O que é um sacramento?

por Michael Horton

Alguém o convidou para um novo culto, moderno, especialmente dirigido para quem tem vinte ou trinta e poucos anos. Identificando-se como parte da “rede” emergente, o grupo não se identifica como uma igreja (porque o termo igreja, como instituição, evoca más associações). Ela não se parece com qualquer igreja, mas mais como uma grande sala, com estações diferentes para diferentes atividades espirituais. Estas estações incluem, talvez, um labirinto de oração, incenso, ícones, e um copo e um pão em uma mesa. Eventualmente, alguém começa a falar enquanto a maioria das pessoas encontra o seu lugar em sofás e cadeiras. Este não é um sermão (sermão é algo muito hierárquico!), mas é uma conversa de coração para coração, tentando “conectar” cristãos e não-cristãos de uma maneira que é “vulnerável” e “autêntica” em contraste com o pragmatismo enlatado que eles conheciam nas mega-igrejas de sua juventude.

O cenário que estou descrevendo pode ser encontrado em centenas de reuniões a cada domingo. Muitas são não-denominacionais, mas outras são, pelo menos informalmente, ligadas a alguma denominação. Exaustos com os cultos que consideram inautênticos, muitos desses jovens estão sedentos por mistério e transcendência. Eles querem realmente entrar em contato com Deus e não apenas satisfazer as suas “necessidades sentidas”. Seus pais gostavam de iluminação do palco; já essas pessoas gostam de velas.

O pressuposto nesse quadro é que, já que a fé é uma relação direta e imediata com Deus dentro de nosso espírito, as formas exteriores não têm importância. Portanto, podemos fazer o que quisermos em adoração, conquanto a doutrina esteja correta. Neste cenário, nós muito facilmente escolhemos nossos próprios “meios da graça.”

Novas medidas?

Apesar de podermos concordar com algumas das lutas e impulsos dessa “geração” emergente, esse movimento pode tornar-se simplesmente outro verso do velho e cansado hino que poderíamos chamar de “Um Ode às Novas Medidas.” O revivalista do século XIX, Charles G. Finney, um presbiteriano que não gostava de quase tudo que definia a fé e a prática presbiteriana, rejeitou fortemente o ensino calvinista de que os seres humanos são totalmente incapazes de se regenerar. De acordo com Finney, nós não somos salvos da justa ira de Deus e enxertados na igreja visível de Cristo por uma obra sobrenatural do Espírito de Deus trabalhando através dos meios ordinários de graça, como a pregação do evangelho e a administração dos sacramentos. Em vez disso, dizia que a conversão “não é um milagre nem mesmo algo dependente de um milagre, em qualquer sentido, mas é o resultado filosófico do uso correto de meios” (“novas medidas”, como ele chamou), o trabalho de um evangelista de sucesso é encontrar “excitação suficiente para induzir o arrependimento.” Se a salvação está nas mãos do pecador, então, a conversão dos pecadores está nas mãos do evangelista.

A América é um mercado do desejo, uma loja do desejo do consumidor. A vida religiosa americana do “faça-você-mesmo” é um testemunho disso. Em nossa cultura, compras é uma terapia. Nós não somos tanto como o Peregrino percorrendo o seu caminho na comunhão dos santos em direção à Cidade Celestial, somos mais parecidos com turistas individualistas saltando da banca em banca na Feira das Vaidades. O movimento “emergente” critica a falta de autenticidade religiosa, mas exibe mais do que refuta essa tese. Seu líder mais visível, Brian McLaren (recentemente nomeado pela revista TIME entre os líderes evangélicos mais importantes), além de redefinir ou desafiar as doutrinas evangélicas fundamentais, diz que aprecia a visão “sacramental” de mundo do catolicismo romano. “Quando dizemos que há sete sacramentos, podemos começar a ver tudo como um sacramento em potencial”, escreve ele. Certamente, a teologia da McLaren é diferente da de Finney. Ao contrário do reavivalismo do passado, McLaren evita a abordagem sobre “inferno de fogo e enxofre.” Entretanto, assim como Finney, ele minimiza a gravidade do pecado como uma condição da qual nada menos do que o sacrifício vicário de Cristo pode nos redimir. A teologia de McLaren pode ser descrita como “Finney-light”. E a prática não pode ser separada da teoria. Como Finney, McLaren e muitos no movimento “emergente” parecem pensar que nós podemos decidir o que constitui um “meio de graça”.

Termos do homem versus Termos de Deus

Os reformadores protestantes reconheceram que se você começar com um “evangelho” centrado no homem, você vai precisar de métodos antropocêntricos. Mesmo os sacramentos ordenados podem tornar-se meios do esforço humano, ao invés de serem entendidos como meios da graça divina. Assim como Finney olhou para as “excitações capazes de induzir o arrependimento”, Roma ofereceu várias estratégias para obter a remissão dos pecados por meio da penitência. Os reformadores, por outro lado, reconheceram a lógica de Paulo em Romanos, especialmente o capítulo 10. Nesse capítulo, Paulo diz que há duas respostas para a pergunta: Como posso ser reconciliado com Deus? Uma resposta é “a justiça que é pelas obras”, a outra é “a justiça que vem pela fé em Cristo”. Uma se baseia o nosso zelo para guardar as coisas de Deus, a outra, sobre o zelo de Deus por nós e por nossa salvação.

Enquanto Paulo desenvolve seu argumento no capítulo 10 de Romanos, ele reconhece que a mensagem cria seus próprios métodos. A mensagem da justiça das obras procura maneiras de subir para trazer do alto a Cristo ou maneiras de ir às profundezas para trazê-lo para cima, enquanto a justiça da fé recebe a Cristo como ele já desceu para nós e onde ele promete estar presente para nós, para nossa salvação. Para a justiça das obras, a fé vem pelo esforço, para a justiça do evangelho, a fé vem pelo ouvir Cristo sendo proclamado. Para chegar a Jesus não é preciso pegar um avião para o último “avivamento”, nem ser alcançado na última cruzada ou moda espiritual, não é preciso peregrinar, jejuar e orar por isso, percorrer um labirinto, se curvar diante de ícone, ou seguir os mais modernos “princípios para a vitória.” Cristo nunca está mais perto de nós do que quando ele está realmente se dando a nós na Palavra pregada, no Batismo e da Ceia do Senhor.

Imagine que um rico benfeitor lhe prometeu um milhão de dólares para que você pudesse fazer uma cirurgia necessária para salvar a sua vida. Ele diz a você para encontrá-lo em um determinado local, onde vai dar-lhe o cheque. Um amigo te dá uma carona até o local, um canto pouco auspicioso, em uma parte abandonada da cidade, onde você encontra o bar designado. “Esse não pode ser o lugar”, você pensa, enquanto olha o letreiro de néon pendendo precariamente com letras faltando. Depois de entrar, você se senta num banquinho frágil e nota que seu copo está manchado com café e batom, o pires lascado, e que o serviço é terrível. Você olha ao redor e não consegue imaginar que qualquer pessoa vagamente parecida com um milionário poderia estar entre os fregueses. Então, quando você está prestes a sair, um homem em roupas surradas vai até a sua mesa e chama você pelo nome. Quando você o reconhece, ele desliza no banco e junta-se a você para uma refeição. Então, lá ele lhe oferece o cheque e você comemora sua nova amizade. Venha conhecer, este senhor tem frequentado este bar há anos, é o seu lugar preferido.

Como as nações idólatras, nós procuramos por “deus” em todos os lugares altos, mas o verdadeiro Deus habita os lugares baixos, quando e onde ele se comprometeu a estar presente para distribuir os seus dons durante uma pregação e uma refeição. Nós encontramos esse Deus-por-nós na cruz, sangrando e morrendo pelos pecadores, dificilmente o tipo de “coroação” que os discípulos estavam procurando em Jerusalém. Além disso, esse mesmo Deus mostra-se precisamente onde não esperamos encontrá-lo em nossas vidas, aqui e agora. Se nós fôssemos voar até ao céu para trazer Deus até nós, isso exigiria alguns meios muito poderosos; mas Deus vem até nós na fraqueza. Nós procuramos pela rota mais inteligente, o caminho que faz mais sentido “excitações suficiente para induzir o arrependimento”, mas Deus se recusa a ser encontrado por nós em nossos termos. Ele nos encontra nos termos dele.

Os Sacramentos

A igreja de Corinto era imatura, sempre à procura de um “super-apóstolo” para revelar algo mais espetacular do que o pouco promissor ministério do fraco Apóstolo aos gentios. No entanto, Paulo demanda: “O que você tem que você não recebeu? Mas, se você realmente recebeu, por que te glorias, como se não tivesse recebido?” (1 Coríntios 4:7). Em sua segunda carta, ele escreve, “Mas temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não nossa” (2 Coríntios 4:7). Tal como o benfeitor na minha ilustração, o poder reside na promessa de Deus para entregar seus dons quando e onde Ele quiser.

Não por causa de qualquer poder inerente ou astúcia, os sacramentos são meios de graça – e  não de graça geral, mas da graça redentora. A teologia reformada há muito nos incentivou a ver todo o mundo como um teatro da bondade e providência de Deus. Um magnífico pôr do sol, um lindo concerto, o sorriso de uma criança, uma refeição maravilhosa com os amigos e o abraço conjugal são sinais de cuidados gerais de Deus para todos os que ele criou. No entanto, este cuidado se estende igualmente aos crentes e não crentes (Mateus 5:45). Enquanto a revelação geral nos lembra do poder e majestade de Deus, o evangelho pregado comunica a graça salvadora de Deus. Deus está presente em todo lugar, em tudo o que ele fez, mas ele só está presente para salvar no lugar onde ele prometeu ir ao nosso encontro. Enquanto o Grand Canyon pode nos encher de espanto, a pregação de Cristo nos enche de fé. Respondendo à pergunta: “De onde vem essa fé?”, O Catecismo de Heidelberg (Pergunta 65) responde: “O Espírito Santo produz em nossos corações pela pregação do santo Evangelho, e a confirma por meio do uso dos santos sacramentos.”

Mesmo que Deus possa criar e confirmar a fé quando e como ele escolher, ele só tem prometido fazê-lo através dos meios que ele nomeou. Nos sacramentos, Deus reúne os sinais (água, pão e vinho) para as coisas significadas (regeneração, o corpo e o sangue de Cristo), a fim de entregar-nos a mesma promessa do evangelho anunciada por meio de sua Palavra, para que tanto ouçamos quanto vejamos que Deus é bom! O próprio Deus condescende à nossa fraqueza, colocando o selo real de seu pacto de graça. Como Edmund Clowney escreveu:

“Espalhar o significado sacramental sobre toda a criação dilui a sua força. Se tudo é sacramental, em seguida, o pão e o vinho já são sacramentos antes de sua consagração, e o mistério da Eucaristia difere apenas em grau de sacramentalidade de uma criação encarnada …. A revelação de Deus na natureza demonstra o “poder eterno de Deus e sua natureza divina” (Rm 1:20), fazendo com que toda a humanidade responda diante dele, mas a revelação especial de Deus em palavra e ação fornece os sinais do seu poder redentor” (The church, pp. 270-271).

Então, devemos tentar ser mais sábios do que Deus? Sabemos como melhor receber a Cristo e todos os seus benefícios? Quando saímos tentando escalar as alturas do céu para possuir a Deus como ele é em toda a sua majestade, em vez de simplesmente recebê-lo como ele desce até nós, estamos a fazer um bezerro de ouro. Isso é adorar a Deus em nossos termos, em vez adorá-lo em seus termos, é criar uma “experiência” com Deus, que podemos administrar e controlar com nossa tecnologia espiritual ao invés de aceitar humildemente o dom que Ele promete nos dar.

O que quer que nos alimente com a Palavra de Deus e nos guie por sua lei é útil. No entanto, estes não são, estritamente falando, os meios de graça. Muitas coisas são exigidas como deveres na vida cristã, e muitas outras coisas, mesmo não exigidas por Deus podem ser úteis. No entanto, estes não são, estritamente falando, os meios de graça, mas os meios de discipulado. Em outras palavras, eles são os meios adequados de nossa resposta a Deus, enquanto que a pregação e os sacramentos são os meios de Deus nos alcançar. O Catecismo de Heidelberg chama oração, por exemplo, “a parte mais importante da gratidão que Deus exige de nós” (pergunta 116). Oração é indispensável para a vida cristã, assim como a comunicação o é para um casamento frutífero. No entanto, a oração é a resposta da fé, enquanto a pregação e os sacramentos criam e confirmam a fé. Como meios de graça, sacramentos comunicam algo de Deus para nós, enquanto, em todos os exercícios de gratidão e obediência cristã, nós respondemos com amor a Deus e ao próximo.

Conclusão

Embora haja muitas coisas que o cristão deve fazer, nada que façamos pode comunicar graça para nós mesmos. Há, naturalmente, muitas coisas que devemos fazer para receber a Palavra de Deus e os sacramentos: vestir-se, ir à igreja, passar o dia meditando sobre as riquezas de Deus em Cristo. Mas a comunicação dessas riquezas é inteiramente um ato do próprio Deus, não nosso. A boa notícia é que Deus não só criou o seu caminho para nós na vida, morte e ressurreição de Cristo, mas que Ele também já determinou seu encontro conosco nesta presente era, no Sabbath semanal. Na verdade, o meio é a mensagem. “Portanto, uma vez que estamos recebendo um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de forma aceitável, com reverência e temor. Porque o nosso Deus é fogo consumidor “(Hebreus 12:28-29).

Traduzido por Gustavo Vilela | iPródigo. Texto originalmente publicado no jornal Evangelium, Vol 4, Edição 1. (Jan/Fev 2006)

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