A ideia esquecida de Lutero

por Carl Trueman

Carl Trueman
por Carl Trueman

O teólogo da Cruz

Uma das coisas marcantes sobre a ressurgência atual do interesse pela teologia da Reforma, de uma maneira geral, é ausência da provável contribuição mais gloriosa do discurso teológico de Martinho Lutero: a noção do teólogo da cruz.

Durante o encontro da Convenção Saxônica da Ordem Agostiniana, na cidade de Heidelberg, em 1518, um monge chamado Leonhard Beier apresentou uma série de teses que Lutero havia preparado, enquanto o próprio Doutor Martinho presidia os procedimentos. A Disputa de Heidelberg entrou para história como o momento em que Lutero apresentou sua nova teologia radical pela primeira vez.

No coração dessa nova teologia estava a noção de que Deus se revela sob seu oposto; ou, expressando de outra forma, Deus alcança seus propósitos pretendidos ao fazer o exato oposto do que os seres humanos esperam. O supremo exemplo disso é a própria cruz: Deus triunfa sobre o pecado e o mal ao permitir que o pecado e o mau triunfem (aparentemente) sobre ele. Sua força real é demonstrada pela fraqueza aparente. Essa era maneira de um teólogo da cruz pensar sobre Deus.

O oposto disso era o teólogo da glória. Em termos simples, o teólogo da glória assumia que havia uma continuidade básica entre o caminho deste mundo e o caminho de Deus: se a força é demonstrada por meio do poder bruto na terra, então a força de Deus deve ser parecida, somente elevada ao infinito. Para um teólogo assim, a cruz é simplesmente loucura, algo sem sentido.

Alguns responderão: Mas a teologia da cruz não foi esquecida; é frequentemente mencionada, e discutida, e mesmo pregada. Mas aqui está o obstáculo: na Disputa de Heildelberg, Lutero na verdade refere-se não à teologia da cruz, mas aos teólogos da cruz, enfatizando a ideia de que ele não está falando sobre alguma técnica ou processo teológico e abstrato, mas sobre uma maneira real, pessoal e existencial que teólogos de carne e osso pensam e relacionam-se com Deus. A teologia de alguém, quer verdadeira ou falsa, é inseparável da fé pessoal do indivíduo.

Nesse aniversário da Reforma, não devemos reduzir as ideias de Lutero simplesmente à justificação pela graça por meio da fé. Na verdade, essa mesma ideia parece inseparável da noção dos teólogos da cruz. Tristemente, é frequentemente difícil discernir onde esses teólogos da cruz estão. Sim, muitos falam sobre a cruz, mas nas normas culturais de muitas igrejas não parecem muito diferentes das normas culturais da… bem, da cultura. Elas frequentemente demonstram uma atitude em relação ao poder e à influência que vê essas coisas diretamente relacionadas com tamanho, market share, mensagens consumistas, estética, cultura jovem, aparições na mídia, ruídos e pirotecnias estilosas que associaríamos mais ao cinema moderno que ao cristianismo do Novo Testamento. Uma teologia abstrata da cruz pode facilmente ser embalada e vendida por um teólogo da glória. E isso não é para apontar um dedo contra “eles”: na verdade, se formos honestos, muitos, se não todos nós, sentimos a atração de ser teólogos da glória. Previsivelmente, uma vez que ser um teólogo da glória é a posição padrão da natureza humana caída.

O caminho para deixar de ser um teólogo da glória e tornar-se um teólogo da cruz não é fácil, não é simplesmente uma questão de dominar técnicas, ler livros ou aprender um novo vocabulário. É o arrependimento.

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O Deus da Cruz

Por trás dessa ideia, entretanto, está uma ideia ainda mais profunda e revolucionária: a do Deus da cruz.

A tese teológica final da Disputa de Heidelberg é certamente a mais profunda, e provavelmente a mais bonita, que Lutero escreveu:

O amor de Deus não encontra, mas cria, aquilo que lhe apraz. O amor do homem surge por meio daquilo que lhe apraz.

Nessa afirmação, Lutero conclui sua articulação da lógica da cruz ao usá-la para subverter as noções comuns do amor de Deus. O amor dos seres humanos é fundamentalmente reativo: o amante vê algo intrinsecamente amável na amada, o que atrai seu amor para ela; sua amabilidade precede e, de fato, causa do amor dele. É assim que o teólogo da glória pensa do amor de Deus: obrigado, Senhor, por eu não ser como os outros homens…

O Deus da cruz, entretanto, é muito diferente. Ele se regozija em focar seu amor nos não amáveis e, assim, faze-los amáveis. Essa é a lógica de 1 Coríntios 1: a igreja, sediada em meio a uma cidade portuária, indubitavelmente continha uma grande proporção daqueles que seriam taxados de escória da humanidade – os pobres, fracos, ex-prostitutas, deturpados sexuais; ainda assim, Deus escolheu esses, as coisas que não são, para envergonhar as coisas que são. A própria lógica da cruz é manifesta no fato de que o amor de Deus não reputa as pessoas como a sociedade as reputa; Deus se regozija, pelo contrário, em amar aqueles que são mais desprezados.

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Novamente, essa é uma palavra tanto de graça quanto de julgamento para a igreja contemporânea. De graça, porque nos lembra da promessa de Deus que Ele – Ele, e não nós – vai construir sua igreja e os portões do inferno não prevalecerão contra ela. Apenas um Deus da cruz e de amor criativo pode fazer e manter tal promessa. Certamente não há nada maior que possa nos dar confiança do que o pensamento de que é, em ultima instância, Deus quem nos dá o crescimento.

Mas também é uma palavra de julgamento porque nos lembra que nossa tentação de estarmos preocupados com aqueles que a nossa sociedade de celebridades considera amáveis – os jovens, os artistas, os talentosos, os famosos, os elegantes, os indomáveis, os corajosos, os bonitos, os legais, os auto-promovidos e os hipsters – não reflete as prioridades do Deus da cruz. Ele é mais propenso a construir sua igreja com, precisamente, aqueles que esse mundo considera fracos e desprezíveis. De fato, ele se regozija nisso; e a nossa atitude, nosso auto-entendimento, nossa teologia, nossa proclamação de quem Deus é e como ele age, devem refletir isso se formos verdadeiros teólogos da cruz, ao invés de teólogos da glória.

O amor de Deus não busca, mas cria, aquilo que lhe apraz. E assim eram alguns – não, assim éramos todos nós.

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Traduzido por Josaías Jr e Filipe Schulz | iPródigo | originais aqui e aqui

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