Onde e como traçamos a linha

por Kevin DeYoung

Kevin DeYoung
Kevin DeYoung

“No essencial, unidade. No não-essencial, liberdade. Em todas as coisas, caridade.”

Parece bom, mas qual é qual? Todos querem estar unidos no que realmente importa, concordar em discordar naquilo que não é tão importante e exercitar o amor em todas as coisas. Entretanto, ninguém parece concordar naquilo que é muito, um pouco, ou nada, importante. Por mais difícil que seja determinar o conteúdo da nossa fé, pode ser até mais difícil descobrir onde colocar nossos limites.

Essa questão de decidir onde e como traçar linhas doutrinárias é incrivelmente complexa. Eu não poderia começar a fazer toda a exploração bíblica, teológica, histórica e prática necessária nesse pequeno artigo. Mas, talvez, eu consiga traçar um esboço de algumas considerações importantes.

Nesse sentido, aqui estão sete passos que devemos seguir no estabelecimento de limites doutrinários. A explicação dos pontos vai ficar menor enquanto seguimos a lista.

1. Estabelecer quais são os pontos essenciais da fé. Esse é o passo mais crítico. Precisamos saber o que constitui o centro irredutível do evangelho apostólico. Um jeito para determinar os pontos essenciais é olhar para as Epístolas Pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito). Nessas cartas, Paulo fala muito sobre a importância da sã doutrina. Conseguimos uma boa indicação de quais doutrinas mais importam ao olharmos para as muitas categorias de passagens nas Pastorais.

Primeiro, temos as “fiéis palavras” (1 Tm 1.15; 3.1; 4.9-10; 2 Tm 2.11-13; Tito 3.4-8). Com a possível exceção do que é dito em 1 Timóteo 3, cada “fiel palavra” lida com salvação. Vemos muitas verdades interligadas: Jesus Cristo é o Salvador que veio para salvar pecadores. Salvação não vem por meio das obras, mas por meio da fé e da regeneração trabalhada pelo Espírito. Aqueles que verdadeiramente acreditam vão se dedicar às boas obras e perseverar até o fim.

Segundo, podemos olhar para as diversas formulações de credos (1 Tm 1.17; 2.5; 3.16; 6.15-16; Tito 2.11-15). Com esses versículos temos uma noção ainda maior do que constitui a boa formulação do evangelho. Só existe um Deus e ele é indescritivelmente glorioso. Só há um mediador, Jesus Cristo, que deu a sua vida por nós. Jesus é um grande Deus e Salvador que encarnou e que subiu aos céus. Ele está vindo de novo. Fomos salvos pela graça de Deus para que pudéssemos viver vidas santas.

Terceiro, Paulo se opôs a certas doutrinas associadas com o falso ensino (1 Tm 1.8-11; 4.1-3; 2 Tm 2.18; Tito 1.16). Esses erros se resumem a dois erros: legalismo e permissividade. Alguns falsos mestres estavam guiando as pessoas à perdição ao chamar escuridão de luz e insistirem que uma vida de pecado era consistente com o evangelho. Por outro lado, outros estavam empurrando um asceticismo doentio e impondo regras feitas por homens. Ambos ameaçavam o evangelho.

Quarto, temos um vislumbre de pontos essenciais da fé ao notar quais crenças são explicitamente ligadas ao evangelho e à sã doutrina (2 Tm 1.8-10; 2.8; 2 Tm 3.14-17). Vemos nesses versículos que a fé sadia é determinada por nossa fidelidade às Escrituras. Também vemos que o evangelho é a mensagem sobre Jesus Cristo que nos deu graça antes dos séculos começarem e nos salvou para obras e para imortalidade. Tudo isso é por causa da graça, não por causa das nossas obras, mas de acordo com os propósitos eternos de Deus.

A partir desses quatro conjuntos de passagens, podemos começar a traçar quais são os pontos essenciais: Deus é glorioso; somos pecadores; Jesus Cristo é o nosso Salvador e Deus. Jesus Cristo é o filho de Deus e Deus encarnado; ele morreu e ressuscitou; ele subiu aos céus; ele está vindo novamente. Salvação é pela graça soberana, de acordo com o poder de conversão do Espírito Santo, através da fé, não por meio de obras. As Escrituras são totalmente inspiradas e totalmente verdadeiras. Jesus Cristo nos salva do pecado, nos salva para a vida eterna, e nos salva para santidade. Qualquer evangelho que nega esses pontos essenciais – ou os ignora, ou os marginaliza, ou leva as pessoas a duvidarem deles, ou que se envergonha deles – é, na verdade, um evangelho diferente.

2. Atentar à comunhão dos santos. Tradição nunca deve triunfar sobre as Escrituras. Mas se amamos as Escrituras, vamos aprender através das tradições da igreja. Não somos as primeiras pessoas a ler a Bíblia. Não somos os primeiros que tem a Bíblia para nos ajudar. Deus tem trabalhado ao longo dos séculos para moldar e proteger a verdade por meio de sua igreja (1 Tm 3.15). Isso significa que devemos ser mais cuidadosos antes de acreditar em algo que quase nenhum Cristão tem acreditado (como a bondade da homossexualidade) e extremamente hesitantes antes de rejeitar algo que quase toda a igreja tem aceitado (como a realidade do inferno). Da mesma forma, devemos ser menos dogmáticos sobre assuntos que tem dividido Cristãos por séculos (como o milênio ou a natureza dos dias da criação).

Credos antigos como o Credo Apostólico, o Credo Niceno, e o Credo da Calcedônia não são infalíveis, mas servem como trilhos eficazes, mantendo o povo de Deus no caminho da verdade. Seria preciso uma ideia (ou orgulho) extraordinária para descartar essas fórmulas antigas. Elas provêm resumos fiéis das mais importantes doutrinas de fé. É por isso que quando o Catecismo de Heidelberg questiona “Em que um cristão deve crer?”, ele se refere ao Credo Apostólico, “um credo além da dúvida, e confessado pelo mundo” (Perguntas 22 e 23).

Semelhantemente, Calvino diz (em um comentário passageiro) que os “princípios da religião” incluem: “Deus é um; Cristo é Deus e o Filho de Deus; nossa salvação descansa na misericórdia de Deus” (Institutas 4.1.12). John Owen fornece uma lista semelhante, dizendo que “os fundamentos principais da religião Cristã” declaram “o Senhor Cristo como o Filho de Deus eterno, com o uso da eficácia da sua morte, como também da subsistência pessoal e deidade do Espírito Santo” (Obras 15.83). Mais tarde, ele expande a lista ao incluir: crer em Deus Pai, procurar por salvação somente em Cristo, professar obediência a ele, crer que Deus o ressuscitou da morte, insistir na santidade pessoal e em “muitas outras verdades sagradas de mesma importância” (84). Essas pequenas declarações – e elas são muito pequenas! – confirmam que estávamos no caminho certo com as nossas declarações resumidas no ponto um.

3. Diferenciar entre a teologia de pouso e teologia de lançamento. Algumas doutrinas representam diferentes conclusões alcançadas a partir de basicamente as mesmas premissas. Outras doutrinas são pontos de partida que nos levam a uma trajetória muito diferente. Por exemplo, a diferença entre pós-milenismo e amilenismo não é uma diferença acerca de coisas primordiais. Os dois lados simplesmente discordam sobre como melhor interpretar alguns textos em disputa. É uma questão de teologia de pouso. Por outro lado, a doutrina das Escrituras (para dar apenas um exemplo) lança toda uma teologia. Entenda errado essa doutrina e estaremos fadados a bagunçar com todo o resto.

4. Diferenciar entre o ensino explícito da Escritura e a aplicação dos princípios da escritura. A Bíblia claramente ensina que os pais treinam os seus filhos no caminho do Senhor. É menos claro como fazer isso. A Bíblia não responde definitivamente a questão da escola pública, escola Cristã, ou ensino doméstico. Cristãos diferentes chegam a diferentes conclusões baseados em bons princípios Cristãos. Fazer a Bíblia falar de forma dogmática sobre esse assunto é forçar a Bíblia a entrar em todo tipo de anacronismo.

5. Diferenciar entre a existência da igreja e a saúde da igreja. Perca certas doutrinas e você não tem mais uma igreja. Perca outras doutrinas e a sua igreja não é tudo o que deveria ser. Ainda é um problema a ser corrigido, mas você pode exercitar paciência e gentileza até chegar lá.

6. Evitar controvérsias tolas. Esse é outro tema comum nas Epístolas Pastorais (1 Tm 1.4-6; 4.7; 6.4, 20; 2 Tm 2.14, 16, 23; 4.4; Tito 1.14; 3.9). Algumas disputas doutrinárias valem a pena, enquanto outras são apenas tolice. Devemos ficar longe de discussões teológicas que são especulativas (vão além das Escrituras), vaidosas (mais sobre estar certo do que ser útil), sem fim (nenhuma resposta real é possível ou desejada), e desnecessárias (meramente semântica).

7. Levar em consideração áreas de desacordo, especialmente em lidar com a “bagagem da conversão.” O Apóstolo Paulo é mais flexível quando se trata de tradições dos novos convertidos. Ele deseja que os Cristãos se convençam em suas próprias mentes acerca de certos dias e comidas (Rm 14.5). Isso não é porque Paulo não sabe o que pensar. Ele sabe que esses hábitos externos não são necessários. Não podemos insistir neles. Ele está disposto a deixar outros a continuarem neles para assim não violar a consciência. Você pode saber que beber álcool e comer carne nas Sextas durante a quaresma é perfeitamente normal, mas não vale a pena perturbar Cristãos sinceros que continuam a ter problemas com tais práticas.

Acima, ao redor, e em todos esses passos devemos exercer amor – amor por Deus, amor pelo vizinho, amor pela verdade, e amor pela igreja. O objetivo de traçar linhas não é estar certo ou até mesmo ser corajoso. O objetivo é amarmos Deus ao proclamar e proteger sua palavra e amar outros ao colocar cercas para manter longe os lobos e nutrir os pastos verdejantes. O difícil trabalho de colocar limites não deve ser ignorado. Deus nos dá a tarefa para a sua glória e para o nosso bem.

 

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Traduzido por Pedro Vilela | Reforma21.org | Original aqui

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