja e, certamente, pouco espaço se dá aos puritanos – e muito menos para aqueles que surgiram no final do movimento. Sobre ele, Charles Spurgeon disse: “Para a sã doutrina, apresentada escriturística e devocionalmente, com aplicação à vida cristã, você não pode ir além de MacDuff… MacDuff escreve popularmente, e ainda assim, não é de forma alguma superficial. Para uma hora de leitura santa e agradável, recomendo-vos MacDuff!”.

Confesso que também não o conhecia, mas minha namorada, Josie, me indicou um site onde as obras desse autor foram preservadas. Lá, encontrei esse comentário de Romanos 8, em que MacDuff trata esse capítulo precioso como uma canção – o cântico dos cânticos de Paulo. Percebi que não podia deixar os leitores brasileiros sem conhecer essa maravilhosa obra e, assim, nasceu a ideia de uma possível série. A Josie se ofereceu para cuidar desse difícil tradução, o que fez com muito cuidado. Há diversos termos da música, expressões que poucos conhecem e algumas que sumiram do vocabulário atual. Ainda assim, MacDuff é proveitoso para todo aquele que deseja se deleitar na beleza de Romanos 8. Que esses textos te levem a um conhecimento maior de Deus.

Em Cristo, Josa Jr.

Parte 1: A Tônica da Música

Vamos ouvi-la – “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (v. 1).

As notáveis abertura e encerramento de nosso capítulo têm sido frequentemente observados; é o que, de acordo com o nome deste Livro, posso chamar de Antífona. A Voz ou linha melódica começa com “nenhuma condenação”. E é respondida no fim do capítulo com “não há separação”. O tom é tocado pelo músico inspirado. É seguido por um volume cada vez maior da melodia, até culminar em um hino “como a voz de uma grande multidão e o som de muitas águas.” Nos lembra de outro mestre da canção sagrada (Haydn1) – com o seu “Haja Luz!” – E a Luz se expande e se intensifica em um perfeito dia dos céus.

“Nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus”. Essa primeira proposição é introduzida com “Portanto”. Ela é a soma – a grande inferência da tese preliminar do mais antigo e melhor dos apologistas cristãos. E esse pensamento inicial de consolação e paz, como um cordão de ouro, se entrelaça por todo o capítulo.

“Em Cristo Jesus”. Não podemos agora fazer uma pausa para expor e ilustrar tudo o que essas ricas palavras implicam. Elas expõem, em um lampejo de pensamento, a união pessoal e vital ou a incorporação do crente com o seu vivo e amado Senhor; transformando o velho em “o novo homem que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4.24). A expressão é explicada e desdobrada no sexto capítulo (versos 4-11). É uma fórmula favorita e muitas vezes recorrente que permeia os escritos daquele que especificamente se chama “um homem em Cristo” (2 Co 12.2).

“Em Cristo” – seguramente guardado naquele que é “o refúgio contra a tempestade e abrigo contra o temporal”. Li que, na terrível história da Guerra da Crimeia2 – quando muralha após muralha, baluarte após baluarte da cidade condenada eram atacados e destruídos em ruína disforme – nas profundezas, nas fundações de uma das fortalezas sombrias havia um porão onde os feridos foram conduzidos a salvo da saraivada de bala. Longe do barulho e tumulto da artilharia desta batalha de gigantes, quando o dia se fez sombrio como a noite. Lá estavam eles, por enquanto, seguros e protegidos – “O cansado a dormir e o ferido a morrer”.3

Cristo é esse abrigo secreto. Ele é “a torre forte no dia da angústia” (Naum 1.7). “Nele” – nas fendas da Rocha Eterna – dentro desta cidadela da fé estou seguro. A lei e seus trovões vingadores caem contra mim em vão. Aleijados e feridos nas lutas implacáveis da vida – feridos pelo pecado e pela tristeza – assolados pela tentação e por uma legião de inimigos – principados e potestades – espíritos malignos nas regiões celestiais; posso ouvir a voz do Grande Descanso em meio à batalha. Ele diz – “Vinde a Mim!” “Vinde, meu povo, entrem em suas câmaras, e fechem as portas sobre vós, e escondam-se por um momento até que passe a indignação”. “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará [a palavra significa uma cidadela ou forte] os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.” (Filipenses 4.7).

“Em Cristo”. Esta foi a verdade vital tão belamente expressa pelo próprio Divino Mestre em sua parábola derradeira sobre a videira e os ramos—“Sem mim”; fora de mim; podados de mim, vocês não são nada, e nada podem fazer. Fora de Cristo, à parte dEle, cada alma é como um navio à deriva, sem vela, sem leme, ao sabor das forças oceânicas — encalhado na areia, longe de elemento que lhe faz flutuar.  Mas o maremoto flui — as enseadas e baías são inundadas uma a uma — o “abandonado” mais uma vez tem vida sobre as águas, “rodeado pelo mar inviolável”.

Este é o homem “em Cristo”. Cercado com este novo elemento – a vida em seu Senhor vivo com seu oceano pleno e silenciosamente profundo – ele está seguro, jubiloso, feliz. Sem ciclone acima, sem rochas submersas abaixo; uma confortável calma a seu redor. “Em mim você terá paz”. Não foi em vão que os primeiros cristãos – mesmo no meio de sua grande luta de aflições – “o mar e as ondas rugindo e seus corações desfalecendo de terror” – escreveram sobre as lajes de suas catacumbas: EM CRISTO – EM PAZ.

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Basta agora dizer que, ao captar-se exaustivamente essa frase em seu significado evangélico pleno, todas as variadas afirmações subsequentes  de nosso capítulo tornam-se compreensíveis e luminosas de uma vez. É a “Cesta de Prata” onde as “Maçãs de Ouro” são guardadas (Pv 25.11). Tenhamos isso em mente durante toda nossa exposição, a fim de desvendar a garantia de todas as bênçãos da aliança – especialmente aquelas duas já distintamente indicadas. Traz segurança a Paulo e a todos os crentes, à medida que ele clama o desafio e “apelo” final – “será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39).

“Não há condenação em Cristo Jesus!”. Que abençoado pensamento, se somos participantes daquilo que Dean Alford chama de “a vida trazida por Ele, e a união absoluta no tempo, e depois do tempo, de cada crente com Ele!”. “Condenar” ou “Não condenar”, “Condenação” ou “Não há condenação” não são mais questões em aberto – indeterminadas e instáveis. Ele, o Grande Redentor e Senhor – Irmão em minha natureza me trouxe a uma viva membresia e comunhão com Ele. Nele a dívida está cancelada, liquidada. Nele estou perdoado e aceito. Estas são as palavras do Perdoador divino (nada mais precioso em toda a Escritura Sagrada): ” Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados não me lembrarei mais” (Hb 8.12).

Paulo, devemos ter em mente, agora estava escrevendo aos romanos; que estavam familiarizados com os termos judiciais que ele usa. Eles sabiam bem qual era o significado da proclamação “Condemno” ou “Non condemno“, como ressoou através de suas basílicas. Felizes aqueles que ouviram, como aqui, a Grande Absolvição dos lábios do Justo, e mais ainda, do Justificador. Feliz de mim se, percebendo a minha nova posição na aliança em Cristo, saio pelo o mundo – para o meu trabalho e negócios diários – em meio à “assombrosa maré de cuidado e crime dos homens”4, e posso ouvir esta harmoniosa música celestial tocando através de tudo – “Não há condenação”.

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E, para ter conforto total nas notas inicais da canção, deixe-me pensar que isso, também, denota uma absolvição presente – uma imunidade presente. Não se trata do limitado e parcial pensamento de um dia ser chamado ao tribunal de um juiz para receber a sentença e a garantia de remissão; pelo contrário, “Não há, portanto, AGORA, nenhuma condenação”. A absolvição já foi pronunciada e não há recurso. “EU faço expiação por você” (Ez 16.63). “Nós, que temos crido, entramos no descanso” (Hb 4.3). “Aquele que crê não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). “Amados, agora somos filhos de Deus” (1 Jo 3.2).

O pródigo da parábola não é ordenado a submeter-se à provação – permanecer de fora, como dependente entre os subalternos da casa de seu pai, até restauração ser concedida. A túnica, o anel, as sandálias, as boas-vindas são seus de uma vez. Permita-me receber a mesma consolação sublime, que a bem-aventurança é agora tanto minha quanto daqueles cujas iniquidades são perdoadas e o pecado coberto – que agora sou um cidadão legal do céu, e as porções subsequentes deste “Cântico dos Cânticos” me ensinam que sou um habitante glorificado.

Sim, o princípio dessas sucessivas cadências da Cantata sagrada de Paulo me permite adequadamente apropriar-me das palavras de outros cantores mais antigos –  “Eu te louvarei, Senhor! Pois estavas irado contra mim, mas a tua ira desviou-se, e tu me consolaste” (Is 12.1).

“Ele pôs um novo cântico na minha boca, um hino de louvor ao nosso Deus” (Sl 40.3).

Notas

1 Franz Joseph Haydn – compositor do período clássico, considerado “pai da sinfonia”

2 A Guerra da Crimeia foi um conflito que se estendeu de 1853 a 1856, na península da Crimeia (no mar Negro, ao sul da atual Ucrânia), no sul da Rússia e nos Bálcãs. Envolveu, de um lado o Império Russo e, de outro, uma coligação integrada pelo Reino Unido, a França, o Piemonte-Sardenha (na atual Itália) – formando a Aliança Anglo-Franco-Sarda – e o Império Turco-Otomano (atual Turquia). Esta coalizão, que contou ainda com o apoio do Império Austríaco, foi formada como reação às pretensões expansionistas russas.

3 Verso do poema “The Soldier’s Dream”, de Thomas Campbell

4 Verso do poema “St. Matthew”, de John Keble

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Traduzido por Reforma21 | Reforma21.org | Original aqui

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