Quando a moralidade acaba

por Albert Mohler Jr.

Qualquer civilização requer um conjunto estável, racional e consensual de regras morais para sobreviver. A civilização ocidental foi construída sobre a moralidade cristã, e a assim chamada “ética judaico-cristã” proveu os princípios morais que são a base da lei, da ética e até dos nossos impulsos.
Nas últimas décadas, esse esses princípios têm estado sofrido pesados ataques de seus oponentes ideológicos, subvertidos pela secularização das elites, e cada vez mais esquecidos pelas massas. Em seu lugar, a moral e o senso comum de muitos americanos têm sido uma grande mistura de intuição, questões ideológicas e afirmações culturais. Enfim, isso é o que Philip Rieff chamou de “o triunfo do terapêutico”. Quando a moralidade acaba, o que resta é a terapia.
Isso tem chamado a nossa atenção por conta da repercussão do massacre em Fort Hood, no Texas. Descobriu-se que o major Nidal Malik Hasan, preso por matar a tiros 13 pessoas e ferir várias outras, estava gritando “Allahu Akbar” (Deus é Grande) enquanto atirava, tinha ligações com extremistas islâmicos do Yêmen, e costumava visitar a mesquita que era freqüentada pelos terroristas do 11 de Setembro. E muitos outros detalhes de seu passado e de suas motivações têm vindo à tona nos últimos dias. Há muitas evidências que o major Hasan, um médico e psiquiatra, forneceu muitas evidências para suas motivações.
O papel que a sua fé muçulmana desenvolveu nesse ato requer muito mais tempo para ser estudado. Haverá muito tempo para pensar sobre isso durante seu julgamento. Nesse meio tempo, percebemos várias tentativas de alguns observadores de absolver o major Hasan, independente de quais foram suas motivações, da responsabilidade moral pelo massacre.
Escrevendo para o The Wall Street Journal, Dorothy Rabinowitz descreveu o tipo de fuga moral que os agentes da terapia agora tentam substituir por qualquer tipo de argumento moral:
O teor e o tipo desse argumento foram bem demonstrados pelo apaixonado Dr. Phil, que nos leva a pensar “o quão fora da realidade você precisa estar para matar seus compatriotas Americano… esse não é um ato saudável.” E o quão fora da realidade está essa pergunta, alguém pergunta de volta – não só ao Dr. Phil, mas a toda a legião de comentaristas que, como ele, estão imersos nos labirintos da caça a motivações, mesmo quando os menores detalhes das inclinações do major Hasan estão cada vez mais claras e abertas.
Matar compatriotas americanos – tantos quanto possível, desarmados e nas mais indefesas circunstâncias, gritando “Allahu Akbar”, requer, obviamente, apenas ódio homicida – o tipo de pré-disposição, que foge aos doutores Phi l de nosso tempo, como sendo motivação para chacinas desse tipo.
Isso não é um ato saudável? Matar apenas uma pessoa a sangue frio seria um “ato saudável”, Dr. Phil? Será que nosso discurso moral agora está limitado a descobrirmos o que alguns psicólogos ou psiquiatras consideram atos saudáveis ou não? Isso é tudo que nós podemos dizer após uma chacina assim?
O colunista Charles Krauthammer descreveu o mesmo fenômeno no The Wahington Post. Krauthammer, que é psiquiatra, ficou indignado ao ver que tantos comentaristas e líderes nacionais respondendo ao massacre sugerindo que o major Hasan é vítima de algum tipo de stress pós-traumático causado pelo retorno das tropas do Iraque e do Afeganistão.
Ele escreveu:
Sério? E os doutores e enfermeiras, conselheiros e terapeutas médicos do Centro Médico Militar Walter Reed, que todo dia ouvem e convivem com a dor e o sofrimento de soldados que voltam da guerra? Quantos deles pegaram armas e atiraram em 51 inocentes?
E os psiquiatras civis – não os de Upper West Side que tratam os neuróticos à là Woody Allen, mas os milhares de doutores que trabalham com psicóticos hospitalizados – que todo dia ouvem não só histórias, mas clamores da mais excruciante angústia, do mais inimaginável tormento? Quantos desses doutores praticam assassinatos em massa?
Rejeitando esse escape, Krauthammer escreveu exasperado: “Já se vão décadas desde que comecei a praticar a psiquiatria. Talvez eu não tenha sido contaminado por essa epidemia”.
Tornar chacina em patologia é um grande escape moral. Substituir a moralidade por uma cosmovisão terapêutica não vai funcionar. Krauthammer explica:
Patologizar uma chacina não apenas absolve. Ela transforma o assassino em uma vítima, até mesmo simpática. Afinal de contas, essa síndrome de stress pós-traumático secundária, para aqueles que acreditam nela (você não vai encontrá-la no DSM-IV-TR, o Manual Estatístico de Diagnóstico da psiquiatria), é conhecida como “fadiga amorosa”. Coitado – foi levado ao extremo por excesso de sensibilidade.
Devemos ouvir com bastante atenção as conversas ao nosso redor – particularmente aquelas dos formadores de opinião. Krauthammer e Rabinowitz oferecem avisos muito necessários. É perigoso ignorar essas coisas.
A mentalidade terapêutica é tudo o que resta quando as bases morais são abandonadas. Nenhuma civilização sobrevive a essa fuga da responsabilidade moral. Doença não é um substituto adequado para o mal. Patologizar a moralidade significa o fim do certo e do errado como categorias que importam.
Resta-nos apenas o Dr. Phil, e sua preocupação que um massacre não é um “ato saudável”. Se for só isso que podemos dizer – ou mesmo a primeira coisa que podemos falar – nós não somos uma sociedade saudável.
Albert Mohler
Albert Mohler

A fuga terapêutica

Qualquer civilização requer um conjunto estável, racional e consensual de regras morais para sobreviver. A civilização ocidental foi construída sobre a moralidade cristã, e a assim chamada “ética judaico-cristã” proveu os princípios morais que são a base da lei, da ética e até dos nossos impulsos.

Nas últimas décadas, esses princípios têm sofrido pesados ataques de seus oponentes ideológicos, subvertidos pela secularização das elites, e cada vez mais esquecidos pelas massas. Em seu lugar, a moral e o senso comum de muitos americanos têm sido uma grande mistura de intuição, questões ideológicas e afirmações culturais. Enfim, isso é o que Philip Rieff chamou de “o triunfo do terapêutico”. Quando a moralidade acaba, o que resta é a terapia.

Isso tem chamado a nossa atenção por conta da repercussão do massacre em Fort Hood, no Texas. Descobriu-se que o major Nidal Malik Hasan, preso por matar a tiros 13 pessoas e ferir várias outras, estava gritando “Allahu Akbar” (Deus é Grande) enquanto atirava, tinha ligações com extremistas islâmicos do Yêmen, e costumava visitar a mesquita que era freqüentada pelos terroristas do 11 de Setembro. E muitos outros detalhes de seu passado e de suas motivações têm vindo à tona nos últimos dias. Há muitas evidências que o major Hasan, um médico e psiquiatra, forneceu muitas evidências para suas motivações.

O papel que a sua fé muçulmana desenvolveu nesse ato requer muito mais tempo para ser estudado. Haverá muito tempo para pensar sobre isso durante seu julgamento. Nesse meio tempo, percebemos várias tentativas de alguns observadores de absolver o major Hasan, independente de quais foram suas motivações, da responsabilidade moral pelo massacre.

Escrevendo para o The Wall Street Journal, Dorothy Rabinowitz descreveu o tipo de fuga moral que os agentes da terapia agora tentam substituir por qualquer tipo de argumento moral:

O teor e o tipo desse argumento foram bem demonstrados pelo apaixonado Dr. Phil, que nos leva a pensar “o quão fora da realidade você precisa estar para matar seus compatriotas Americano… esse não é um ato saudável.” E o quão fora da realidade está essa pergunta, alguém pergunta de volta – não só ao Dr. Phil, mas a toda a legião de comentaristas que, como ele, estão imersos nos labirintos da caça a motivações, mesmo quando os menores detalhes das inclinações do major Hasan estão cada vez mais claras e abertas.

Matar compatriotas americanos – tantos quanto possível, desarmados e nas mais indefesas circunstâncias, gritando “Allahu Akbar”, requer, obviamente, apenas ódio homicida – o tipo de pré-disposição, que foge aos doutores Phil de nosso tempo, como sendo motivação para chacinas desse tipo.

Isso não é um ato saudável? Matar apenas uma pessoa a sangue frio seria um “ato saudável”, Dr. Phil? Será que nosso discurso moral agora está limitado a descobrirmos o que alguns psicólogos ou psiquiatras consideram atos saudáveis ou não? Isso é tudo que nós podemos dizer após uma chacina assim?

O colunista Charles Krauthammer descreveu o mesmo fenômeno no The Wahington Post. Krauthammer, que é psiquiatra, ficou indignado ao ver que tantos comentaristas e líderes nacionais respondendo ao massacre sugerindo que o major Hasan é vítima de algum tipo de stress pós-traumático causado pelo retorno das tropas do Iraque e do Afeganistão.

Ele escreveu:

Sério? E os doutores e enfermeiras, conselheiros e terapeutas médicos do Centro Médico Militar Walter Reed, que todo dia ouvem e convivem com a dor e o sofrimento de soldados que voltam da guerra? Quantos deles pegaram armas e atiraram em 51 inocentes?

E os psiquiatras civis – não os de Upper West Side que tratam os neuróticos à là Woody Allen, mas os milhares de doutores que trabalham com psicóticos hospitalizados – que todo dia ouvem não só histórias, mas clamores da mais excruciante angústia, do mais inimaginável tormento? Quantos desses doutores praticam assassinatos em massa?

Rejeitando esse escape, Krauthammer escreveu exasperado: “Já se vão décadas desde que comecei a praticar a psiquiatria. Talvez eu não tenha sido contaminado por essa epidemia”.

Tornar chacina em patologia é um grande escape moral. Substituir a moralidade por uma cosmovisão terapêutica não vai funcionar. Krauthammer explica:

Patologizar uma chacina não apenas absolve. Ela transforma o assassino em uma vítima, até mesmo simpática. Afinal de contas, essa síndrome de stress pós-traumático secundária, para aqueles que acreditam nela (você não vai encontrá-la no DSM-IV-TR, o Manual Estatístico de Diagnóstico da psiquiatria), é conhecida como “fadiga amorosa”. Coitado – foi levado ao extremo por excesso de sensibilidade.

Devemos ouvir com bastante atenção as conversas ao nosso redor – particularmente aquelas dos formadores de opinião. Krauthammer e Rabinowitz oferecem avisos muito necessários. É perigoso ignorar essas coisas.

A mentalidade terapêutica é tudo o que resta quando as bases morais são abandonadas. Nenhuma civilização sobrevive a essa fuga da responsabilidade moral. Doença não é um substituto adequado para o mal. Patologizar a moralidade significa o fim do certo e do errado como categorias que importam.

Resta-nos apenas o Dr. Phil, e sua preocupação que um massacre não é um “ato saudável”. Se for só isso que podemos dizer – ou mesmo a primeira coisa que podemos falar – nós não somos uma sociedade saudável.

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo

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