Protestando contra o PL-122: algumas reflexões

por Josaías Ribeiro Jr.

Josaías Jr.

Sim, moro em Brasília há mais de 25 anos. Logo, não podia protestar na época das Diretas Já. Além disso, nunca fui em posse de presidente – nem do Collor, nem do FHC, nem do Lula, nem da Dilma. Também não estive entre os caras-pintadas (tinha que matar aula) ou aqueles que recentemente protestaram contra Arruda e companhia. Apesar de ser criado em universidade pública, o movimento estudantil nunca me interessou (felizmente).

Antes que me acusem de alienado político, acrescento a denúncia de ser um alienado esportivo. Não apareci na Praça dos Três Poderes quando a Seleção do Tetra estava lá. Nem quando a Seleção do Penta nos visitou. Vai ver o problema são multidões.

Assim, foi com surpresa que na noite de terça (31 de maio) senti um impulso de participar da manifestação pacífica contra a malfadada PL-122 que, creio eu, dispensa apresentações. Na quarta (1º de junho, dia do protesto), essa sensação aumentou ao perceber que irmãos e não-irmãos de outros estados viriam para cá, a fim de defender a nossa liberdade de expressão. Como eu ficaria de fora? Também pensei que seria importante compartilhar com vocês, leitores que ficaram em casa, o que vimos por lá e o que aprendemos… :-)

Então, chamei o Rafael Bello e nos encontramos no meio dos ministérios, no início da manifestação. Observamos, refletimos, encontramos amigos e colaboramos um pouquinho com a multidão de 20 mil pessoas que cantavam e gritavam em frente ao Congresso Nacional.

“Não vamos mudar o coração deles…”

Oração no início

Logo no início encontramos um amigo, o Pr. Rosther, da Igreja Presbiteriana do Guará II (DF), que participou de um Pródcast conosco, sobre a doutrina da Depravação Total. Na conversa, ele nos lembrou de algo vital: apesar de ser importante manifestar-se, não vamos mudar o coração das pessoas com um protesto. Nem uma decisão política significará uma vitória sobre o pecado que habita em cada um de nós.

Ora, como participar de uma manifestação sabendo disso? Ele estava certo. Não somos nós que provocaremos essa mudança, é o Espírito Santo. E o método que o Espírito usa é o anúncio das boas novas de Cristo Jesus. Sem isso, não há trio elétrico, multidão, Silas Malafaia ou abaixo-assinado que corrija as tendências pecaminosas de um senador não regenerado. Então, por que fazer isso?

Alguns motivos:

  1. Pela graça comum e pela providência, Deus pode levar aqueles homens e mulheres a mudarem de posição – às vezes, pelo uso de uma argumentação, às vezes pelo interesse egoísta de não perder votos. Até mesmo a manifestação pode ser usada para levá-los a esperar o tal “momento político” para propor novamente. E quem sabe esse momento nunca apareça para eles.
  2. Pelo chamado profético que temos. No Antigo Testamento, Deus levantava os profetas para que eles exortassem reis e sacerdotes a mudarem seus caminhos. Na Nova Aliança, Cristo mostra-se o Profeta que Deus prometeu ao seu povo (Dt 18.18) e ele está atento à corrupção e abuso de poder das autoridades. Em Cristo, somos chamados a exercer essa mesma função – alertar nossos governantes sobre suas decisões e chamá-los a praticar misericórdia e justiça.
  3. Para mostrar à nossa nação que existe, sim, oposição a essa lei. O aluno de comunicação social já ouviu a expressão “Espiral do silêncio”. Explicando toscamente, essa teoria diz que a opinião das pessoas pode mudar ou tende para aquelas que elas consideram dominantes. Assim, se a população indecisa ou silenciosa observar que existe um grupo maior que se opõe a esse projeto de lei (que, às vezes, parece tão certo e correto), há chance de que essa tal “espiral” seja eliminada e mais cidadãos se levantem contra a PL-122.
  4. Pela responsabilidade como cidadão. Esse projeto de lei vai contra nossa constituição, em especial contra a liberdade religiosa e de expressão. Todo brasileiro, evangélico ou não, deveria preocupar-se com uma proposta do tipo.

Irmão, aliado ou o quê?

Em seguida, algo que nos deu o que pensar foram os chamados “líderes evangélicos” comandando o evento. Muitos deles defendem doutrinas e práticas questionáveis ou estranhas ao Evangelho – certamente já criticadas aqui no próprio iPródigo. A escolha de algumas músicas também não foi das melhores, por não exaltarem Cristo e apresentarem letras que mais confundem que explicam o Evangelho.

Além disso, havia forte presença católica no local, a ponto de um padre discursar em um dos trios (e suas palavras pareceram mais ortodoxos que da maioria dos evangélicos). E personagens como o deputado Bolsonaro? Deveríamos aliar-nos a ele como nosso porta-voz? Antes do protesto, vimos algumas pessoas tirando fotos com ele, como se fosse um exemplo, uma celebridade, ou algo do tipo.

Antes de falar mais, deixo claro que creio que a maioria das pessoas ali era crente no Senhor Jesus, verdadeiramente regenerados. Nesse texto, não pretendo criticar qualquer pastor ali, mas é fato que boa parte deles prega algo que não tem Cristo e sua obra como centro, o que é bastante perigoso.

Afinal, Como lidar com isso? Devemos nos juntar àqueles que não pregam o verdadeiro Evangelho? A união com católicos, espíritas e partidos “de direita” é aceitável? Podemos considerá-los irmãos, aliados?

A resposta me parece vir de um texto de Francis Schaeffer. Ele usa a expressão “cobeligerantes”, isto é, aqueles com quem batalhamos juntos contra um inimigo comum.

Se há injustiça social, diga que há injustiça social. Se precisamos de ordem, diga que precisamos de ordem… Mas não alie-se como se você estivesse em um desses campos: Você não é aliado de ninguém. A igreja do Senhor Jesus Cristo é diferente de tudo – totalmente diferente.

Confesso que me surpreendi pela maneira como aqueles homens promoveram a manifestação. Fora alguns casos de demagogia (com frases de efeito e pedidos para fazermos gestinhos, por exemplo), os líderes conseguiram apresentar de maneira clara seus argumentos. Assim, não creio que em casos como esses haja a necessidade de fazermos um movimento protestante paralelo. Contra a injustiça que se levanta, podemos temporariamente unir-se a grupos que não professam o Evangelho de maneira clara (ou mesmo de maneira alguma). Tudo isso, sem nos esquecermos de que é a mensagem de Cristo que trará transformação.

Pelo Evangelho

Grupo em defesa dos homossexuais

Alguns veículos de comunicação deram atenção a um pequeno grupo que protestava contra a manifestação. Cerca de 30 defensores dos direitos homossexuais carregaram faixas, gritaram e deixaram sua opinião. Nem cheguei a ver o grupo, de tão pequeno que era no meio daquela multidão. Soube que eles estavam lá porque um amigo fotografou. Porém, percebi que existe uma tendência em nós de talvez menosprezá-los, diminuí-los ou mesmo odiá-los.

Não fazemos isso porque somos homofóbicos (uma expressão viciada que praticamente perdeu o significado). Fazemos isso porque convivemos com nossa velha natureza, que se recusa a nos deixar. No calor dos argumentos, no clima de vitória que a multidão traz, na sensação de que somos mais santos, podemos nos esquecer de que temos em comum com aquele pequeno grupo o pecado. É verdade, o Espírito vence a carne. Mas nascemos com isso e só seremos totalmente libertos na morte.

A igreja de Cristo é diferente de tudo porque ela não é formada por ideologias, mensagens ou doutrinas humanas. Ela existe porque Deus decidiu, Cristo nos redimiu e o Espírito aplicou a obra do Filho em nossas vidas. Tudo vem dele, e sem ele, somos apenas pecadores. Como podemos esquecer-nos disso ao olhar para um outro grupo de pecadores? Somos dependentes da graça, e devemos ser graciosos também. Somos todos pobres de espírito, e precisamos do Evangelho.

No fim das contas, não é contra o PL-122 ou homossexuais que lutamos. É por Cristo.

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