O papado e os três ofícios de Cristo (1)

por Emilio Garofalo Neto

por Emilio Garofalo Neto
por Emilio Garofalo Neto

Há um novo papa. Se nos pautarmos pelo que a mídia vem falando e mostrando, encontraremos a ideia de um Papa humilde, conectado ao povo, sensível às mudanças dos tempos, etc e tal. Mas o quanto isso muda para nós protestantes? Será que agora protestantes devem considerar com carinho especial a possibilidade de voltarem para Roma e beijarem a mão de Francisco? Temo que não importa o quanto o Papa pareça ser bondoso, simpático e mesmo fã de futebol. Há algo mais sério em jogo.

Veja bem, é muito melhor  para o mundo ter um Papa que decide lidar com os problemas de pedofilia na ICAR¹ do que um que finge que não tem nada acontecendo. Mas será mesmo que agora há um papa humilde e a ICAR vai se tornar algo mais próximo do que cremos que a Bíblia ensina acerca da verdadeira igreja?  Em tempos de sucessão papal é comum a especulação acerca do novo cabeça da Igreja Católica Romana. Será alguém mais liberal? Irá recrudescer a igreja? Irá permitir o casamento dos clérigos? Será alguém de um país de terceiro mundo? Temo que estas são apenas mudanças cosméticas. Mudança verdadeira envolveria lidar com alguns dos maiores problemas da denominação. Envolveria lidar com o fato de que o Papado tenta rouba o papel de Cristo em seus três ofícios. É disso que vamos tratar hoje.

1. Três OFÍCIOS de Cristo e controvérsia protestante

A primeira coisa é entender o que a Bíblia ensina sobre seus ofícios. A ideia de um ofício é mais do que a de emprego ou posição na estrutura social; ofícios têm a ver com capacidades e mandatos de toda a humanidade; desempenhados especificamente no tempo e no espaço por homens escolhidos por Deus e ungidos para o serviço. Para organizar a situação de Israel  e fazê-la funcionar, Deus colocou na ordem do AT três ofícios que eram marcados por unção com óleo e faziam funções complementares: o profeta, o sacerdote e o rei. De maneira resumida, vale notar algumas coisas acerca de cada ofício:

Profeta – a boca de Deus. Aquele que era chamado pelo Senhor para pronunciar suas palavras de verdade e julgamento (e de vez em quando de previsão futura) acerca do mundo em que viviam e do povo de Deus. O profeta trazia a palavra de Deus para o mundo, gostando estes ou não. Seus pronunciamentos eram inerrantes por ser o próprio Deus falando.

Sacerdote – o intermediário entre Deus e o homem. Aqueles que eram chamados por Deus para habitarem em serviço de mediação, cuidando dos sacrifícios e de tudo o que estava envolvido nisto.

Rei – os líderes que protegiam, guiavam e lideravam o povo de Deus em sua caminhada peregrina nesse mundo.

Na Bíblia nós vemos alguns poucos personagens acumulando dois ofícios.  Deus mui sabiamente não permitia o acumulo dessas três funções; em alguns casos vemos pessoas com mais de um, mas não todos. Davi por exemplo, foi rei e profeta, mas não podia se meter a ser sacerdote. Inclusive, para proteger esta separação de poderes os reis vinham de uma tribo (Judá) e os sacerdotes de outra (Levi), de forma não haver acúmulo.²

Algo vital e bíblico é notar como Jesus é o ungido de Deus e que, em seu trabalho messiânico, acumula os três ofícios, sendo o zênite dos reis, profetas e sacerdotes.  Jesus é o Cristo, é o grande profeta, o sumo-sacerdote e o maravihoso rei. Cada ofício no AT era apenas uma sombra do que estava por vir na obra do cordeiro.³

Jesus é o rei que, por direito, é dono do universo e em sua obra recebe toda autoridade sobre céus e terra. Seu reino não é deste mundo, e seu reinado não terá fim.

Jesus é o profeta máximo. Não somente tudo o que ele disse é Palavra de Deus (afinal, é Deus falando), mas ele é a própria Palavra de Deus, o verbo da vida encarnado habitando entre nós.

Jesus é o sumo-sacerdote, que faz a oferta final pelo pecado, que ganha de uma vez por todas acesso para os que nele crêem chegarem perante o trono do alto céu. Ele é sacerdote e ele é oferta. Depois dele não há mais necessidade de intermediários.

Juntado tudo isso podemos concluir rapidamente que Jesus é tudo o que precisamos, sua obra é perfeita e completa. Cabe a nós como sua noiva, viver em resposta a isto e contar estas boas novas para quem quiser ouvir. Os que toparem se juntar ao grupo dos discípulos devem ser batizados e ensinados a viver em obediência amorosa a ele. Mas a obra dele está completa. Aí é que entra o problema e a controvérsia com Roma que não pode parar enquanto eles não desistirem desses erros. Pois a ICAR com suas instituições e ensinamentos busca tomar o que pertence a Cristo. Sobre isso falaremos no próximo post, amanhã.

 


¹ Igreja Católica Apostólica Romana, caso não tenhas percebido.

² Vale notar que em nossa democracia brasileira buscamos também seguir a ideia de separar as funções de poder de forma a limitar o dano e o perigo de abuso. O Salmo 110 explica como é que Jesus pode ser sacerdote mesmo não sendo da linhagem de Levi; ele pertence a uma ordem superior de sacerdócio, a linhagem de Melquisedeque. Leia um pouco mais sobre isso nesse artigo: 7 razões para não chamar músicos de “levitas”

³ Os pastores, como sub-pastores do rebanho de Cristo exercem funções que remetem a características de cada ofício. Ver o artigo O pastor como Profeta, Sacerdote e Rei

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