Católicos são irmãos e irmãs em Cristo?

por Chris Castaldo

Nota do tradutor: Geralmente os textos que postamos aqui estão totalmente de acordo com nosso entendimento da doutrina bíblica. No entanto, alguns assuntos permanecem nebulosos para mim, Josa. O texto a seguir é um exemplo disso. Estou postando, mas não tenho posição firme sobre o assunto. Assim, gostaria que os irmãos o lessem com muito carinho e comentassem, seja positiva ou negativamente, essa questão. O que achou da posição de Chris Castaldo? Fundamentalista demais, quase ecumênica ou uma visão equilibrada? Quero ouvir sua opinião!

Por Chris Castaldo, ex-católico, agora pastor protestante

Questão: Chris, em seu livro Holy Ground você claramente articula algumas das diferenças significantes sobre doutrina entre Evangélicos e Católicos Romanos, enquanto continua a chamar os Católicos Romanos de “irmãos e irmãs em Cristo” (p.163). Para muitos dos Reformadores, as diferenças doutrinárias levaram a conclusões bem diferentes sobre onde os católicos romanos estão em seu relacionamento com Deus. Me pergunto se você pode explorar mais o que crer na doutrina básica do Catolicismo Romano significa para o relacionamento com Deus do católico romano comum? Como podemos conciliar a importância de clamar aos nossos amigos católicos romanos que deixem as crenças e práticas católicas romanas com a realidade de que eles creem em Deus, que é Pai, Filho e Espírito santo?

Resposta: Em Holy Ground, eu uso a palavra “alguns”. Eu chamo alguns católicos de “irmãos e irmãs em Cristo”. No contexto, minha afirmação na página 163 é sobre meus colegas católicos do Boston College, que eram defensores ardentes da morte e ressurreição literais de Jesus, contra nossos colegas liberais, que pareciam ter se perdido no pântano chamado relativismo pós-moderno.

Eu também diria que muitos católicos não são irmãos e irmãs em Cristo (da mesma maneira que muitos protestantes falham em possuir fé genuína). Somente Deus conhece a condição do coração de alguém, mas eu iria mais além ao dizer que um católico que honestamente acredita no que a Igreja Católica ensina sobre justificação – que ela é baseada em uma mistura de fé e obras meritórias – provavelmente não é um irmão ou irmã em Cristo. Digo “provavelmente” porque existem alguns católicos que confiam totalmente em Cristo mesmo que sua confissão religiosa repouse sobre elementos não bíblicos da tradição católica. Em outras palavras, me parece que a Bíblia ensina que alguém deve acreditar com fé somente (Rm 4.4; Ef 2.8,9; Tt 3.5), mas não requer que ele ou ela creia na fé somente, como um corpo de doutrina. John Piper enfatiza esse ponto, por exemplo, citando John Owen, que escreveu: “’Homens podem ser realmente salvos pela graça que doutrinariamente eles negam; e eles podem ser justificados pela imputação desta justiça que em sua opinião eles negam ser imputada’… as palavras de Owen não significam que devemos ser descuidados com o conteúdo do Evangelho, mas que guardemos a esperança de que os corações dos homens frequentemente são melhores que suas cabeças”. Consequentemente, alguns católicos parecem confiar totalmente em Jesus, a despeito do ensino de sua igreja. (John Owen, The Doctrine of Justification by Faith, chapter VII, “Imputation, and the Nature of It,” [Banner of Truth, Works, Vol. 5], 163-164. in John Piper. The Future of Justification. [Wheaton: Crossway, 2007], 25).

Se isso soa anticatólico, por favor, não se esqueça de que a Igreja Católica diz essencialmente a mesma coisa sobre os protestantes. Do ponto de vista católico, a esperança evangélica da justificação é encontrada em sua observância do batismo, que reflete o sacramento católico do batismo. Nós protestantes podemos pensar que somos justificados somente pela fé, diz o católico, mas somos realmente por conta de nosso batismo, que encontra legitimidade na Igreja Única, Santa, Católica e Apostólica. Eu me ofendo com a visão católica? Bem, talvez um pouco. Mas eu posso lidar com isso porque eu percebo que não é pessoal, e que os católicos estão simplesmente expressando o ensino de sua igreja com honestidade. Esperançosamente, meus comentários serão lidos sob a mesma luz.

O livro Holy Ground
O livro Holy Ground

Sua referência aos Reformadores é interessante. É indubitavelmente verdadeiro que muitos deles consideravam os católicos como sem salvação, ainda que nem todos eles entendessem assim. De fato, há uma tradição significante na teologia reformada daqueles que consideravam o Catolicismo uma expressão ortodoxa do Cristianismo, consistindo de irmãos e irmãs em Cristo, mesmo quando discordassem de maneira veemente de axiomas básicos como sola Scriptura e sola fide. Aqui estão alguns exemplos notáveis.

Apesar de todas as investidas afiadas que Martinho Lutero lançou contra o papado e o clero, ele não era tão duro em relação a todo o povo católico. Isso aconteceu porque, debaixo das crostas da tradição católica não bíblica, Lutero reconheceu um núcleo escriturístico que poderia confiavelmente gerar e nutrir a fé. Em suas palavras, “a Igreja Romana é santa, porque tem o nome santo de Deus, o evangelho, o batismo, etc.” (Gustaf Aulen, Reformation and Catholicity, trans. Eric H. Wahlstrom. Edinburgh: Oliver and Boyd, 1962. pg 76).

Calvino expressou um sentimento similar em sua carta a Sadoleto, em que, a despeito de diferenças sérias de doutrina, “[isto não significa] que os Católicos Romanos não são também cristãos. Na verdade, Sadoleto, não negamos que sejam igrejas de Cristo as igrejas que presides”.

Mais de trezentos anos depois, em 1869, o teólogo de Princeton Charles Hodge escreveu ao Papa Pio IX declinando um convite para participar do Vaticano I. Depois de citar as razões de porque sua participação e de seus delegados não aconteceriam, ele oferece a seguinte conclusão:

“Apesar disso, embora não possamos retornar à comunhão da Igreja de Roma, desejamos viver em caridade com todos os homens. Amamos todos aqueles que amam nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade.

Nós entendemos como família cristã todos aqueles que adoram, amam e o obedecem como seu Deus e Salvador, e esperamos estar unidos no céu com todos aqueles que se unem a nós na terra, ao dizer: ‘Aquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.’ (Ap 1.6).”

Finalmente, depois de Charles Hodge, lemos essa afirmação de outro teólogo de Princeton, J. Gresham Machen. Escrevendo 50 anos depois sobre a relativa proximidade de católicos a evangélicos, comparada com o abismo que nos separa dos liberais, Machen enfatiza o terreno em comum em que nos firmamos:

“Ainda assim, quão grande é a herança comum que une a Igreja Católica Romana… a protestantes devotos hoje! [Quão grandes sejam nossas diferenças]… parecem quase frívolas se comparadas ao abismo que se coloca entre nós e muitos ministros de nossas próprias igrejas” (J. Gresham Machen, Christianity and Liberalism (New York: Macmillan, 1923), p. 52).

Isso me traz à parte final de sua questão: “Como podemos conciliar a importância de clamar aos nossos amigos católicos romanos que eles deixam as crenças e práticas católicas romanas com a realidade de que eles creem em Deus, que é Pai, Filho e Espírito santo?”

Em Holy Ground, eu desafio os leitores a seguirem os Reformadores Protestantes e, muito mais importante, ao próprio Jesus, expressando honestidade sobre onde nos diferenciamos e, ao mesmo tempo, estendendo verdadeiro amor e graça nas nossas áreas de discordância com os católicos. O principal critério bíblico para isso é João 1.14, onde fala-se que Jesus veio “cheio de graça e verdade”. Aqui está. Este é o como. Assim como nosso Senhor sustentou essas virtudes com um perfeito equilíbrio, devemos trabalhar para fazer o mesmo. Não temos como justificar, certamente não a partir da Bíblia, sermos irritados e caprichosos, como pitbulls cheios de espuma na boca, prontos para pular na jugular de todo católico que cruzar nosso caminho. Por outro lado, não devemos ter a mente tão aberta a ponto de nossos cérebros caírem de nossas cabeças, abandonando a coragem teológica para sermos honestos.

Quando um católico confessa o Evangelho e vive por Jesus, estou aplicando o amor que 1 Coríntios fala, o amor que “tudo suporta, tudo crê e tudo espera”, um amor que estende o benéfico da dúvida, põe o braço em volta do amigo católico e o chama de irmão. Eu também irei proclamar o Evangelho e estender o discipulado de forma que eu e meu amigo católico alcancemos juntos um estágio maior de santificação. Eu gostaria de ver esse amigo eventualmente deixando a Igreja Católica? Sim, é claro. Sou um pastor protestante que acredita que em questões de autoridade e soteriologia cristã, os protestantes estão fundamentalmente certos. Dizer outra coisa seria dissimulação. E mais: eu não vou insistir que o abandono da Igreja Católica aconteça no meu tempo. O Senhor é o pastor do meu amigo tanto quanto ele é o meu. De fato, eu devo aplicar meu calvinismo nesse momento preciso, ao confiar fiel e alegremente no governo soberanamente cronometrado de Deus. Portanto, em uma análise final, devemos nos aproximar dessa obra da maneira que Pedro diz em sua primeira carta: “santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3.13,14).

Traduzido por Josaías Jr | iPródigo | Texto original aqui

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