Sabedoria para ler Provérbios

por Matthew Holst

A literatura de sabedoria está entre os mais negligenciados gêneros nas Escrituras. Isso se deve, sem dúvida, em parte ao fato de que há muitas dificuldades quando nos aproximamos da leitura e do estudo dos Provérbios – nosso distanciamento histórico em relação a eles, a aparente similaridade com escritos de outras literaturas sapienciais do Antigo Oriente Próximo, a aparente ausência de foco no Evangelho e o fato de que, às vezes, os Provérbios parecem prometer demais. Ainda assim, quando os lemos nós pensamos que começamos a descobrir a vida, a sabedoria e o temor do Senhor. Enfrentando as dificuldades de ler os Provérbios — e sabendo que eles são necessários ao nosso crescimento espiritual na graça — aqui estão sete dicas de como aproveitar ao máximo a leitura de Provérbios.

1. Lembre-se dos autores e do público de Provérbios. O contexto deve sempre ser seu ponto de partida. Longos trechos de Provérbios foram escritos por Salomão e direcionados a seu(s) filho(s). Isso coloca Provérbios, antes de mais nada, na esfera da história e da teologia dos reis de Israel e, especificamente, naquela do pacto Davídico. Quando você lê Provérbios (e muitos dos Salmos) você está lendo a sabedoria da Carta do Rei (leia Deuteronômio 17:14). Como um rei deveria ser bondoso e justo? Sabendo e vivendo Provérbios! Claramente esses princípios de liderança e de vida se aplicam a todos em posição de autoridade – Provérbios fala especialmente agora a pastores, anciãos, diáconos e líderes de lares, assim como àqueles por eles instruídos.

2. Provérbios devem ser lidos e aplicados através de três lentes: o contexto imediato, o cumprimento cristológico, e sua aplicação para nós. Se os Provérbios conferiam sabedoria aos reis Davídicos, esse conceito é mais plenamente realizado na vida de Cristo (veja Lucas 2:40; 51-52). Jesus, de sua infância ao seu ministério terreno, resume a vida proverbial. Ele é sabedoria redentora para nós (veja Colossenses 2:3; 1 Coríntios 1:30-31). Naturalmente, se o cristão está unido a Cristo pela fé, então a sabedoria cristológica se torna realidade para ele também — tanto redentiva quanto praticamente no modo como vivemos. Temos de perguntar a nós mesmos, como Provérbios fala aos Reis de Israel, como fala ao Grande Rei de Israel e como fala ao povo do Rei?

3. Os Provérbios nos apresentam a graça redentora. Provérbios nos mostram o temor do Senhor (1:7), prosperidade e justiça duradouras (8:18), as fontes da vida (16:22). Isto é, devemos esperar encontrar todos os elementos da vida pactual sob um Deus gracioso nos Provérbios. Se Deus é sabedoria (e Ele é!), então a sabedoria proverbial vem diretamente dEle, para o Seu povo, para que possam ter vida e viver bem diante dEle.

4. Provérbios também nos mostram a graça comum (que não devemos confundir com graça redentora). É possível interpretar mal alguns provérbios, como se eles nos dessem fortes garantias de sucesso em uma área ou outra de nossas vidas. Nos provérbios que tratam de graça comum incluem-se Prov.26:17, “Quem se mete em questão alheia é como aquele que toma pelas orelhas um cão que passa.” Você não precisa dispor da graça salvadora para conhecer a verdade comum de “não se envolva em brigas que não são suas.” Dessa forma, temos outros provérbios mais difíceis como Provérbios 22:6, “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” Esse provérbio tem sido usado por alguns para sugerir que, se você cria seus filhos fielmente, eles serão salvos. O texto certamente aponta para tal realidade, mas será que a garante? Eu diria não mais do que se um incrédulo cria seu filho a fim de estimar o dinheiro. Será que a própria criança irá crescer para estimar o dinheiro? Provavelmente sim, apesar de não haver garantia absoluta disso. Os provérbios de graça comum nos apontam princípios gerais, não garantias absolutas.

5. Preste bastante atenção aos temas que se repetem. Provérbios apresenta, por um lado, o caminho para a sabedoria, vida, instrução e entendimento que parece certo ao homem. Sobre esse respeito, os Provérbios descrevem muitos opostos. Semelhantemente, eles retratam diferentes tipos de pessoas que tomam seus diferentes caminhos. O simples e jovem (ignorante) e o sábio e o tolo (Prov. 1:1-7) são todos retratados em vívidas imagens. Assim como o adúltero e a adúltera. Provérbios reserva um aviso e uma condenação especial ao adúltero. Esses temas recorrentes são propositalmente repetidos: nós somos maus ouvintes, às vezes, e a repetição é projetada para nos fazer ouvir.

6. Provérbios são fundamentalmente patriarcais. Os Provérbios são patriarcais pois nos apresentam um pai ensinando seus filhos (1:8; 2:1; 3:1; 4:1; 5:1; 6:1; 7:1, por exemplo). Não devemos nos esquivar dessa observação por causa dos abusos dos movimentos patriarcais. Se mais pais houvessem ensinado a seus filhos os caminhos do Senhor, a igreja seria um lugar muito mais saudável e vibrante para nossos filhos. Os Provérbios nos mostram, todos nós, como crianças recebendo instruções de nosso Pai celestial e, assim, obrigando-nos a fazer o mesmo com nossas próprias crianças.

7. Provérbios são também matriarcais. Não há lugar, nos Provérbios, para relegar o papel da mãe/esposa à esfera da cozinha e/ou quarto. Provérbios 1:8 nos diz, “Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe.” Além disso, tem-se a mãe do rei o instruindo no final do livro (Provérbios 31:1-9), seguido do louvor prestado a tal mulher, tão forte e piedosa. Provérbios nos apresenta a mãe como co-professora, co-instrutora no lar– o que, em si, é uma aplicação prática da razão fundamental por trás do quinto mandamento: “honra teu pai e tua mãe.”

Provérbios são, por um lado, um livro simples de se entender, e, por outro, um livro que requer uma grande amostra de sabedoria e discernimento espiritual. Para alcançar sabedoria, devemos lê-la e orar por ela. Como nos diz Tiago, “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida.” (Tiago 1:5).

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Traduzido por Rebeca Gouveia | Reforma21.org | Original aqui

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