10 enganos acerca do Cânon (2)

por Michael J. Kruger

Michael J. Kruger
Michael J. Kruger

2 – “Nada no cristianismo primitivo ditava que haveria um cânon”

Desafios contemporâneos ao cânon do Novo Testamento têm tomado diferentes formas ao longo dos anos. Por gerações, estudiosos focaram principalmente no problema das fronteiras do Novo Testamento. A questão perene tem sido, normalmente, “Como nós sabemos que temos os livros certos?”. Mas, recentemente, um novo desafio começou a ocupar um lugar central (embora não seja, de modo algum, algo novo). Enquanto a validade das fronteiras do cânon ainda é uma área de preocupação, a atenção se voltou para a validade da própria existência do cânon. A questão agora é “Por que existe um Novo Testamento?”. A resposta, de acordo com os críticos do  cânon, não pode ser encontrada no primeiro século – não havia nada acerca da cristandade primitiva (ou dos livros em si) que levaria naturalmente ao desenvolvimento do cânon. Em vez disso, eles nos dizem, a resposta deve ser encontrada anos mais tarde, na Igreja Cristã.

O cânon foi um produto eclesiástico  designado para suprir necessidades eclesiásticas. Assim, o cânon do Novo Testamento não foi naturalmente desenvolvido com a igreja primitiva, mas através de um desenvolvimento posterior e artificial que está fora de sintonia com o propósito inicial do Cristianismo ­– algo imposto à fé cristã. Gamble expõe esse mesmo ponto: “Não há qualquer insinuação de que a igreja primitiva concebia a ideia de uma Escritura cristã… Dessa forma, o NT, como nós pensamos, estava totalmente distante das mentes da primeira geração de crentes cristãos”[i]

Entretanto, devemos mesmo achar que não havia nada acerca do Cristianismo primitivo que pudesse gerar uma nova coleção de livros da Escritura? Eu argumentarei que os cristãos primitivos sustentavam uma série de crenças que, especialmente quando associadas, levariam naturalmente ao desenvolvimento de uma nova coleção de livros sagrados – o que nós poderíamos chamar de “cânon”. Em outras palavras, a matriz teológica do  Cristianismo do primeiro século criou um ambiente favorável para o crescimento de um novo depósito de escritos revelados. Consideremos o que três dessas crenças teológicas podem ter sido.

1. Os cristãos primitivos acreditavam que Jesus de Nazaré era o cumprimento escatológico das promessas fundacionais do Velho Testamento acerca da redenção do povo de Deus. É importante lembrar que os judeus do primeiro século estavam em um período de antecipação ­­– esperando e ansiando pela redenção e libertação divinas de Israel. Em outras palavras, os judeus desse período viam a história dos livros do Velho Testamento como incompleta. Quando a história do Velho Testamento era vista como um todo, não era vista como algo acabado mas como algo que estava na espera pelo seu fim. N. T. Wright observa: “A grande história das escrituras hebraicas era inevitavelmente lida no período do segundo-templo, portanto, como uma história em busca de uma conclusão”.[ii] O que fez dos cristãos primitivos únicos foi o fato de eles acreditarem que a história do Velho Testamento havia sido completada. Havia sido finalizada e cumprida com a vinda de Jesus de Nazaré. A tão esperada redenção de Deus havia chegado.

Se é assim, não é difícil enxergar como essa crença impactou a produção de novos livros escrirturísticos. Se os cristãos acreditavam que a história do VT se completara, então, é razoável pensar que a conclusão apropriada para o Velho Testamento deveria ser escrita. Do contrário, os escritos do Velho Testamento seriam uma peça sem um ato final. Isso, possivelmente, encontra confirmação no fato de alguns escritos do Novo Testamento parecerem estar intencionalmente completando a história do Velho Testamento. É notável que o primeiro livro do Novo Testamento comece com uma genealogia com uma temática davídica forte (Mt 1.1) e que o (possível) último livro do cânon hebraico comece com uma genealogia de temática davídica forte (1  Crônicas 1-2). Essa característica estrutural levou D. Moody Smith a declarar: “Ao fazer isso, Mateus deixa claro que Jesus representa a restauração daquela dinastia e, portanto, da história de Israel e da história da salvação. Assim, Jesus continua a narrativa bíblica”.[iii] Davies e Alisson concordam que Mateus “pensou seu evangelho como uma continuação da história bíblica”.[iv]

2. Os cristãos primitivos acreditavam que Jesus havia inaugurado um novo pacto. Devemos nos lembrar de que os judeus do primeiro século eram pactualmente orientados. N. T. Wright observou que “a Teologia do Pacto era o ar que os judeus desse período respiravam”.[v] E é claro que os cristãos primitivos também eram pactualmente orientados, já que viam Jesus como o condutor de um novo pacto (Lucas 22.20; cf. Mateus 26.28; Marcos 14.24, 2 Co 3.6; Hebreus 7.22, 8.8). Que implicações essa crença tem sobre o cânon? A resposta repousa na conexão muito próxima entre os pactos e os textos escritos.

É bem aceito hoje que todo conceito de “pacto” (ou tratado) foi delimitado pelo mundo ocidental antigo onde, muitas vezes, um rei suserano fazia um pacto-tratado com seu rei vassalo. E aqui está a chave: quando esses pactos eram feitos, eram acompanhados de uma documentação escrita desse pacto. Não é surpreendente que, quando Deus fez um tratado-pacto com Israel no Sinai, Ele tenha dado uma documentação escrita dos termos desse pacto. De fato, a conexão entre o pacto e os textos escritos era tão próxima que a linguagem do Velho Testamento, por vezes, igualava os dois – o texto escrito era o pacto!

Se essa é a base do entendimento dos cristãos primitivos acerca dos pactos, então as implicações são fáceis de serem percebidas. Os cristãos primitivos estavam, eles mesmos, imersos na estrutura pactual do Velho Testamento. Assim, se eles acreditavam que, através de Jesus, um novo pacto havia sido inaugurado com Israel (Jeremias 31.31), seria totalmente natural para eles esperarem por novos documentos escritos que testificassem os termos desse pacto. Em outras palavras, esse pano de fundo pactual do Velho Testamento provê um motivo histórico forte para pensar que os cristãos primitivos tinham uma predisposição para escrever documentos canônicos e que esses documentos tenham surgido naturalmente do movimento do Cristianismo primitivo. No mínimo, o contexto pactual do Cristianismo primitivo sugere que a emergência de um novo corpo de livros escrirturísticos, depois do anúncio de um novo pacto, não pode ser considerado como totalmente inesperado.

Isso parece ter confirmação em 2 Coríntios 3.6, quando Paulo refere a si mesmo e aos outros apóstolos como “ministros de uma nova aliança” – e Paulo faz essa declaração em um texto escrito que sustenta sua autoridade enquanto ministro do novo pacto. Assim, alguém dificilmente poderia culpar os coríntios se eles entendessem as cartas de Paulo como, em certo sentido, um documento pactual.

3. Os cristãos primitivos acreditavam na autoridade dos apóstolos para falar por Cristo. Jesus comissionou seus apóstolos “para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade” (Marcos 3.14-15). Quando Jesus enviou os doze, ele os lembrou de que “não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós” (Mateus 10.20). Dessa forma, Ele pode advertir aqueles que rejeitam a autoridade dos apóstolos: “Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés” (Mateus 10.14). Dado esse pano de fundo, chegamos à pergunta chave: o que aconteceria se os apóstolos colocassem sua autoridade de forma escrita? Como esses documentos seriam vistos?

Inicialmente, é claro, os apóstolos entregavam suas mensagens oralmente através do ensino e da pregação. Mas, não muito depois, eles começaram a escrever suas mensagens. E, quando fizeram isso, eles também disseram aos cristãos: “permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Tessalonicenses 2.15). E, novamente, “caso alguém não preste obediência à nossa palavra dada por esta epístola, notai-o; nem vos associeis com ele, para que fique envergonhado” (2 Tessalonicenses 3.14). É aqui que vemos a conexão óbvia entre o papel dos apóstolos e o começo do cânon. Se os apóstolos eram vistos como os porta-vozes de Cristo e eles escreveram as mensagens apostólicas em livros, então, esses livros eram recebidos como a própria palavra de Cristo. Esses escritos não teriam que esperar até o segundo, terceiro ou quarto séculos para serem vistos como autoritários pelas decisões eclesiásticas ­– em vez disso, eles eram vistos como autoritários desde o início. Por essa razão, um Novo Testamento escrito não foi algo que a  igreja formalmente “decidiu” ter em uma época posterior; antes, foi a atuação natural da função histórica-redentiva dos apóstolos.

Em suma, essas três crenças teológicas que os cristãos primitivos tinham devem, no mínimo, nos fazer hesitantes acerca das afirmações confiantes dos estudiosos modernos de que os cristãos primitivos não tinham uma inclinação para o cânon. Pelo contrário, essas crenças sugerem que o desenvolvimento de um novo corpo de livros escrirturísticos deve ter sido uma parte natural do Cristianismo primitivo e, em certa medida, até mesmo inevitável.

 

 


[i]  H.Y. Gamble, The New Testament Canon: Its Making and Meaning (Philadelphia: Fortress, 1985), 5

[ii]  Wright, The New Testament and the People of God, 217.

[iii] D.M. Smith, “When Did the Gospels Become Scripture?,” JBL 119 (2000): 7.

[iv] W.D. Davies and D.C. Allison, The Gospel According to Saint Matthew (ICC; Edinburgh: T&T Clark, 1997), I: 187.

[v] Wright, The New Testament and the People of God, 262.

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Traduzido por Kimberly Anastacio | Reforma21.org | Original aqui

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