O primeiro seminário

por Nathan Busenitz

A justificativa bíblica para a educação em seminário pode ser extraída de uma série de passagens: de Mateus 28.19 (enfatiza o ensinamento dos discípulos), 2 Timóteo 2.2 (enfatiza o treinamento de líderes) a Tito 1.9 (enfatiza os presbíteros sendo equipados para se articularem e defenderem a fé).

Mas há uma breve passagem em Atos a qual, eu acredito, provê um precedente bíblico para a educação em seminário de uma maneira particularmente perspicaz. Esses versos que, de primeira, podem não parecer muito significantes, mostram o apóstolo Paulo começando uma escola de treinamento teológico na cidade de Éfeso. Um comentarista explica: “Em Éfeso, Paulo abriu uma escola de teologia para treinar futuros líderes para o desenvolvimento da igreja na província da Ásia” (Simon J. Kistemaker).

Duvido que Paulo a tenha chamado de Seminário Teológico de Éfeso (não se confunda com a moderna ETS!), mas, em essência, é exatamente isso que ela era. O contexto era a terceira viagem missionária de Paulo (DC 53/53-56). Depois de deixar Antioquia e viajar pelas igrejas do sul da Galácia, Paulo foi até a cidade de Éfeso. Lá, ele encontrou mais ou menos uma dúzia de discípulos de João Batista, e introduziu a eles o Senhor Jesus Cristo, aquele para quem João apontava (Atos 19.1-7). Pegando a narrativa nesse ponto, Lucas escreve:

Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus. Visto que alguns deles se mostravam empedernecidos e descrentes, falando mal do Caminho diante da multidão, Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer diariamente na escola de Tirano. Durou isso por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos (Atos 19.8-10)

Como Lucas explica nos versos 9-10, Paulo se encontrou com um grupo de crentes em uma escola durante dois anos, dissertando sobre teologia. Isso, em essência, é o paradigma básico de uma educação em seminário.

Dessa curta passagem (8-10), três características do primeiro seminário podem ser extraídas. E, tentando evitar a distorção da narrativa do texto de Atos em uma prescrição normativa para a igreja contemporânea, eu acredito que essas características provêm um paralelo útil para aqueles que estão engajados na educação em seminário nos dias de hoje (seja como estudante ou como professor).

1. O Imperativo: um corajoso comprometimento com o evangelho (versos 8-9)

Atos 19.8 descreve o conteúdo da mensagem de Paulo – a mensagem que ele, sem dúvidas, continuou ensinando depois de ter saído da sinagoga e engajado os discípulos em uma educação teológica. O estudo do verso 8 demonstra que a mensagem de Paulo era contínua (“frequentou”), corajosa (“ousadamente”), cuidadosa (“dissertando”), cheia de convicção (“persuadindo”), e cristocêntrica (“a respeito do reino de Deus”). Ao manter o mandato de Deus dado a ele, Paulo fielmente entregou a verdade da salvação na sinagoga em Éfeso pelo período de três meses.

Como algo inevitável àqueles que são fiéis às verdades bíblicas, Paulo encontrou hostilidade. Sua mensagem foi controvertida (v. 9), não porque o apóstolo era combativo, mas porque a Palavra de Deus é sempre polarizadora. Comentando esse verso, Donald Grey Barnhouse explica:

Perceba a reação que Paulo recebia à sua pregação. Era sempre a mesma; alguns respondiam favoravelmente, mas a grande maioria era endurecida e desobediente em sua perspectiva. Paulo escreveu sobre isso em 1 Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Essa é sempre a resposta que qualquer pregação da Palavra recebe. Essa é a resposta que todo cristão recebe ao seu testemunho fiel da verdade de Deus.

O compromisso inabalável para com a verdade, em face à hostilidade, cria um precedente corajoso para aqueles que estão no ministério nos dias de hoje (seja na igreja ou no seminário). Muitas instituições cristãs são rápidas em suavizar a mensagem em favor do apelo popular. Mas o imperativo dado por Deus para qualquer pastor ou professor de seminário é de defender a verdade, não importando o quão tolo ou indesejável ela possa parecer para a sociedade ao nosso redor.

2. O investimento: concentração focada no treinamento (versos 9b-10a)

Impedido de continuar ensinando na sinagoga, Paulo retirou-se e começou a se encontrar com os discípulos em uma escola próxima (provavelmente uma sala de aula usada por um filósofo local cujo nome é Tirano). Everett Harrison lança mais luz à situação:

A nova localização de Paulo era a “escola de Tirano”. A palavra no grego é “scholē”, a qual denota, primeiramente, um local de lazer, seguida de discussão, ou palestra (a forma favorita de lazer entre os gregos); em seguida, um grupo que frequenta essas palestras e, finalmente, um local onde instruções eram dadas. O texto Ocidental [“Codex Bezae”], nesse ponto, faz uma adição iluminadora, dizendo que a atividade diária de Paulo nesse lugar ia da quinta à décima hora, ou seja, das 11h às 16h. Esse era o tempo de sesta entre os habitantes. Conjectura-se que Paulo pôde usar esse espaço por um preço razoável, pois ele não era usado nessa parte do dia.

O fato de Paulo se reunir diariamente por um período de dois anos mostra o tamanho do investimento pessoal que ele estava disposto a fazer para treinar seus companheiros crentes. Se o texto Ocidental está certo, as classes de teologia de Paulo aconteciam durante o tempo de cochilo da cidade (sugerindo que a realidade de seminaristas sonolentos tem uma longa história). O apóstolo sacrificou de bom grado seu descanso para instruir os discípulos, provavelmente por um método de ensino dialogal.

É interessante perceber que, se Paulo se reunia por cinco horas diárias com os discípulos, seis dias na semana, o tempo total com eles seria aproximadamente de 3 mil horas ao longo de dois anos. Também vale a pena perceber que Paulo se manteve financeiramente trabalhando como fazedor de tendas. F.F. Bruce explica:

Assim, podemos ver Paulo gastando sua manhã com o seu trabalho manual (20.34; 1 Cor 4.12), e, depois, devotando suas próximas cinco horas para o trabalho mais exaustivo da dialética cristã. Seus ouvintes devem ter se contagiado com seu entusiasmo e energia.

Uma observação final sobre “Tirano”, de quem a maioria dos comentaristas acha ser o local onde Paulo alugava a sala de aula (ou que era cedida a ele). Kistemaker nota o significado de seu nome: “Nós não temos mais conhecimentos sobre Tirano, cujo nome vem de tirania. Provavelmente esse era o apelido dado a ele por seus pupilos”. Se isso for verdade, o precedente do professor capataz também tem uma longa história.

De novo, Paulo dá um exemplo convincente para os professores contemporâneos de seminário considerarem. O apóstolo fez sacrifícios reais para treinar a geração seguinte de líderes cristãos. É um privilégio para nós poder fazermos a mesma coisa para a glória de Deus.

3. O impacto: uma contribuição honrosa a Cristo ao mundo (v. 10b)

Lucas conclui essa pequena seção comentando o impacto resultante da escola de treinamento de Paulo, em Éfeso: “dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos”. Paulo focou sua atenção no treinamento, e o resultado foi explosivo. De fato, um comentarista notou que “esse local, com suas discussões diárias no curso de dois anos, permitiu a Paulo ter a mais extensiva influência até então registrada em Atos”.

Como resultado dessa escola de treinamento, pastores foram treinados e igrejas plantadas. Bruce descreve o impacto com as seguintes palavras:

Dali em diante, a província da Ásia se tornou um dos principais centros do Cristianismo. Provavelmente as sete igrejas mencionadas em Apocalipse foram fundadas durante esses anos, além de outras também. A implantação de igrejas do vale do Lico, em Colosso, Hierápolis e Laodicéia deve ser datada nesse período: essas cidades não foram evangelizadas por Paulo pessoalmente, mas por seus companheiros de trabalho.

Kistemaker adiciona:

Nós assumimos que os estudantes treinados por Paulo se tornaram pastores de congregações em desenvolvimento no Ocidente da Ásia Menor… Esses discípulos foram instrumentos para a pregação do evangelho de Cristo, a qual é a Palavra de Deus, tanto para os judeus como para os gregos.

A escola de treinamento de dois anos de Paulo, pela graça de Deus, teve um inacreditável impacto no avanço do evangelho e na causa de Cristo. Como R.C.H. Lenski corretamente aponta:

Paulo usou Éfeso como um centro difusor. Enquanto ele se manteve nessa metrópole e centro político, ele foi o mais longe possível por meio de seus assistentes; o número de quantas pessoas ele envolveu nesse trabalho, nós não podemos estimar. Congregação atrás de congregação foram formadas.

De novo, o exemplo de Paulo provê para nós um convincente modelo a se considerar. Se seminários são fiéis ao imperativo dado por Deus e ao investimento com o qual foram confiados, eles podem se regozijar em ver Deus abençoar seu trabalho, usando Sua Palavra para impactar o mundo.

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Traduzido por Victor Bimbato | Reforma21.org | Original aqui

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