O papel da música na vida da igreja

por Rob Smith

O cristianismo é uma fé musical. Essa é uma das características pela qual os seguidores de Jesus são conhecidos ao longo da história e ao redor do mundo. Embora a quantidade de música tenha variado de acordo com a época e com o lugar, grande parte das igrejas de hoje dedicam cerca de um terço de seu tempo reunido ao canto congregacional e investem uma quantidade considerável de tempo, dinheiro, esforço e energia no aspecto musical da vida da igreja.

Mas por que nós cantamos? Qual é o objetivo do nosso canto? Que propósitos ele realiza? De acordo com a Escritura, Deus nos criou e nos chamou para cantar por três razões principais: para nos ajudar a louvar, para nos ajudar a orar e para nos ajudar a proclamar. Vejamos cada uma dessas razões:

1. Cantar nos ajuda a louvar

Não há como fugir do fato de que o canto é uma forma vital de louvor. Muito da Escritura (particularmente os Salmos) são prova disso. Não apenas eles conectam louvor diretamente com o canto, mas também falam frequentemente das dimensões verticais e horizontais do louvor, adoração e proclamação, praticamente de uma vez só. Considere, por exemplo, os primeiros versos do Salmo 96:

Cantai ao SENHOR um cântico novo; cantai ao Senhor, todas as terras!
Cantai ao SENHOR, bendizei o seu nome; proclamai a sua salvação, dia após dia.
Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas!
Porque grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado; temível mais que todos os deuses.

Enquanto o louvor não é reduzido apenas à música, o argumento desse e de outros Salmos não poderia ser mais claro. Nós cantamos para o Senhor, engrandecendo seu nome, e cantamos sobre o Senhor, declarando sua glória. E, claro, nós muitas vezes (se não sempre) fazemos ambos ao mesmo tempo. Pois mesmo quando estamos cantado sobre o Senhor para outros, ele está presente para receber nosso louvor. A importância de cantar os louvores de Deus é evidente no número de vezes que é ordenado na Escritura (por exemplo, Êxodo 15.21; Salmo 147.1, 7; 149.1, 5; Sofonias 3.14; Zacarias 2.10; Tiago 5.13). Embora a maioria dessas exortações estejam no Antigo Testamento, particularmente nos Salmos, as exortações de Paulo aos cristãos para que cantem os Salmos em conjunto (Efésios 5.19; Colossenses 3.16), esses mandamentos claramente ainda são relevantes.

Tais mandamentos são necessários porque o louvor sincero nem sempre é natural para o povo de Deus. Na verdade, há uma série de forças contra nós (sobrenaturais e terrestres, externas e internas), buscando nos desviar de dar a Deus o louvor que é dele por direito e que deve ser dado a ele em todas as circunstâncias – não apenas com as nossas vidas, mas também com os nossos lábios, não apenas ao falar, mas também em música. Assim, se não estivermos atentos a esse perigo, corremos o risco de privar Deus de seu louvor – talvez porque tememos parecer tolos ou tememos o que os outros podem pensar de nós ou da nossa voz. O resultado de se submeter a esses medos é que tendemos a nos conter, disfarçar nossa gratidão e talvez até não prestarmos atenção nas palavras que estamos cantando.

Claro, o antídoto não é ignorarmos os que estão ao nosso redor sem nos preocuparmos em como os afetamos. Na verdade, a vontade de Deus é que devemos considerar uns aos outros e adorá-lo de uma forma que os edifique (1 Coríntios 14.19). Mas a preocupação cristã pelo próximo está a um milhão de quilômetros de distância do temor do homem – um temor que é, em última instância, idólatra e egocêntrico. Assim, dado que é o propósito de Deus que o adoremos “de todo o coração” (Salmo 9.1, 86.12, 111.1, 138.1; Efésios 5.19), é imperativo que nós lembremos regularmente, a nós mesmos e aos outros, que Deus verdadeiramente merece nosso louvor (Salmo 7.17, 18.3, 177.1), que ele repetidamente demanda nosso louvor (Salmo 47) e que ele deseja o nosso louvor.

Esses lembretes são necessários para garantir que o Deus que não nos privou de nada, nem de seu próprio Filho, receba mais do que migalhas de nossa atenção e as sobras de nossa afeição. Porque ele merece, demanda e deseja nosso louvor de todo o coração, é nosso dever mais alto e maior alegria dá-lo a ele.

2. Cantar nos ajuda a orar

Pode não ter ocorrido a nós antes, mas cantar é (ou pode ser) uma forma de oração. O livro dos Salmos, novamente, é nosso maior exemplo, uma vez que uma grande proporção dos Salmos são, ou contém, orações (Salmo 3-8, 9-10, 12-13, 16-18). E, se há uma coisa que nós sabemos sobre como os Salmos funcionavam na vida do povo de Israel, é que muitas dessas orações eram cantadas – como foram criadas para ser. Mais do que isso, como já notamos, eles também eram cantados pela igreja do Novo Testamento (Efésios 5.19, Colossenses 3.16, Tiago 5.13).

Isso significa, então, que exortações a cantar os Salmos incluem o mandamento de cantar orações. O grande valor de cantar nossas orações é que a atividade de cantar nos ajuda a abordar as dimensões emocionais das verdades que estamos dizendo ou as petições que estamos rogando. Em outras palavras, cantar tem um papel crítico em nos ajudar a preencher o espaço entre os aspectos cognitivos e afetivos da nossa humanidade, e como muitos dos Salmos de lamento ilustram, em nos ajudar a processar nossa dor e emocional de forma que nos leva a louvar (Salmo 3, 7).

Cantar os Salmos, então, é uma coisa imensamente poderosa de se fazer. Não apenas estamos orando enquanto cantamos, mas estamos orando palavras divinamente inspiradas. Cantar essas palavras nos ajudam a abordar e expressar não apenas as dimensões conceituais das verdades que estamos articulando, mas suas dimensões emocionais também.

Mas, é claro, nós não precisamos nos restringir a cantar e orar apenas os Salmos. Não apenas há muitas outras canções baseadas na Bíblia (e muitas outras partes da Bíblia que podem ser cantadas como orações), mas as Escrituras não nos restringem a cantar e orar apenas a Escritura. Desde que estejamos cantando e orando de acordo com a vontade de Deus (conforme revelada na Escritura), estamos em solo firme. Assim, devemos nos sentir livres para usarmos o rico e histórico tesouro dos recursos musicais e litúrgicos desenvolvidos por gerações passadas para nos ajudar em nossas orações. Isso, é claro, inclui muitas traduções parafraseadas e metrificadas dos Salmos, assim como uma quantidade quase sem fim de hinários desde os primeiros de Isaac Watts.

Quando estamos cantando, também estamos orando – quer percebamos ou não. Estamos pedindo coisas a Deus em nossas músicas, tanto pessoalmente quanto corporativamente. Entretanto, claramente é bom para nós que estejamos conscientes do que estamos fazendo e do que estamos dizendo, para orar e cantar com nossas mentes completamente envolvidas (1 Coríntios 14.15). Então não se surpreenda quando alguém introduzir uma música no próximo Domingo dizendo “levantemos nossas vozes em oração ao cantarmos a próxima música”, pois muitas vezes é exatamente isso que estamos fazendo.

3. Cantar nos ajuda a proclamar

Além de ser uma forma de louvar e uma forma de orar, cantar também é uma forma de proclamar. Já falamos sobre isso antes, em relação à dimensão horizontal do louvor. Meu foco aqui, entretanto, é na música como uma forma de edificação mútua. Pois as Escrituras revelam que a palavra vivificadora de Cristo é ministrada ao povo de Deus não apenas pela leitura e pregação da Bíblia, mas também ao cantarmos “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Colossenses 3.16).

Evidentemente, isso não significa que a palavra cantada deve eclipsar a palavra proclamada, ou que a música deve substituir a leitura pública da Escritura ou sua pregação e ensino (1 Timóteo 4.13). Nem Jesus nem os apóstolos pregavam o evangelho cantando. Assim, a palavra cantada não rivaliza a palavra proclamada no ministério da igreja, mas deve funcionar como auxílio e complemento.

Ainda assim, o canto da Palavra de Deus (claro, desde que a Palavra de Deus esteja sendo cantada) é vitalmente importante e uma forma unicamente poderosa do “ministério da Palavra”. Esse fato nem sempre tem sido adequadamente reconhecido. De fato, muitos tem visto o canto congregacional como nada além de uma forma de fazer o sangue das pessoas ferverem para que possam ouvir com mais atenção a leitura e a pregação da Escritura.

Essa não era a visão do apóstolo Paulo. Ele enfatizou fortemente a função didática do canto congregacional. Pois, assim como louvor e oração, quando cantamos juntos, estamos instruindo e exortando uns aos outros. Isso também é claro em Efésios 5.19, onde Paulo fala de nos instruirmos e aconselharmos mutuamente por meio dos “Salmos, hinos e cânticos espirituais” (Colossenses 3.15-17).

Tal afirmação certamente faz do canto uma parte integral da vida e da saúde espiritual da igreja. Longe de ser um exercício de alongamento das pernas antes e depois do sermão, ele é, de fato, parte do sermão. É a parte em que todos nós pregamos – tanto para nós mesmos quanto para os outros.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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