Uma reflexão de Natal

por Pierce T. Hibbs

Se a terra úmida formando carne e medula não lhe causa admiração, então nem a Encarnação o fará.

Nessa época de Natal, eu tenho pensado sobre quão integralmente ligados estão Adão e Cristo na história da redenção, como fica claro em Romanos 5.12-18 e 1 Coríntios 15.42-49. O Deus Trinitariano falou e Adão veio a existir, e Ele o formou do pó da terra (Gn 2.7). O Pai proferiu, o Filho manifestou, o Espírito deu vida (cf. Jó 33.4). Do solo veio um filho.

Na Encarnação, o mesmo Deus Trinitariano falou, desta vez na língua da redenção. O Pai enviou (Gl 4.4; 1 Jo 4.10), o Filho obedeceu (cf. Jo 5.19-20), e Maria concebeu pelo Espírito (Mt 1.18; Lc 1.35). De um ventre veio a Palavra (Jo 1.1).

No Natal, somos sempre lembrados de que o Filho de Deus encarnou e habitou entre nós.

Nós aprendemos que isso deveria nos encher de alegria – uma gloriosa alegria, apropriada para a proclamação de um exército celestial (Lc 2.13-14). E realmente deveria! Porém, lembrar-nos de que Adão encontra-se sob a sombra de Cristo pode servir para aprofundar essa alegria. Aqui vão alguns pensamos para nos lembrar de como a beleza e o assombro da Encarnação repousam sobre a beleza e o assombro da criação.

Assim como Deus não era obrigado a redimir, Deus não era obrigado a criar. “A criação não era algo exigido, nem obrigatório, nem arrancado de Deus, nem por alguma necessidade imposta exteriormente, nem por algum defeito se infiltrando na vida de Deus” (Fred Sanders). A criação é o resultado de uma decisão voluntária, graciosa e amorosa. Tudo que vemos ao nosso redor “é uma obra da graça de Deus, fluindo do amor de Deus” (Michael Reeves).

A criação de Adão, vista sob essa luz, não é ordinária ou esperada no sentido de ser o produto de alguma lei mecânica da evolução. Adão simplesmente não estava destinado a existir. Adão existiu somente porque Deus escolheu falá-lo, e nada pode frustrar a escolha soberana e o discurso santo de um Deus todo-poderoso. A criação foi voluntária, não compulsória.

Nesse sentido, a vida de Adão pode ser vista como um dom do Doador Trinitariano. A criação, não o Natal, é a origem da troca de presentes. Isso, talvez, seja parte do milagre da gênese da humanidade. Nosso começo foi embalado e etiquetado pela Trindade: Adão e sua descendência são dons que Deus deu a si mesmo – não por ganância divina, mas em graça divina.

Agora, justaponha isso com a história de Natal no Novo Testamento. Se o maravilhoso em Gênesis é que Deus deu à humanidade o dom da vida, então a alegria do Natal é que Deus nos deu nova vida. E os pacotes dos dois presentes parecem-se um com o outro. O filho temporal assumiu carne e osso, como o Filho eterno. O “homem da terra” (1 Co 15.47) não tinha pai biológico, assim como o “homem do céu”.

Mas há também diferenças gritantes: o filho temporal falhou aonde o Filho eterno venceu; o homem da terra não pôde oferecer salvação, mas o homem do céu tinha salvação em sua corrente sanguínea. O primeiro Adão trocou as palavras de Deus pelas palavras de uma criatura; o último Adão (1 Co 14.45) esmagou as palavras de uma criatura com as palavras do Deus triúno (Mt 4).

Considerando esse relacionamento histórico-redentivo entre Adão e Cristo, nós faríamos bem em lembrar dos dois no Natal, com maior ênfase, claro, na Encarnação. Adão, como dissemos no princípio, está à sombra de Cristo, e não o contrário. Ainda assim, nossa apreciação da completa singularidade da Encarnação se aprofunda quando a contrastamos com aquela encarnação antiga da filiação em Adão. Que maravilha é Deus soprar vida ao pó e formar uma pessoa! Essa maravilha só é superada quando refletimos sobre o milagre de Deus soprando a segunda pessoa da Trindade em carne e sangue! Deveríamos ficar admirados com Adão, mas estupefatos por Cristo. O primeiro trouxe morte pela vida; o segundo, vida pela morte.

Neste Natal, enquanto você enfatiza a glória da Encarnação e o dom do Filho de Deus, lembre-se de que esse Filho lança uma longa sombra na qual um filho menor nasceu. O mundo começou com um dom; talvez não deveríamos nos surpreender, portanto, em vê-lo restaurado por meio de outro – um dom maior e mais custoso. O próprio Deus. Tal dom é digno não só de gratidão. É digno de nossa adoração.

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Traduzido por Josaías Jr | Reforma21.org | Original aqui

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