10 enganos acerca do Cânon (3)

por Michael J. Kruger

Michael J. Kruger
Michael J. Kruger

3 – “Os autores do NT não pensavam que estavam escrevendo a Escritura”

Algumas vezes, até mesmo no mundo acadêmico, coisas são ditas tantas vezes que as pessoas as tomam por verdades. Quando isso acontece, ninguém se incomoda em examinar para a evidência histórica de uma forma nova. Esse, com certeza, é o caso do terceiro engano acerca do cânon do Novo Testamento. É rotineiro, nesses dias, afirmar que os autores do Novo Testamento certamente não pensavam que estavam escrevendo a Escritura ou que eles não tinham alguma consciência de sua própria autoridade.

Mark Allan Poweel, em sua recente introdução ao Novo Testamento, afirma claramente a sua visão: “Os autores dos livros do nosso Novo Testamento não sabiam que seus escritos eram a Escritura”[1]. Gamble usa a mesma abordagem: “Nenhum dos escritos que fazem parte do NT foram compostos como Escritura… [eles] foram escritos para propósitos imediatos e práticos nas igrejas primitivas e apenas gradualmente se tornaram valorizados e tratados como ‘Escritura’”[2].

Ora, sob certa perspectiva, eu entendo o que esses autores estão tentando dizer. Certamente, nenhum dos autores no NT escreviam conscientes da existência de um cânon de 27 livros e nem entendiam o seu lugar nisso. Eles não podiam ter previsto completamente o formato e escopo dessa coleção. Mas esses estudiosos insinuam que não havia uma intenção autoritária enquanto os autores do NT escreviam – e dizer isso é algo bastante diferente. Mcdonald até declara: “[Paulo] não estava ciente do status divinamente inspirado de sua própria opinião”[3].

Mas é verdade que os autores do NT não tinham consciência de sua própria autoridade? Minha divergência aqui é simples: os autores do NT mostram evidências de que eles entendiam que seus escritos continham tradição apostólica autoritária. Desde que os apóstolos foram comissionados por Cristo a falar por ele e habilitados pelo Espírito Santo a fazer isso, seus escritos carregavam a autoridade do próprio Cristo. Assim, se chamamos ou não esses livros de “Escritura” não vem ao caso. Para os cristãos primitivos, eles eram “a palavra de Deus”.

Em uma postagem como essa, mal podemos passar por cada livro do NT (nem precisamos fazer isso para estabelecer uma visão geral). Então, ofereceremos um breve comentário sobre algumas passagem selecionadas:

1 Tessalonicenses 2.13: Na provável primeira carta de Paulo, ele é explícito quanto a sua própria autoridade como apóstolo de Jesus Cristo ao lembrar os Tessalonicenses: “havendo recebido a palavra de Deus que de nós ouvistes, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo ela é na verdade) como palavra de Deus” (2.13). Com a frase “palavra de Deus” (λόγον θεοῦ), Paulo está se referindo, sem dúvida, à “tradição apostólica” autoritária que já havia sido passada aos Tessalonicenses através de seu ensino e pregação orais. Mas, se a instrução apostólica de Paulo carrega autoridade divina, devemos pensar que a própria instrução contida em 1 Tessalonicenses não o faz? Essa carta, de alguma forma, é isenta dessa autoridade? Paulo reconhece em um outro lugar que a forma de entrega de sua instrução apostólica é secundária. “Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Tessalonicenses 2.15). Além disso, comentando 1 Tessalonicenses 2.13, Ernest Best pode dizer: “Paulo faz aqui a ousada afirmação que identifica suas palavras como as palavras de Deus”.[4]

1 Coríntios 14.37-38: Essa passagem é uma das mais explícitas acerca da autoridade apostólica de Paulo: “Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo. E, se alguém o ignorar, será ignorado” (14.37-38). O mais notável nessa passagem é que Paulo aborda diretamente a exata natureza de seus escritos e declara que eles são o “mandamento do Senhor” (κυρίοu ἐντολη). Essa frase é comum por todo Velho Testamento como uma referência aos mandamentos vindos diretamente de Deus ou às ordens dadas a Moisés.[5] Paulo está tão confiante de sua autoridade para falar pelo Senhor que ele declara que qualquer um que não reconheça a autoridade de seus escritos deve ser “ignorado”. Fee chama esse pronunciamento de uma “sentença profética de julgamento para aqueles que falharem em observar sua carta”.[6]

À luz de tais afirmações de Paulo, não temos que nos perguntar como os Coríntios responderiam se perguntássemos “Então, você acha que Paulo estava ciente de sua própria autoridade quando ele te escreveu aquela carta?”. Talvez o próprio Paulo entendesse a forma como sua autoridade seria recebida quando escreveu aos Coríntios uma segunda vez e disse: “Para que não pareça ser meu intuito intimidar-vos por meio de cartas” (2 Coríntios 10.9).

Lucas 1.1-4: Lucas faz declarações expressas de estar transmitindo tradição apostólica. Em seu prólogo, Lucas afirma que as tradições incluídas em seu evangelho haviam sido “transmitidas” a ele por aqueles “que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra”. A maioria dos estudiosos vê as “testemunhas oculares e ministros da palavra” como uma clara referência aos apóstolos. E o termo “transmitidas” é uma referência comum para a forma como a tradição apostólica autoritária era passada. Ademais, Lucas entendia que seu evangelho era a encarnação da “Palavra” apostólica e autoritária que havia sido entregue e confiada a ele. Craig Evans chega à mesma conclusão acerca do prólogo: “Lucas não se enxerga primariamente como um biógrafo ou mesmo como um historiador. O Lucas evangelista é um escritor da Escritura, um hagiógrafo que está proclamando o que Deus tem feito nos ‘fatos que entre nós se realizaram’”.[7]

Apocalipse 1.1-3: A afirmação mais explícita da autoridade de um livro vem, sem dúvida, do autor do Apocalipse. A abertura do livro afirma diretamente ser a profecia inspirada de Jesus Cristo entregue a João por um anjo (1.1). Consequentemente, há uma benção divina atrelada a esse livro: “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo está próximo” (1.3). Além disso, a autoridade desse livro é aumentada pela inclusão de uma “maldição escritural” no fim, alertando o leitor a não adicionar ou retirar algo desse documento para não sofrer com o julgamento divino (22.18-19). Com base nessas afirmações explícitas, até Mcdonald está inclinado a reconhecer que o Apocalipse “reivindica para si uma posição tão imponente que se aproximaria da noção de inspiração e Escritura”.[8]

Essa foi uma breve amostra de passagens do NT que se adequavam a um texto como esse. Entretanto, até mesmo essa pequena amostra levanta questões acerca da disputa quanto à consciência dos autores do NT de sua própria autoridade. Não importa se queremos usar o termo “Escritura” para descrever esses livros; se eles carregam autoridade apostólica, então carregam a autoridade de Cristo e são vistos como a própria palavra de Deus. N. T. Wright resume bem:

Costumava ser dito que os escritores do Novo Testamento “não pensavam que estavam escrevendo a ‘Escritura’”. É difícil de sustentar isso atualmente. O fato de seus escritos serem, em vários sentidos, “situacionais” não é a questão. É precisamente nesses momentos de maior urgência (ao, por exemplo, escrever Gálatas ou 2 Coríntios) que Paulo está mais consciente de que ele está escrevendo autorizado pelo chamado apostólico que recebeu de Jesus Cristo e pelo do poder do Espírito, para trazer vida e ordem para a igreja através de suas palavras.[9]



1 Mark Allan Powell, Introducing the New Testament: A Historical, Literary, and Theological Survey (Grand Rapids: Baker Academic, 2009), 50.  Ver também: McDonald, The Biblical Canon, 249.

2 H.Y. Gamble, The New Testament Canon: Its Making and Meaning (Philadelphia: Fortress, 1985), 18.

3 McDonald, The Formation of the Christian Biblical Canon, 9.

4 E. Best, A Commentary on the First and Second Epistles to the Thessalonians (New York: Harper & Row, 1972), 111.

5 E.g., Lv 4.13, 5.17, 27.34; Nm 15.39; Dt 4.2, 6.17, 8.6, 11.28, 30.16; Josué 22.3; Juízes 3.4;Esdras 7.11; Neemias 10.30; Salmos 18.9.

  6 Fee, The First Epistle to the Corinthians, 712.

7 Evans, “Luke and the Rewritten Bible,” 201. Vale notar que há algumas evidências de que Lucas foi considerado enquanto “Escritura” bastante cedo. 1 Timóteo 5.18 diz que “O trabalhador é digno do seu salário” e introduz a frase com “pois a Escritura declara”. Embora seja possível que essa passagem esteja citando alguma fonte apócrifa, a única passagem que vai ao encontro dessa citação está em Lucas 10.7. Veja a discussão em J.P. Meier, “The Inspiration of Scripture: But What Counts as Scripture?,” Mid-Stream 38 (1999): 71-78.

8 McDonald, The Biblical Canon, 31.

9 N.T. Wright, The Last Word: Beyond the Bible Wars to a New Understanding of the Authority of Scripture (San Francisco: HarperSanFrancisco, 2005), 51.

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Traduzido por Reforma21 | Reforma21.org | Original aqui

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