O Futuro Rei

por Keith A. Mathison

Keith A. Mathison
Keith A. Mathison

O tema unificador de Isaías 6-12 é a vinda do rei Messiânico. Capítulos 6 e 12 limitam a subdivisão, com o capítulo 6 falando sobre o chamado e purificação de Isaías, e o capítulo 12 regisrando o canto da salvação entoado pela comunidade salva. A subdivisão começa com a morte do Rei Uzias, a personificação da casa de Davi. Os capítulos 7-11 então centram na vinda de uma monarquia santa e divina. Os dois reinos, o divino e o de Davi, vão no final das contas se unir no Rei Messiânico da casa de Davi. (7:14; 9:6-7; 11:1-10).

O chamado de Isaías é narrado em Isaías 6. O capítulo apresenta uma transição porque os capítulos anteriores levantam uma questão séria. Como o Israel pecaminoso e rebelde sempre é o centro das bençãos em todo o mundo (Is. 2:2-4)? O que será necessário para uma cidade que agora é descrita como “prostituta” (1:21) se tornar “cidade de justiça, cidade fiel” (1:26)? Na experiência pessoal de Isaías em ter a sua culpa tirada e o seu pecado expiado (6:7), achamos as primeira dicas para a resposta. A experiência de Isaías deve se tornar a experiência de Israel.i

No ano que o Rei Uzias morreu, Isaías tem uma visão que molda todo o curso do seu ministério (6:1-7). Isaías vê o Senhor assentado sobre um trono, cercado por serafins que continuamente cantavam: “Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória!” (6:3). A santidade de Deus é o ponto focal da visão de Isaías. A linguagem hebraica expressa superlativos por meio de repetições, mas esse é o único lugar do Antigo Testamento onde uma repetição tripla é vista. Como Motyer explica, é como se dissesse que “a santidade divina é de longe acima de qualquer coisa que a mente humana pode compreender que um ‘super-superlativo’ tem de ser inventado para expressá-la…”ii O impacto dessa visão em Isaías pode ser vista no domínio do tema da santidade em seu trabalho. De fato, o adjetivo “santo” é usado em Isaías mais do que é usado no restante do Antigo Testamento. iii

A comissão dada a Isaías é impressionante. Deus diz a Isaías, “Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo” (6:9-10). Através do ministério profético de Isaías, Deus vai prevenir o arrependimento do povo para que o julgamento venha. Eles já rejeitaram a verdade repetidamente. Agora passaram de um ponto sem retorno, e o julgamento é certo. No entanto, como o versículo 13 indica, julgamento não é a palavra final. Um renovo, ou remanescente, permanecerá.

O contexto histórico dos capítulos 7-12 é a ameaça a Judá causada pela aliança da Síria e Israel em 735 a.C. Essa coalizão antiassíria invadiu Judá, mas não pôde prevalecer (2 Rs 16:5; 2 Cr 28:5-8). Na segunda invasão a Judá, Síria e Israel determinaram substituir Acaz por um rei de sua própria escolha. (7:6; 2 Cr. 28:17). Porque Acaz está tentado a retornar à Assíria para obter ajuda (2 Cr. 16:7-9), Isaías chega dizendo que ele não precisa temer Israel e Síria e que deve confiar em Deus (7:3-9). A questão, como Motyer explica, é clara: “Acaz vai conseguir salvação pelas obras (política, alianças) ou por simples confiança nas promessas divinas?” iv

É nesse contexto que o Senhor oferece dar a Acaz um sinal da sua fidedignidade (7:10-11). Acaz finge piedade e recusa o sinal proferido (vv. 12-13). Aparentemente, ele já decidiu colocar sua confiança na Assíria, mas o Senhor mesmo assim promete um sinal nos versículos 14-17.

Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que o menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desamparada a terra ante cujos dois reis tu tremes de medo. Mas o SENHOR fará vir sobre ti, sobre o teu povo e sobre a casa de teu pai, por intermédio do rei da Assíria, dias tais, quais nunca vieram, desde o dia em que Efraim se separou de Judá.

Por causa da recusa de Acaz em confiar em Deus, o sinal não é mais um sinal solicitando fé. É um sinal confimando o desgosto de Deus.

O “vos” a quem o sinal será dado está no plural, sugerindo que o sinal será dado à casa de Davi (v. 13).v Também deve-se observar que o tempo do nascimento do Emanuel não é explicitamente citado no texto. O que as palavras de Isaías indicam é que assim que o Emanuel nascer, a ameaça existente apresentada por Israel e Síria vai passar antes mesmo de a criança estar ciente disso. De acordo com Mateus 1:18-23, o nascimento de Jesus através de Maria cumpriu essa profecia.vi Que isso é verdadeiro, podemos ter certeza. A questão continua, no entanto, se havia algum cumprimento preliminar ou inicial nos dias de Isaías.

As similaridades entre 8:1-4 e 7:14-16 sugerem que uma criança nasceu nos tempos de Isaías como um cumprimento preliminar da profecia. Em 7:14, Isaías diz, “a virgem conceberá e dará à luz um filho.” Em 8:3, Isaías diz que ele foi ter com a profetisa e “ela concebeu e deu à luz um filho.”vii Em Isaías 7:16, Isaías diz, “antes que este menino saiba…” Em 8:4, ele usa a mesma frase. viii Finalmente, em ambos textos, Isaías declara que algo vai acontecer a Israel e Síria antes de a criança atingir certa idade (“dois reis tu tremes de medo” em 7:16; “Damasco” e “Samaria” em 8:4). As similaridades entre esses dois textos não parecem ser coincidência. Isso parece indicar que, em certo sentido, a criança nascida da profetisa serviu como um tipo de cumprimento preliminar da profecia.

Depois de declarar que a nação a qual Judá confiou para libertação se voltaria contra Judá (8:5-10), e depois de chamar Judá a confiar em Deus (8:11-22), Isaías, de novo, aponta para a vinda do Messias (9:1-7). Versículos 2-3 descrevem a ilimitada alegria do povo. Essa alegria é por causa da libertação da opressão (v. 4), e essa libertação da opressão é por causa do final de toda guerra (v. 5). Mas como Deus vai terminar a guerra? Ele vai cumprir isso através do nascimento de uma criança (vv. 6-7).

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante juízo e a justiça, desde agora e para sempre. O zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto.

Essa profecia aguarda com expectativa o cumprimento final do sinal de Emanuel com a vinda de Jesus (Mt. 1:18-23). Como Motyer explica, “A perfeição desse Rei é vista em suas qualificações ao governar (Maravilhoso Conselheiro), sua pessoa e poder (Deus Forte), sua relação com seus súditos (Pai da Eternidade) e a segurança que o seu governo cria (Príncipe da Paz),”ix O reinado desse rei Messiânico não terá fim. Ele será o último rei que vai de uma vez por todas tomar o lugar de reis infiéis como Acaz.x O propósito criacional de Deus em estabelecer o seu reino na terra vai sem cumprido através do Rei Messiânico.

Notas

i John N. Oswalt, The Book of Isaiah: Chapters 1–39 (Grand Rapids: Eerdmans, 1986), 174–5.

ii J. Alec Motyer, Isaiah: An Introduction and Commentary, TOTC (Downers Grove, IL: IVP, 1999), 71.

iii É usado 33 vezes em Isaías e 26 vezes no restante do Antgo Testamento.

iv J. Alec Motyer, The Prophecy of Isaiah (Downers Grove, IL: IVP, 1993), 82.

v O hebraico é lakem, uma preposição com um sufixo pronominal masculino da segunda pessoa do plural

vi Muito debate há acerca do significado da palavra hebraica ‘almah, traduzida “desposada” na RA. Alguns argumentam que ‘almah simplesmente significa “uma jovem com idade para casar” e deveria ser traduzida  “jovem” porque se Isaías quisesse dizer “desposada”, ele teria usado o termo mais específico betulah. Não sabemos porque Isaías escolheu um termo em vez do outro, mas como Oswalt (The Book of Isaiah: 1–39, 210) demonstra, a tradução é apropriada. “Seria axiomático na sociedade hebraica que uma mulher fosse desposada.” Outros estudiosos também demonstraram habilmente a adequação da translação “desposada” (cf. Motyer, Isaiah: Introduction and Commentary, 78–9).

viiv Formas de harah, yalad, e ben ocorrem em ambos versos.

viii  A frase é  ki beterem yeda’ hanna’ar. O que a criança vai saber como fazer é diferente nos dois textos, mas em ambos, a habilidade é aquela aprendida normalmente em uma idade jovem.

ix Motyer, Isaiah: An Introduction and Commentary, 89.

x Brevard S. Childs, Isaiah (Louisville: Westminster, 2001), 81.

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Traduzido por Pedro Vilela | Reforma21.org | Original aqui

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