De um símbolo de medo para um símbolo de fé

por Keith A. Mathison

Keith Mathison
Keith Mathison

Imagino, às vezes, quantos cristãos param para refletir sobre o quanto é estranho que crucifixos sejam usados como objetos de arte. Crucifixos adornam igrejas, pinturas clássicas, escultura e até jóias. Pense por um momento o que o crucifixo era originalmente. Era uma forma de execução. Na verdade, era, e ainda é, uns dos meios mais medonhos de execução já inventado pelo homem. Tão terrível que era reservado para o mais baixo dos baixos: escravos, piratas e rebeldes. Cidadãos romanos eram isentos. Romanos cultos consideravam um assunto indigno de ser tratado em uma conversa educada. Apesar disso, hoje usamos esse símbolo de morte degradante e humilhante em volta dos nossos pescoços. A natureza chocante disso não é imediatamente aparente para nós porque, com o tempo, o símbolo da cruz perdeu muito das suas conotações originais. Para ter uma ideia da esquisitice, imaginem pessoas usando colares com pingentes de guilhotina ou uma cadeira elétrica.

O que aconteceu, então, que explica essa mudança? Nós sabemos que Jesus foi morto numa cruz romana, mas o que há na morte dele que transformou o símbolo de horror num símbolo de esperança? Nos relatos dos Evangelhos sobre a crucificação lemos, na maior parte, sobre o que qualquer observador na montanha aquele dia teria visto. Nós não lemos o suficiente sobre a interpretação do que aconteceu até chegarmos no livro de Atos e as Epístolas. Na pregação de Paulo, por exemplo, ele explicou através do Antigo Testamento que era necessário que o Messias sofresse e que este Messias era Jesus (Atos 17.2-3). Mas onde Paulo teria se baseado no Antigo Testamento para provar que era necessário que o Messias sofresse? Há inúmeros textos que ele poderia ter se baseado. (por exemplo, Salmo 16.22), mas um dos mais significantes provavelmente foi Isaías 52.13-53.12.

Isaías 52.13-53.12 é um dos “Cânticos do Servo” de Isaías. No primeiro Cântico do Servo (42.1-9), Isaías descreve a missão do Servo de estabelecer justiça e o reino pela Terra. O segundo Cântico do Servo (49.1-6) descreve a missão do Servo de restaurar Israel. O terceiro Cântico do Servo (50.4-9) revela a obediência do Servo e o sofrimento que ele passa como resultado. O quarto e último Cântico do Servo revela então como o Servo redimirá seu povo. Revela que o sofrimento será o meio pelo qual ele resgata seu povo. Revela que seu sofrimento será o meio pelo qual ele liberta seu povo do pecado. Revela que sobre Si, Ele levará os pecados deles. Isaías escreve (53.5):

Mas ele foi ferido por nossas transgressões;

Ele foi atravessado por nossas iniquidades;

O castigo sobre ele nos trouxe a paz,

E por suas feridas fomos sarados.

Foi isso que aconteceu na cruz que Jesus foi crucificado. Ele era o Servo de Deus. Ele era aquele quem Deus revelou a Isaías oito séculos antes de Sua morte. Na cruz, ele tomou nossos pecados sobre si e aplacou a ira de Deus. Sua morte foi a propiciação para todos os nossos pecados. Nós que temos fé em Jesus alcançamos perdão dos pecados e paz com Deus pelo o que foi conquistado na cruz. Não é de admirar que Paulo declara a Igreja de Corinto: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2.2).

Pense nisso. Reflita. Cristo sofreu e morreu na cruz por causa do pecado. Seu pecado. Meu pecado. Desde a queda, o pecado tem sido o problema no mundo. Nós não pensamos muito no pecado em nossos dias. Estamos além dessas coisas. Pecado é um conceito antiquado e desatualizado, ou pelo menos é assim que a gente pensa.

Se você quer entender a real perspectiva sobre a seriedade do pecado, contudo, olhe pra cruz. Olhe para a natureza extrema da solução desse problema. Se o pecado não fosse “grande coisa”, Deus mandaria seu filho unigênito para morrer uma morte vergonhosa na cruz pra resolver isso? E que tipo de amor é esse? Que tipo de amor Deus demonstra quando ele manda seu único filho para morrer pelos pecados que nós cometemos contra ele? Esse amor é de um tipo e de um grau que dificilmente conseguimos compreender. Foi isso que mudou a cruz de um símbolo de medo para um símbolo de fé. Isso que levou Isaac Watts a escrever:

Ao contemplar a tua cruz

E o que sofreste ali, Senhor

Sei que não há , ó meu Jesus

Um bem maior que o teu amor.

 

Quero somente me gloriar

Na tua cruz, meu Salvador,

Pois que morreste em meu lugar!

Teu, sempre teu serei, Senhor.

 

De tua fronte, mãos e pés,

De teu ferido coração,

Teu sangue em dores tão cruéis

Deste por minha redenção.

 

Ao contemplar a tua cruz,

O teu sofrer, o teu penar

Quão leve sinto, ó meu Jesus,

A que me deste a carregar.

 

Tudo o que eu possa consagrar

Ao teu serviço, ao teu louvor,

Em nada poderei pagar

Ao que me dás em teu amor

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Traduzido por Débora Batista | Reforma21.org | Original aqui

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