Introdução ao Evangelho (3)

por Paul Washer

(as duas primeiras partes deste artigo podem ser lidas aqui e aqui)

Um Evangelho pelo qual somos salvos

…por ele também sois salvos… (1 Coríntios 15:2)

Paul Washer

A maior promessa do Evangelho é a Salvação. Todas as outras promessas e benefícios empalidecem quando são comparados a esta única coisa – que o Evangelho é o poder de Deus para salvação [16] e quem invocar o nome do Senhor será salvo [17]. De acordo com 1 Pedro 1:9, a salvação é o próprio fim ou objetivo da fé do crente. É o fim ou objetivo por trás de tudo o que Cristo fez. É a grande esperança do verdadeiro crente, e o objetivo em direção ao qual ele se esforça. Deus não poderia dar um presente melhor e o crente não poderia ter uma esperança ou motivação maior do que a salvação definitiva por meio do Evangelho de Jesus Cristo.

O presente da salvação é magnificado ainda mais quando nós percebemos o que nós éramos antes de Cristo e o que nós merecíamos naquele estado. Nós éramos pecadores por natureza e por ações, e éramos corruptos ao ponto da depravação. Éramos infratores e criminosos sem desculpa ou apelo diante do tribunal da justiça de Deus. Nós não merecíamos nada menos que a condenação eterna, mas agora somos salvos pelo sangue do próprio Filho de Deus. Enquanto éramos pecadores desamparados e inimigos de Deus, Cristo morreu pelos ímpios [18]. Por meio dEle, nós que estávamos distantes fomos trazidos para perto [19]. Nele, temos a redenção por meio do Seu sangue, e o perdão de nossos pecados, de acordo com as riquezas de Sua graça[20].

Nós fomos salvos do nosso pecado, reconciliados com Deus e trazidos a uma amizade com Ele como filhos! O que mais poderíamos desejar, do que mais precisamos? O presente da salvação por meio do sangue do próprio Filho de Deus não é suficiente para encher nossos corações até transbordar por uma eternidade de eternidades? Náo é suficiente para nos motivar a viver por Aquele que morreu? Que necessidade temos de outras promessas? Nós vivemos por Ele mais porque Ele nos promete não apenas salvação, mas também cura, vida fácil, riqueza e honra? O que são essas coisas se comparadas ao presente da salvação e a conhecê-Lo? Fora com aqueles que procuram convencer-nos à devoção prometendo outras coisas que não Jesus Cristo. Se todos os que nós já amamos forem tomados de nós, e se nosso corpo apodrecer sobre um monte de esterco, e se nosso nome for difamado por amigos da mesma forma que por inimigos, nós ainda devemos encontrar toda a devoção de que precisamos para amar, adorar e servir ao Mestre neste único fato – Ele derramou Seu próprio sangue por nossas almas. A religião pura e imaculada é abastecida por esta única paixão sagrada.

Por que é que a promessa da salvação eterna sozinha não parece ter tanto poder para atrair os homens a Cristo? Por que o homem moderno está mais interessado em como o Evangelho pode ajudá-lo nesta vida presente? Primeiro, é porque os pregadores não estão mais pregando sobre a certeza de um julgamento e os perigos do inferno. Quando estas coisas são pregadas biblicamente e claramente, os homens começam a ver que a maior necessidade deles é serem salvos da condenação eterna, e as necessidades “mais práticas” da presente era tornam-se triviais em comparação. Segundo, precisamos entender que a grande maioria dos homens, nas ruas e nos bancos de igreja, são carnais, e homens com uma mente carnal amam mais este mundo do que o próximo. Eles têm pouco interesse nas coisas de Deus e na eternidade [21]. A maioria deles prefere ir a uma conferência sobre auto-estima e auto-aperfeiçoamento do que ouvir um sermão sobre a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor [22].

Embora seja verdade que o Evangelho pode melhorar – e geralmente melhora o estado e as condições de vida de alguém, como mordomos do evangelho, devemos evitar a tentação de atrair ouvintes e membros com qualquer promessa ou suporte que não sejam Jesus Cristo e vida eterna. Embora isso possa ser além do radical nesta era moderna de evangelismo, nós faremos bem em gritar às massas, “Jesus Cristo promete a vocês duas coisas: uma salvação eterna na qual vocês devem ter esperança e uma cruz na qual vocês devem morrer. O Espírito e a noiva dizem ‘Vem’.”

Um Evangelho para ser retido

…se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. (1 Coríntios 15:2)

A doutrina da “Perseverança dos Santos” [23] é uma das mais preciosas verdades para o crente que a entende. É o maior conforto e encorajamento saber que Aquele que começou a boa obra em nós vai completá-la [24]. Porém, esta doutrina tem sido grosseiramente pervertida e tem se tornado o instrumento chefe em dar falsa segurança a incontáveis indivíduos que ainda não foram convertidos e ainda estão em seus pecados.

No texto acima, o apóstolo Paulo escreve “…sois salvos, SE retiverdes a palavra…”. A palavra “se” introduz uma cláusula condicional que nós não devemos ignorar e não podemos remover. Uma essoa é salva “se” ela retiver o Evangelho, mas “se” ela não retiver o Evangelho, ela não é salva. Isto não é uma negação da doutrina da perseverança, é uma explicação dela. Ninguém que verdadeiramente crê a respeito da salvação será jamais perdido para a destruição eterna. A graça e o poder de Deus que o salvaram vão também mantê-lo  até aquele dia final, mas a evidência de que eles verdadeiramente creram é que eles continuam nas coisas de Deus e não viram as costas para Ele. Embora eles ainda lutem contra a carne e estejam sujeitos a muitas falhas, o curso completo de suas vidas irá revelar um progresso definido e notável tanto na fé como na piedade. A perseverança deles não os salva nem os transforma em objetos da graça, mas revela que eles são objetos da graça e que são verdadeiramente salvos pela fé. Para colocar de uma forma mais clara, a prova ou validação da conversão genuína é que aquele que professa a fé em Cristo persevera naquela fé e cresce em santificação ao longo do curso completo de sua vida. Se um homem professa uma fé em Cristo e ainda assim cai, ou não faz nenhum progresso na piedade, isso não significa que ele perdeu sua salvação, isso simplesmente revela que ele nunca se converteu.

Esta verdade tem implicações tremendas e de longo alcance para muitos que professam a fé em Cristo. Quantos nas ruas e nos bancos de igreja acriditam que eles são “salvos” e completamente “cristãos” porque um dia eles fizeram uma oração e pediram a Jesus para entrar em seus corações? A vida deles nunca mudou, eles não mostram nenhuma evidência da graça de Deus e ainda assim eles se mantêm certos de sua salvação por causa de uma decisão que eles tomaram no passado e por causa da crença de que suas orações foram realmente sinceras. Não importa quão popular seja esta crença, não há base bíblica para ela.

É verdade que esta conversão acontece em um momento específico no tempo onde os homens passam da morte para a vida por meio da fé em Jesus Cristo. Porém, a certeza bíblica de que uma pessoa passou da morte para a vida não é baseada meramente no exame do momento da conversão, mas no exame da vida da pessoa daquele momento em diante. No meio de tanta carnalidade, o apóstolo Paulo não pede aos coríntios para reavaliarem a experiência de conversão deles no passado, mas para examinarem a vida deles no presente [25]. Nós faríamos bem em seguir a liderança de Paulo no aconselhamento de supostos convertidos. Eles precisam saber e nós precisamos ensiná-los que a evidência de uma genuína obra de salvação de Deus no passado é a continuidade da mesma obra até o dia final.

[16] Romanos 1:16

[17] Romanos 10:13

[18] Romanos 5:6-10

[19] Efésios 2:13

[20] Efésios 1:7

[21] Romanos 8:5

[22] Hebreus 12:14

[23] A doutrina da perseverança é descrita no seguinte sumário tirado do Resumo dos Princípios: “Aqueles a quem Deus aceitou no Amado, e santificou por Seu Espírito, nunca irão cair total ou finalmente do estado de graça, mas certamente vão perseverar até o fim…”

[24] Filipenses 1:6

[25] 2 Coríntios 13:5

(Termina na parte 4)

Traduzido por Daniel TC | iPródigo | original aqui.

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