O engano da propaganda ateísta

por Aaron Denlinger

Ativistas ateístas estão virando manchete novamente por causa de uma propaganda recente, desta vez no sul dos Estados Unidos. Alguns anos atrás um esforço similar foi feito no Reino Unido e causou alguma preocupação entre evangélicos britânicos. Eu morava na Escócia na época, e fiquei cara a cara com uma dessas propagandas públicas promovendo o ateísmo, antes mesmo que tivesse ouvido falar disso no jornal. Eu lembro muito bem daquele momento. Eu estava estacionado do outro lado da rua da Enfermaria Real de Aberdeen às 7 da manhã, esperando pra buscar minha esposa de um plantão noturno no hospital, quando um daqueles ônibus vermelho de dois andares chegou na parada que estava bem na minha frente. Estavam escritas no ônibus (onde normalmente haveria uma propaganda do filme mais recente) as seguintes palavras, bem grandes: “Deus provavelmente não existe. Agora pare de se preocupar e aproveite sua vida.”

Minha reação instintiva àquela mensagem – quando eu me recuperei da surpresa de encontrá-la na lateral de um ônibus – foi de perplexidade. Eu não consegui entender, e ainda não consigo: como alguém pode achar que a vida como um produto do acaso é mais agradável (ou menos preocupante) do que a vida como um presente de um Deus todo-poderoso, todo-sábio e amoroso? Quem gosta mais de um anel de diamante: o homem que esbarra neste anel com seu detector de metal na praia? Ou a garota que o recebe do rapaz que a ama e que quer casar com ela? Eu diria que é o segundo caso. O anel tem o mesmo valor monetário nos dois cenários, mas ele traz um prazer maior à garota porque, para ela, é um presente que serve para sempre lembrá-la de um relacionamento que  vale infinitamente mais do que qualquer preço que possa ser cobrado pelo diamante. Quem aproveita mais a vida? A pessoa que acredita que ele mesmo e tudo ao seu redor é produto do acaso, e então trata cada dia como algo em que ele esbarrou na areia? Ou a pessoa que vê sua vida como um todo e cada dia nela como um presente de Alguém que a ama com um amor perfeito e constante, e pretende passar a eternidade com ela? Eu argumentaria pelo segundo caso, pela mesma lógica de antes.

Se Deus não existisse, eu não conseguiria parar de me preocupar. Se este mundo e esta vida fossem de fato tudo o que existe, tenho certeza que eu desperdiçaria a vida em um estado constante de ansiedade, pensando se eu estou espremendo prazer o suficiente, ou o tipo certo de prazer, dos meus lamentavelmente poucos dias nesta terra. Apesar desses ateístas terem uma aparente intenção de ajudar as pessoas a relaxarem e se divertirem, pareceu pra mim (e ainda parece) que eles prescreveram uma dose pesada de ansiedade e miséria para as pessoas com suas (falsas) novas sobre a inexistência de Deus.

Essas propagandas mais recentes, nos Estados Unidos, me deixaram igualmente perplexo. Outdoors em diversos estados do sul mostram uma garotinha vestindo um chapéu de Papai Noel e com um sorriso levado, escrevendo uma carta para São Nicolau: “Querido Papai Noel, tudo o que eu quero de natal é faltar à igreja. Estou muito velha para contos de fadas”. Minha perplexidade quanto a esta propaganda específica é de uma natureza ambivalente, correspondendo aos meus sentimentos ambivalentes pelo velho São Nicolau. Uma parte de mim simplesmente acha o anúncio irônico e triste. É irônico na medida em que a garota está escrevendo para uma criatura mitológica chamada Papai Noel para expressar sua descrença em Deus. (Eu imagino que essa ironia foi proposital, e que a maioria dos ateístas não acreditam no Papai Noel, nem acham que ele seja a pessoa mais apropriada para registrar a descrença de alguém). É triste, porém, ver (ainda que em um cenário fictício) uma criancinha querendo trocar a crença em um Deus onisciente que oferece gratuitamente o perdão para nossos pecados por um homem onisciente do Polo Norte que anualmente te promete recompensa (ou punição) baseado puramente em sua performance, com absolutamente nenhuma possibilidade de arrependimento pelos seus delitos. “Ele te vê quando você está dormindo. Ele sabe quando você está acordado. Ele sabe se você foi bom ou mau”.[1] Papai Noel, pelo menos como é descrito nessa música, é assustador. O slogan ético da história do Papai Noel é “É melhor você ser bom, pelo amor de Deus!” [2] Mas e aqueles dentre nós que não têm sido bons? Não há promessa de resgate para crianças malvadas no evangelho do Papai Noel. O melhor que você pode esperar é uma melhoria moral nos anos que você tiver pela frente (então se apresse…).  Que trágico substituto para um Deus que não apenas sabe tudo o que você fez mas também oferece um perdão total e completo com base na encarnação, pessoa e obra de seu Filho, que viveu e morreu no lugar dos pecadores.

Mas eu não odeio o Papai Noel, no final das contas. A verdade é que eu gosto do Papai Noel, talvez até acredite nele um pouco. Qualquer que seja a retórica de nossas musiquinhas de Natal, a realidade – até onde eu posso ver – é que Papai Noel dá presentes para crianças independentemente de sua fibra moral ou performance durante o ano. O esquema de presentes do Papai Noel não parece ser meritocracia no final das contas. E qualquer que seja a verdade sobre o conhecimento que ele tem das suas obras, o que há de desagradável em um cara que dirige um trenó puxado por renas mágicas e se espreme chaminé abaixo para colocar pacotes embaixo da árvore de natal?

Meu problema de verdade com esta propaganda ateísta específica não é que ela promova a crença no Papai Noel, mas ela engana grosseiramente as pessoas fazendo-as pensar que de alguma forma você pode se livrar de Deus mas ainda ter um pouco de mágica no mundo. A verdade sobre o ateísmo, que eles tentam tão desesperadamente esconder, é que quando você se livra daquele que nos fez e que fez a este mundo, você priva a nós e a todo o mundo de significado, absolutos morais e mágica. Sem Deus, o mundo se torna um universo natural, onde nada (ou melhor, ninguém) pode intervir porque não há ninguém lá para fazer isso.

Por mais estranho que possa parecer (dado um justo grau de nervosismo cristão a respeito do Papai Noel e sua tendência de roubar os holofotes de Cristo no natal), eu sugeriria, então, que é realmente necessário ter uma perspectiva cristã das coisas para sustentar uma história como o Papai Noel (pelo menos como algo mais do que um esforço coletivo por parte dos pais para extrair bom comportamento de seus filhos). G. K. Chesterton escreveu: “O senso de milagre da humanidade deve ser sempre mais vívido para nós do que qualquer maravilha de poder, intelecto, arte ou civilização. O mero homem sobre duas pernas, assim, deveria ser sentido como algo mais tocante do que qualquer música e mais surpreendente do que qualquer caricatura.” A humanidade não é um produto do acaso. A humanidade, trazida à existência pela palavra de Deus, é um milagre. E quando você se dá conta disso, não precisa de um grande salto de imaginação para entreter a possibilidade de um homem específico que vive no Polo Norte, viaja em um trenó puxado por renas e se espreme chaminés abaixo para deixar presentes para meninos e meninas sob árvores de natal.

Quando, em vez disso, você nega o fato de a própria humanidade ser um milagre, todas as possibilidades de um homem milagroso chamado São Nicolau evaporam. O ateísmo é, sem dúvidas, o caminho mais rápido para o desencanto do mundo em que vivemos. A criança (ou adulto) que não acredita em Deus realmente é “velho demais” – ou “alguma coisa” demais, pelo menos – para acreditar em contos de fadas. Se estes ativistas ateístas fossem honestos, então, eles não teriam uma criança professando o seu ateísmo a uma criatura de contos de fadas. Eles a teriam sentada por si mesma, solitária e assustada, professando sua descrença para ninguém, porque isso é quem está lá, no fim das contas. E eles deveriam tirar aquele sorriso levado do rosto dela, porque sorrisos levados são um sintoma da mágica que existe neste mundo.

É claro, no fim, a propaganda mentirosa dos ateístas – prendendo uma criança nas armadilhas de um mundo encantado enquanto ela, na verdade, puxa a tomada de todo o encanto – é exatamente o que você esperaria. O que mais você pode fazer quando está vendendo um produto que leva a miséria e morte (Provérbios 14.12)?

[1] Letra da música “Santa Claus Is Coming To Town” (N. do T.)

[2] Em inglês, a expressão usada aqui é “for goodness’ sake” (uma tradução literal seria “pelo amor da bondade”). Essa expressão é frequentemente usada no lugar de “for God’s sake” (“Pelo amor de Deus”). (N. do T.)

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Traduzido por Daniel TC | Reforma21.org | Original aqui

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