O monge que não era bom o suficiente

por Nathan Busenitz

Foi há pouco mais de 500 anos, no outono de 1510, que um monge Católico Romano desesperado fez o que ele pensava que seria a peregrinação espiritual mais importante de sua vida.

Ele havia se tornado monge cinco anos antes, muito para a surpresa e espanto de seu pai, que desejava que ele se tornasse advogado. De fato, foi em seu caminho para casa da faculdade de direito que esse jovem, então com 21 anos, se viu no meio de uma tempestade severa. Os relâmpagos eram tão fortes que ele tinha certeza que iria morrer. Temendo por sua vida, baseado em sua educação Católica Romana clamou por ajuda. “Santa Ana”, ele gritou, “poupe-me e eu me tornarei um monge!”. Quinze dias depois, ele deixou a faculdade de direito para trás e entrou em um monastério Agostiniano em Erfurt, na Alemanha.

O temor da morte o levou a se tornar um monge. E foi o temor da ira de Deus que o consumiu pelos próximos cinco anos – tanto que ele fez, de fato, tudo o que estava ao seu alcance para aplacar sua consciência culpada e ganhar o favor de Deus.

Ele se tornou o mais intransigente de todos os monges do monastério. Se dedicava aos sacramentos, jejuns e penitências. Chegou ao ponto de realizar atos de autoflagelo como ficar sem dormir, passar noites de inverno sem se cobrir para dormir e se chicotear, tentando pagar por seus pecados. Refletindo sobre esse tempo de sua vida, ele diria depois que “se alguém poderia conquistar o céu pela vida monástica, seria eu”. Mesmo seu supervisor, o chefe do monastério, se preocupava com o jovem se tornar muito introspectivo e consumido além da conta com as questões sobre sua própria salvação.

Mas as terríveis questões não iriam embora.

Esse jovem monge se tornou particularmente fixado no ensinamento do apóstolo Paulo sobre a “justiça de Deus” no livro de Romanos, especialmente em Romanos 1.17. Nesse verso, Paulo fala do evangelho: “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”.

Mas o entendimento desse jovem sobre o verso estava obscurecido. Lendo pela ótica da tradição Católica Romana, ele torcia o significado, pensando que ele teria que se tornar justo por seus próprios esforços para poder viver uma vida de fé. Mas havia um problema. Ele sabia que ele não era justo. Apesar de tudo que ele fazia para conquistar o favor de Deus, ele sabia que estava aquém do padrão perfeito de Deus.

Assim, como contaria mais tarde, ele passou a odiar a frase “a justiça de Deus”, porque via nela a sua própria condenação. Ele percebeu que se a perfeita justiça de Deus é o padrão (e é, obviamente), e se ele, enquanto homem pecador, não poderia alcançar esse padrão (obviamente, não poderia), então ele estava completamente condenado. Assim, frustrado e desesperado, se entrou ainda mais ferventemente às práticas estritas da vida monástica, tentando ao máximo conquistar seu caminho à salvação. E ele só ficava mais desencorajado e mais desesperado.

E foi assim que, cinco anos após se tornar um monge, no ano 1515, esse homem desesperado fez o que ele pensava ser a peregrinação espiritual de sua vida. Junto com outro amigo monge, viajou para o centro do poder e pensamento Católico – a cidade de Roma. Se alguém poderia ajudá-lo a acalmar a tempestade que se dava em sua alma, certamente seria o Papa, os cardeais e os sacerdotes de Roma. Além disso, ele pensava que se prestasse suas homenagens nos altares dos apóstolos e se confessasse lá, naquela santa cidade, ele asseguraria o maior perdão possível. Certamente essa seria uma forma de conquistar o favor de Deus. O jovem estava tão empolgado que, quando primeiro avistou a cidade, caiu de joelhos, ergueu as mãos e exclamou “Te saúdo, ó santa Roma! Três vezes santa pelo sangue dos mártires derramados aqui!”.

Mas em breve ele seria severamente desapontado.

Ele tentou se imergir no fervor religioso de Roma (visitando os túmulos dos santos, realizando atos ritualísticos de penitência, etc). Mas logo ele percebeu uma alarmante inconsistência. Ao olhar ao redor para o Papa, os cardeais e os sacerdotes, ele não via qualquer justiça. Pelo contrário, ele ficou perplexo com a corrupção, ganância e imoralidade.

Como o famoso historiador da igreja Philip Schaff explicou, o jovem ficou

chocado pela descrença, leviandade e imoralidade do clero. Dinheiro e vida luxuosa pareciam ter substituído a pobreza e abnegação apostólicas. Ele não via nada além de esplendor mundano na corte do Papa […], e ouviu sobre os escabrosos crimes dos [Papas anteriores], desconhecidos na Alemanha, mas proclamados livremente como fatos indubitáveis na memória recente de todos os romanos… Lhe foi dito que “se havia um inferno, Roma foi construída sobre ele”, e que esse estado das coisas iria colapsar em breve.

Um homem desesperado em uma jornada desesperada, tendo devotado toda sua vida em busca de autojustiça e legalismo e não encontrando, foi à Roma em busca de respostas. Mas tudo que encontrou foi falência espiritual.

Desnecessário dizer que Martinho Lutero deixou Roma desiludido e desapontado. Relatou que, em sua opinião, “Roma, outrora a cidade mais santa de todas, agora era a pior delas”. Não muito tempo depois ele iria desafiar o Papa abertamente, chamando-o de anticristo; condenaria os cardeais por serem charlatões; e iria expor a tradição apóstata do Catolicismo Romano pelo que havia se tornado: um sistema destrutivo de justificação por obras.

A viagem de Lutero a Roma foi um desastre. Apesar disso, foi parte crítica de sua jornada rumo à fé verdadeira e salvífica. Pouco tempo depois, o intransigente monge descobriu a reposta para seu dilema espiritual: se ele era injusto, apesar de seus melhores esforços, como ele poderia ser feito justo perante um Deus santo e justo?

Em 1513 e 1514, enquanto ensinava no livro de Salmos e estudava o livro de Romanos, Lutero chegou ao conhecimento da gloriosa verdade que estava oculta a ele por tantos anos: a justiça de Deus revelada no evangelho não é meramente o requerimento justo de Deus – do qual todos os homens estão aquém (Romanos 3.23) – mas também a provisão justa de Deus, na qual, em Cristo, Deus imputa a justiça de Cristo àqueles que creem (Romanos 5.1-20).

As palavras do próprio Lutero resumem a gloriosa transformação que essa descoberta causou em seu coração:

Finalmente meditando dia e noite, pela misericórdia de Deus, atentei ao contexto das palavras “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: ‘O justo viverá por fé’”. Então comecei a entender que a justiça de Deus pela qual vive o justo é um dom de Deus, pela fé… Aqui eu senti como se eu tivesse nascido completamente de novo e tivesse entrado em um paraíso cujos portões estavam finalmente abertos. Um lado completamente novo das Escrituras se abriu para mim… e eu exultava na doce palavra com um amor tão grande quanto o desprezo com que eu odiava o termo ‘justiça de Deus’.

Após uma vida de culpa, após anos lutando para se tornar justo por si mesmo, após tentar agradar Deus por suas próprias forças e após uma viagem desanimadora à Roma, Martinho Lutero finalmente entendeu o coração da mensagem do evangelho. Ele descobriu a justificação pela graça por meio da fé em Cristo; e, nesse momento, ele foi transformado.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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