O que o seu celular e as genealogias da Bíblia têm em comum

por Josaías Ribeiro Jr.

Josaías Jr.

Aconteceu que passei por uma situação inesperada esses dias. Um parente faleceu há algum tempo e algumas das pessoas responsáveis por cuidar dos bens que ele deixou são meus pais e primos. O herdeiro legal não quis um celular antigo do falecido e ele veio parar em minhas mãos. Aceitei porque meu aparelho anterior era tão bom que foi comprado por trinta reais (e eu ainda recebi de segunda mão).

O importante em tudo isso é que ontem gastei um tempo apagando os contatos do telefone e percebi que coisa estranha é a vida se desconsiderarmos Deus. Lá estava eu, retirando da memória do celular os nomes dos amigos e conhecidos de um homem morto. Deu muito que pensar. Minha mente voltou-se para as difíceis palavras de Tiago:

“Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo.” (4.14,15).

Meu tio morreu de repente. Foi inesperado e rápido. Eu não o via há anos e o reencontrei em um velório. Ele foi importante em minha infância, mas infelizmente o tempo passou e as ligações diminuíram. Talvez, se alguém perguntasse, ele diria que nosso último encontro acabaria sendo assim.

Por outro lado, o telefone é novo. Tinha no máximo 15 contatos. Provavelmente, foi comprado há pouco tempo. Ele esperava usar por um bom tempo, ou não colocaria aqueles nomes. Dificilmente, ele esperaria que o aparelho acabasse em minhas mãos.

Mas, afinal, o que toda essa melancolia e pieguice têm a ver com o título do texto?

Vamos falar um pouco sobre genealogia. Quase ninguém gosta muito delas, certo? Você sabe como é – aquela lista de nomes infindável que pulamos do nosso plano de leitura anual e ainda assim marcamos como “lido”. Aquele registro de palavras engraçadas que serve para brincadeiras do tipo “o nome do meu filho vai ser Azricão” (1 Cr 3.23). E, quando alguém leva a sério a brincadeira e batiza o filho com um daqueles nomes, elas  também servem como fonte infindável de bullying, trocadilhos e problemas para pedir pizza (Diálogo comum na minha vida: “Qual seu nome?”, “Josaías.”, “José Elias?”, “Júnior. Meu nome é Júnior.”)¹.

Apesar das dificuldades dessas enormes listas, quero dizer que elas são algo maravilhoso que Deus guardou para nós em sua Palavra. São o oposto da nossa lista de contatos, que desaparecem tão rápido quanto o vapor das nossas vidas.

As genealogias guardam os nomes que fizeram parte do povo de Deus.

Elas são a memória dos feitos e da fidelidade de Yahweh a Israel. E, por isso, me lembrei delas ao apagar aqueles nomes do celular. Sem a perspectiva da eternidade, aqueles relacionamentos e ligações gravados no telefone jamais aconteceriam novamente. Eles tornaram-se vapor.

Esses dias, minha namorada comentou sobre como o pai dela, por ter quatro filhas, poderá não ver seu sobrenome passar para as próximas gerações. Para nós, isso não parece tão importante, mas para um israelita era um dos maiores castigos. Não ter posteridade era como ser apagado pelo tempo. Não é sem motivo que os autores do Antigo Testamento ligam as palavras “nome” e “memória” o tempo todo.

Note como os conceitos são sempre paralelos, mesmo quando se fala do Senhor:

  • A memória do justo é abençoada, mas o nome dos perversos apodrecerá. (Provérbios 10.7)
  • A sua memória perecerá da terra, e pelas praças não terá nome.  (Jó 18.17)
  • O teu nome, ó SENHOR, dura perpetuamente, e a tua memória, ó SENHOR, de geração em geração. (Salmos 135.13)

Recentemente, assisti uma série de sermões sobre Rute. Uma lição que ficou veio da comparação velada que o autor do livro faz entre aqueles que procuram guardar seus nomes e aqueles que têm o nome guardado por Deus. Boaz abriu mão da conveniência para resgatar e cuidar de Rute e Noemi, e, com isso, preservar os nomes dos falecidos da família. Mas ele só pôde fazer isso porque o parente mais próximo de Noemi, que seria o responsável, não quis passar por essa inconveniência. Tudo isso está registrado no capítulo 4 de Rute. (Recomendo a leitura do livro todo.)

Qual o nome do resgatador que manteve vivo o nome de Elimeleque, falecido marido de Noemi? Boaz. Qual o nome daquele que se recusou? A Bíblia não registra. O autor deliberadamente o chama de “Fulano”. Simplesmente apagado.

Embora Boaz provavelmente tenha usado o verdadeiro nome do homem, o narrador parece indisposto a imortalizar o nome do parente – o mesmo que recusou-se a imortalizar o nome de seu falecido parente a fim de proteger sua família imediata… [ele] desaparece do palco da história da salvação. (Bruce Waltke) ²

As genealogias mostram a fidelidade de Deus a seu amigo Abraão.

As genealogias, como o celular do meu parente, lembravam os relacionamentos que foram mantidos e cultivados. Aqueles que não perderam o contato e continuaram a amizade. As pessoas que foram fieis na vida dele. Porém, quando meu tio se foi, tudo aquilo acabou. Ele não dará nenhum telefonema e seus amigos não ligarão mais para ele. Aquela lista tornou-se inútil. É possível que, em pouco tempo, ninguém se lembrará daqueles contatos. E assim é a vida “debaixo do Sol”.

Já as genealogias, por serem inspiradas pelo Espírito, são eternas. Os grandes feitos de Deus estão gravados naquelas listas também. Elas são tão importantes quanto os milagres, curas e ressurreições escritas em outros pontos da Escritura³.

As genealogias registram o cumprimento da promessa a Abraão de que nele seriam benditas todas as nações da terra. Cada nome naquelas listas aponta para a bênção que Deus concede sobre as linhagens de seu povo.

Elas são parte daquilo que Yahweh prometeu ao patriarca.

Serás o pai de muitas nações; e não se chamará mais o teu nome Abrão, mas Abraão será o teu nome; porque por pai de muitas nações te tenho posto; E te farei frutificar grandissimamente, e de ti farei nações, e reis sairão de ti; E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti. E te darei a ti e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em perpétua possessão e ser-lhes-ei o seu Deus. (Gênesis 17.4-8)

A Palavra de Deus dura para sempre e essas “listas de contatos” apontam para uma amizade que nunca acabou (Tg 2.23, 2 Cr 20.7).

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As genealogias apontam para os nomes que sempre fizeram parte do povo de Deus.

Esse ponto parece repetir o primeiro, mas repare no “sempre”. Você talvez pense: E eu? Eu não tenho um registro de genealogia na Bíblia! Não sou parte das promessas de Deus? E o seu futuro sogro, tão bondoso e cuidadoso com as filhas, que não terá o nome eternizado? (Aliás, não queria dizer, mas um dos culpados é você, Josa).

Se você abrir o último capítulo de Números, encontrará uma história interessante. Após a divisão da futura terra de Israel  entre as tribos, as filhas de um homem chamado Zelofeade chegam até Moisés e apresentam um problema. Elas poderiam perder a herança destinada ao pai delas, pelo fato de que um dia se casariam com outros homens e essa terra tornar-se-ia do possível marido.

Parece bobagem, mas não é. A terra também simboliza o cumprimento das promessas divinas; não era mero conflito de sem-terras – ter seu nome apagado significava perder a herança dada pelo Senhor. Quem não deixa herança? Quem não tem filho.

Mas o Senhor foi justo e gracioso, propondo uma maneira daquelas que não têm herança continuarem com elas. Elas deveriam casar-se com homens de suas tribos, assim nenhuma tribo tomaria a terra da outra, e o nome de Zelofade jamais seria apagado.

Embora as mulheres normalmente não herdassem propriedades na cultura do antigo Oriente, o pedido delas providenciou um meio pelo qual o nome de seu pai não desaparecesse da comunidade. (Iain M. Duguid) 4

O nosso nome nos garante a herança que Yahweh providencia para seus filhos – viver eternamente na Nova Criação, uma Canaã superior e sem fim. Como Boaz, ele nos resgatou e nos tirou do esquecimento. Ele nos garantiu uma família ao nos adotar e incluir-nos na genealogia de Abraão. Ele nos garantiu um novo nome, um nome eterno, ao nos chamar de Noiva de Cristo.

A boa notícia é que nascemos alguns séculos depois das genealogias serem registradas, mas nosso nome é conhecido e preservado. Deus guarda o nome e a memória de seus eleitos, assim como fará conosco. Não temos o nome em uma genealogia israelita, mas, em Cristo, temos os nossos nomes gravados no Livro da Vida do Cordeiro (Ap 21.27). E eles estão ali desde os tempos eternos (Ap 17.8).

Jamais seremos apagados.

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¹ Dei exemplo, mas meu nome não está em nenhuma genealogia. No máximo você encontra um “Josa”. (1 Cr 4.34)
² An Old Testament Theology, p. 859. Não por acaso, o verbo que traduzi como “imortalizar” é memorialize.
³Outra lição aprendida nessa série sobre Rute. Obriagado, Rev.Emilio pelas ideias.
4 Numbers: God’s Presence in the Wilderness, p. 364. Inclusive você ouviu falar desse homem por todo o esforço dessas moças, que o Espírito Santo agradou-se em registrar.

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