Como seria a Bíblia se ela não falasse o tempo todo sobre Deus?

por Josaías Ribeiro Jr.

Josaías Jr.

Um amigo divulgou uma matéria sobre um livro chamado The Good Book: A Secular Bible [O Bom Livro: uma Bíblia Secular], do filósofo A.C. Grayling. Segundo o autor, sua obra é a proposta de uma ética que não é baseada em algum tipo de deus ou divindade. Usando livros com títulos semelhantes às suas contrapartes e às expressões bíblicas (Gênese, Parábolas, Atos, Sabedoria, Epístolas, etc.), essa obra propõe-se a compilar conselhos, sabedoria, inspiração e outras máximas da sabedoria humana.

Existe até uma versão dos Dez Mandamentos:

  1. Ame muito
  2. Busque o que há de bom em todas as coisas
  3. Não prejudique os outros
  4. Pense por si mesmo
  5. Seja responsável
  6. Respeite a natureza
  7. Faça sempre o seu melhor
  8. Informe-se
  9. Seja gentil
  10. Seja corajoso

Enfim, trata-se realmente de uma “Bíblia”, mas do tipo que toma como ponto de partida não Deus, mas o homem. Ela tem uns conselhos que poderiam ser considerados bons, mas vejo que é possível aprender muito mais a partir dela – daí esse post.

Polindo a pedra de escândalo

Eu poderia gastar algumas linhas falando sobre a arrogância humana em tentar erguer-se puxando os cadarços do próprio tênis, mas o que me chamou a atenção foi um comentário desse mesmo amigo. Ele lembrou o movimento liberal, que procurava adaptar o cristianismo ao homem moderno. Segundo o liberalismo teológico, as doutrinas e dogmas apresentados pela igreja nos últimos séculos não eram aceitáveis à mentalidade pós-iluminista. A ideia de milagres era resquício de um tempo obscurantista, em que beatos explicavam o desconhecido como a ação de Deus.

Os teólogos liberais entendiam que a Bíblia, diante da nova mentalidade que surge, não poderia ser considerada uma testemunha fiel de fatos históricos. Isto é, relatos como o êxodo, a história de Davi e a vida de Cristo poderiam ser apenas criações de um povo religioso. Ou seja, apenas mitologia judaico-cristã.

Por outro lado, esses homens entendiam que, apesar disso, a mensagem da Bíblia era boa e espiritual. Para eles, abandonar a confiança nos relatos históricos da Palavra de Deus não significava abandonar a moral, a ética e os valores que o cristianismo propunha. Cristo poderia não ter ressuscitado literalmente, logo, apesar de morto, está vivo em nossos corações, eles diziam. Michael Horton expressa bem o pensamento liberal:

O liberalismo representa a fé na humanidade, ao passo que o cristianismo representa a fé em Deus. O primeiro é não-sobrenatural, o último é absolutamente sobrenatural. Um é a religião da moralidade pessoal e social, o outro, contudo é a religião do socorro divino. Enquanto um tropeça sobre a “rocha de escândalo”, o outro defende a singularidade de Jesus Cristo. Um é inimigo da doutrina, ao passo que o outro se gloria nas verdades imutáveis que repousam no próprio caráter e autoridade de Deus.

Note um detalhe importante: o liberalismo é “a religião da moralidade pessoal”. Fruto de seu tempo, o liberalismo teológico cria que a humanidade havia alcançado seu auge após as revoluções provocadas pelo pensamento iluminista, modernista, naturalista, industrial… e por aí vai.

Assim, a conclusão dos liberais era a seguinte: percebemos que o homem não é mau como os cristãos tradicionais afirmaram. Ele é bom, está um pouco desorientado, é verdade, mas é bom. E está evoluindo! Ele não precisa do sacrifício sangrento de um Messias para salvá-lo (uma ideia repugnante e bárbara!), pois Deus (não necessariamente aquele dogmatizado pelos cristãos antigos) não deseja sequer condená-lo. A humanidade precisa de orientação. E para isso a Bíblia e os ensinamentos de Jesus servem – para orientar-nos a uma vida melhor.

Uma coisa importante: os ensinos de Jesus e os mandamentos bíblicos são bons e verdadeiros, mas, para os liberais, esses ensinamentos tinham base não na autoridade divina, mas no que a humanidade produziu de melhor. E Jesus, claro, é o maior exemplo moral que existiu. Como não aceitar Jesus?

E eu com isso?

Talvez você leia toda essa reconstrução histórica e pergunte: o que tenho a ver com isso? A verdade é que temos muito a ver com o liberalismo teológico. Permita-me a heresia de citar uma sorte de hoje do Orkut: “A filosofia de um século é o bom senso do próximo”. Toda essa longa história de um antigo movimento que surgiu há mais de 200 anos pode parecer distante e irrelevante. Mas a verdade é que as ideias bombásticas do século XIX podem facilmente estar escondidas no humilde culto de domingo – mesmo entre irmãos que combaterão qualquer menção ao liberalismo.

A Bíblia Secular

A matéria citada no início desse texto começa com a seguinte pergunta: “Como seria a Bíblia se ela não falasse o tempo todo sobre Deus?”. E eu pergunto para você membro de igreja e, em especial, para líderes e mestres: “Como seria a igreja se ela não falasse o tempo todo sobre Deus?”.

O fato é que eu não preciso de uma Bíblia Secular, de uma teologia liberal ou de uma filosofia humanista para não falar o tempo todo sobre Deus. Para uma “Bíblia” ser secular, ela não precisa ser escrita por um filósofo ou ter seus pedaços recortados, como diz-se que Abraham Lincoln fazia com seus exemplares.

Para ter uma “Bíblia Humanista” é necessário apenas ignorar um ou outro ponto, esquecer-se de uma ou outra doutrina, diminuir o que a Palavra exalta e exaltar o que ela diminui. E quando não falo, não considero, não tomo como pressuposto e referente “todo o conselho de Deus” (At 20.27), acontece o seguinte: outro conselho toma o lugar dele. Consequentemente, riquezas, saúde, bem-estar, família, crescimento, música ou moralidade são aspectos preciosos da existência humana que tomam o espaço do Criador. Aos poucos, estamos pregando a sabedoria e a glória humanas – não a sabedoria e a glória divinas.

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Abandonando o bom senso

Justamente por ser o “bom senso” do século atual, o liberalismo light de nossa época é tão difícil de ser detectado. Existem indícios que podem auxiliar o crente a encontrar essas tendências em livros, líderes e mensagens. Tomando a ordem de capítulos do clássico Cristianismo e Liberalismo, de J. Gresham Machen, aqui vão alguns:

  1. Doutrina: Esqueça! Abandone o radicalismo do dogma, a frieza da teologia e as dificuldades do estudo bíblico. Precisamos de ações práticas, de experiências calorosas e dos ensinos morais do mestre Jesus Cristo. Consequência: qualquer pessoa “espiritual, mas não religiosa” se sentirá confortável por não ouvir falar de Trindade, expiação, pecado e milênio.
  2. Deus: O Criador é o Pai de todos, aquele que nos ama, que quer o bem da humanidade. Ele não é alguém que podemos conhecer objetivamente, mas apenas sensorialmente e por meio de experiências. Como Pai celestial e amoroso de toda a família humana, não é recomendável falar que Ele está irado com alguém ou que estamos separados dele. Consequência: Importa que ele diminua e eu cresça.
  3. Homem: Não existe Queda do homem. Somos bons, como mostra o progresso da humanidade, a ética dos povos e minha própria conduta. A mente moderna sabe que fazemos coisas ruins, claro, mas em geral temos um bom padrão moral (fora um ou outro malvado do noticiário). Sendo eu tão valioso, minha autoestima não pode ser ferida quando você fala dessa ideia antiquada e grosseira de pecado. Consequência: Não use o palavrão que começa com “P” no sermão.
  4. A Bíblia: O liberalismo clássico desconsiderava vários relatos da Escritura. Para eles, aquilo era mera invenção humana. Havia coisas boas na Bíblia, mas somente aquelas que não eram absurdas para nossa era esclarecida. Jamais faríamos isso, certo? Errado. Vemos a Escritura ser solapada pelas últimas descobertas de ciências como Administração, Sociologia e Psicologia – tanto em púlpitos, quanto em aconselhamento, quanto em faculdades e na EBD. Nada contra a ciência em si (estaria contra mim mesmo), mas contra o uso dela como revelação autoritária. Consequência: alguma coisa estamos pregando, mas não é o Evangelho. É a Bíblia humanista, compilando o melhor que a humanidade pode oferecer.
  5. Cristo: Como dissemos, Jesus é o grande mestre moral, aquele que veio nos dar o exemplo de autossacrifício pelo bem dos outros – apenas isso. Não há espaço para morte substitutiva, nem para natureza divina. Ressurreição nem pensar! Quem acreditaria nisso? Consequência: Adeus para a ideia de Salvador.
  6. Salvação: Você não está caído nem precisa nascer de novo. Você precisa de uma força para alcançar seu potencial. Para isso, alguns princípios morais, retirados dos ensinamentos de Jesus e dos heróis bíblicos serão necessários (lembra dos “10 mandamentos” lá em cima?). Não se preocupe com o fracasso: Deus ajuda quem se ajuda. Consequência: Legalismo e o fim da graça.
  7. Igreja: Somos uma comunidade de pessoas felizes e satisfeitas que alcançaram certo padrão moral (graças a Deus!) e agora se reúnem a cada semana com o objetivo de chamar novos membros para nossa agremiação. Consequência: aquela sensação de estar em um clube social.

Toda essa reflexão lembra algumas ilustrações fortes, uma de John Piper e outra do Michael Horton. Na primeira, o pastor batista imagina um “céu” em que temos todas as coisas moralmente boas que sempre amamos – menos Cristo. Na segunda, o teólogo reformado pergunta o que é um lugar onde todos vivem pacificamente os altíssimos padrões bíblicos (até frequentam o culto nos domingos) – mas não há qualquer menção a Cristo. Que lugar estranho e inesperado é esse? A princípio, parecem locais agradáveis e cheios de pessoas simpáticas e inteligentes. Pena que, algumas décadas antes, Machen já tinha respondido essa charada: “pode-se muito bem questionar se ao ganhar o mundo todo não perdemos a nossa própria alma”. É o único lugar para onde a Bíblia Secular pode nos levar.

Escrito por Josaías Jr | iPródigo

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