O que a história da criação ensina acerca de gênero e sexo?

por Colin Smothers

Você já ouviu esse argumento. Todo pastor de jovens na américa já o encontrou de uma forma ou outra, talvez no adolescente que diz sarcasticamente “Mas a Bíblia não diz nada sobre não fumar maconha!” E sendo estrito, o adolescente está correto. Pegue uma concordância e você vai sofrer pra encontrar um capítulo e verso que faça referência a algum dos temas mais intensos da cultura: “aborto”, “clonagem”, “armamento nuclear”.

Então, como o argumento geralmente segue, a Bíblia é inútil em formar julgamentos morais nesses assuntos. Mas, como todo pastor de jovens na américa já teve que dizer, essa visão capenga das Escrituras pode ser corrigida por um entendim correto da teologia bíblica.

Adolescentes são uma categoria à parte – eles ainda estão desenvolvendo o córtex prefrontal, afinal – mas este é essencialmente o mesmo nível do argumento adotado por Jay Michaelson em um artigo para o Daily Beast onde ele ridiculariza uma resolução recentemente adotada pelo Partido Republicano do Kansas a respeito de transgêneros. A resolução foi proposta por Eric Teetsel, diretor da Aliança de Políticas para Família no Kansas. Embora Teetsel tenha respondido claramente muito do argumento de Michaelson em outro espaço, eu gostaria de zerar um aspecto do que Michaelson diz. De acordo com Michaelson,

“A história da criação não diz nada a respeito de gênero. Perceba como o fim da resolução [sobre trasngêneros] fala sobre ‘O desígnio de Deus para o gênero ser determinado pelo sexo biológico’. De onde isso veio? Qual capítulo e verso?”

Pode parecer novidade pra você que “a história da criação não diz nada sobre gênero”.

Parece novidade porque você não está ciente das novas regras assumidas por Michaelson como uma conclusão precipitada: o abismo entre definições que aparentemente foi aberto recentemente entre os termos “sexo” e “gênero”. Esta divisão é crucial para entender as conversas culturais contemporâneas que giram em torno de gênero e sexualidade. Como Michaelson explica.

“Lembre-se, sexo não é o mesmo que gênero. Por definição, sexo está ligado aos cromossomos; gênero trata de práticas culturais. Sexo é o que tem entre nossas pernas; gênero é o que está entre nossas orelhas. Meu sexo masculino significa que eu consigo ter uma barba; meu gênero masculino significa que é socialmente aceitável que eu tenha uma barba – mas não é aceitável, em sociedades conservadoras, utilizar salto alto ou maquiagem. É claro, não há nada objetivamente masculino ou feminino a respeito de sapatos e roupas; eles são aspectos do gênero, e são uma construção social.”

Veja, há um núcleo de verdade neste argumento. Estritamente falando, há uma diferença conceitual entre realidades biológicas sexuais e sinais culturais de gênero. Mas citar esta diferença de definição como se ela apoiasse o argumento de que “a história da criação não diz nada sobre gênero” é enganoso. Michaelson quer que nós acreditemos que os autores bíblicos operavam debaixo do mesmo entendimento de categorias de “gênero” e “sexo” que os progressistas usam hoje. Mas não precisa de um PhD em estudos bíblicos para entender que a noção de “gênero” e “sexo” dos autores bíblicos é correlacionada – se é que havia uma distinção.

Em Gênesis 1.27 a Bíblia diz que Deus criou a humanidade “macho” e “fêmea”.
“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (N. do T.: quase todas as traduções em português trazem “homem e mulher”, mas as palavras em hebraico têm como primeiro sentido “macho” e “fêmea”)

Michaelson cita este verso para dizer, essencialmente, “Veja, a história da criação é sobre sexo (macho/fêmea) e não sobre gênero (masculino/feminino)”. Deixando claro, as palavras no hebraico para “macho” (zākār) e “fêmea” (nĕqēbâ) se referem à humanidade como sexualmente binária, com referências etimológicas sutis aos órgãos sexuais que distinguem machos de fêmeas, mas isso não significa automaticamente que essas palavras não tenham relação com a criação de Deus ser “masculino” e “feminino”.

A história da criação não acaba em Gênesis 1, mas continua no capítulo 2. Lá, nós lemos sobre Deus tirando uma costela do lado do Homem, Adão, e formando a Mulher, Eva. Ao ver Eva, Adão exclama:

“Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher (ishâ), porque do homem (îsh) foi tirada”.(Gen. 2.28)

Imediatamente após isso, o autor de Gênesis universaliza o princípio embebido na criação (binária) de Deus do homem e da mulher e na frase subsequente de Adão e, crucialmente, prende isso a um propósito, a razão por trás de Deus criar a humanidade binária:
“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.” (Gen. 2.29)

Aqui encontramos o mesmo verso que Jesus cita para basear sua definição de casamento, reafirmando assim a natureza atemporal da verdade de que Deus constriui no tecido da criação (Mateus 19.5, Marcos 10.7). Desta forma, o casamento é o caminho dado por Deus para atingir o seu outro propósito por trás da criação de uma humanidade binária, dado em Gênesis 1.28.

Assim, mesmo se cedermos às categorias definicionais de Michaelson por um momento, ainda teríamos que dizer que enquanto a história da criação em Gênesis 1 foque mais no sexo biológico, a continuação da história da criação em Gênesis 2 claramente fala de Deus criando a humanidade em dois gêneros correspondentes – necessariamente binários. Pois em Gênesis 2 lemos a respeito de Deus criar não meramente uma humanidade como “macho” e “fêmea”, mas como “homem” e “mulher” com papeis relacionais (conforme 1 Coríntios 11.9).

Quando lemos estas narrativas em conjunto, porém, como elas claramente deveriam ser lidas, a característica binária, inerente e coerente, da humanidade criada por Deus como “macho/homem” e “fêmea/mulher” fica clara e evidente. O que é o “homem”, senão o “macho” de Gênesis 1.27? E o que é a “mulher” — literalmente, “a do homem” — senão a correspondente “fêmea”? Deus cria machos para a masculinidade e fêmeas para a feminilidade — e rebelar-se contra isso é uma abominação (conforme Deuteronômio 22.5).

Longe da afirmação de Michaelson de que a história da criação não fala nada sobre gênero, em vez disso nós encontramos gênero – masculinidade e feminilidade – enraizados e entremeados na criação de Deus dos sexos macho e fêmea. A desunião entre gênero e sexo que é popular no discurso de hoje simplesmente não se encaixa na forma que a Bíblia fala a respeito de homens e mulheres. Kevin DeYoung nota um ponto similar ao escrever:

“Por mais que a academia contemporânea diga outra coisa, a Bíblia acredita em uma unidade orgânica entre o sexo biológico e a identidade de gênero. Por isso que macho e fêmea são (unicamente) o tipo de par que consegue se reproduzir (Gênesis 1.28, 2.20). Por isso que o homossexualismo – um homem deitarse com um homem como se fosse mulher (Levítico 18.22) — é errado. É por isso que o apóstolo Paulo pode falar de parcerias homossexuais como um desvio das relações naturais ou da função natural do intercurso sexual macho-fêmea (Romanos 1.26-27). Em cada instância, o argumento só funciona se houver uma equivalência assumida entre a biologia da diferença sexual e a identidade correspondente de macho e fêmea.”

São boas novas que Deus tenha criado a humanidade macho e fêmea. Nós não temos que sofrer debaixo da angústia existencial da auto-definição. É Deus quem nos define, e Deus nos criou e nos chamou macho e fêmea, homem e mulher.

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Traduzido por Daniel TC | Reforma21.org | Original aqui

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